Io Capitano: uma cruel jornada de realismo e fantasia

Dois garotos cuja ingenuidade da juventude os faz sonhar com uma vida melhor para si e sua família em uma utópica e distante Europa. O tráfico humano abre portas para sua jornada. No seu caminho, um deserto de horrores os forçará a tornarem-se homens da mais dolorosa e injusta maneira possível. Em um cenário desesperador, onde a esperança se vê perdida, o conforto é buscado no fascínio do mundo fantástico e espiritual, pois os delírios são o último refúgio daqueles que não tem mais para onde correr.

Io Capitano (Eu Capitão) busca chocar com a crueza da violência, e sensibilizar com o lirismo de seus delírios folclóricos e/ou religiosos. A crueldade quase impensável pela qual as personagens são submetidas revolta por retratar situações tão reais quanto as mãos que escrevem este texto. No filme ficam impressas as imagens de uma realidade distante tão próxima e chocante quanto assustadora, e na mente a sensação de impunidade de quem pouco pode fazer para mudá-la.

Io Capitano bate e humilha, então é com alívio que ambos personagens e público, completamente exaustos, recebem os devaneios sobrenaturais. A poesia textual e visual de tais momentos é de um encanto mórbido que soa como um desconfortável respiro em meio à toda violência e desespero contidos na jornada dos garotos. É inevitável sentir-se culpado por enxergar fascínio em situações que deveriam originar apenas desespero e repulsa no público, e penso ser exatamente isso que a realização de Io Capitano buscou fazer sentir quando pensou tais cenas. Trazer o desconforto e mal estar mesmo para os momentos de maior respiro da obra.

Há quem diga que a Itália exclua a si mesma de fazer parte do problema em relação à situação dos refugiados, uma vez que o filme, por ser italiano, representa a nação como um destino de esperança e oportunidades para aqueles que são oprimidos pela pobreza. Recebo tais comentários com intriga, e assumo que sinto a necessidade de reassistir ao filme e discutir ou conferir discussões acerca do assunto para assumir uma posição concreta, mas, a princípio, enxergo tal escolha narrativa muito mais como uma representação da ingenuidade e imaturidade das personagens centrais, do que necessariamente uma romantização dos cineastas italianos para com sua nação. É notável, por exemplo, que em certo ponto de sua jornada, a dupla de meninos passe a considerar a Itália como um último possível e necessário destino, devido a situação na qual se encontram, e não mais como o fim paradisíaco e dourado depois de uma cansativa e árdua viagem à procura da terra das oportunidades. Os garotos são espancados pela realidade do tráfico humano, forçados assim a se tornarem homens, e passar a enxergar as coisas como elas realmente são: feias, sujas e injustas.

Io Capitano mescla realismo e fantasia de modo a sempre deixar seu público fora de sua zona de conforto. Não é um filme fácil, pois opta pelo choque, apesar de talvez se isentar de certas responsabilidades. De uma forma ou de outra, fala o que anseia com uma voz que oscila entre a agressividade e a sensibilidade, mas que se propaga com tremenda potência e impacto.


Io Capitano
Eu Capitão

ANO: 2023

PAÍS: Itália

DURAÇÃO: 2h 1min

REALIZAÇÃO: Matteo Garrone

ELENCO: Seydou Sarr, Moustapha Fall, Issaka Sawadogo

+INFO: IMDb

Io Capitano

Previous ArticleNext Article

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *