Judas and the Black Messiah peca em algumas partes mas é sublime!

«Eu sou um revolucionário! Eu sou um revolucionário!» são as palavras que ecoam na minha mente quando penso na obra de Shaka King e que, provavelmente, ecoarão para sempre. Daniel Kaluuya, LaKeith Stanfield, Dominique Fishback e Jesse Plemons surgem monstruosos neste que poderá ser um dos melhores filmes do ano. Em Judas and the Black Messiah conhecemos as histórias de Fred Hampton – Kaluuya – e Bill O’neal – Stanfield – onde, tal como o Messias, Hampton é traído por Judas, no caso, O’neal. Mas este filme é muito mais do que o seu título, este filme é uma homenagem a Hampton e uma analogia aos dois lados de uma – suposta – mesma moeda.

Vou ser totalmente honesta e contar-vos um segredo… sabia que a história era baseada em fatos reais, mas não sabia muito sobre Fred Hampton, – o que, tendo em conta todo o meu ativismo, pode ser vergonhoso – muito menos sobre Bill O’neal. Mas também não sabia o quão impactante esta história seria para mim e foi – é! A atuação brilhante de Daniel Kaluuya – que ganhou um Globo de Ouro, um Óscar e muito mais, merecendo todos os prémios possíveis – e o facto de Shaka King, realizador e um dos argumentistas do filme, ter trazido temas e discussões necessárias para os dias de hoje, mesmo que a narrativa tenha um contexto dos anos 60, são só a ponta do iceberg sobre o porquê do filme ser tão bom.

Fred Hampton era um ativista afro-americano, presidente do partido dos Panteras Negras no estado de Illinois, cujos ideais colidiam contra um estado americano estruturalmente racista. Hampton queria que o povo se revolucionasse e lutasse contra os seus opressores e, para isso, teve a visão de que se todos os que estavam a ser oprimidos, independentemente de serem negros, se juntassem teriam mais hipóteses de vencer aquela guerra. Tendo em conta o espaço que o ativista estava a ganhar, o estado decidiu intervir e é aqui que entra o personagem de Stanfield. Bill O’neal é um criminoso, afro-americano, que depois de ser apanhado por Roy Mitchell – papel de Jesse Plemons – é coagido a infiltrar-se dentro do partido e passar informações ao FBI.

A história é contada através do olhar do traidor e mesmo achando que o filme tem muito mais de positivo do que negativo é talvez por este caminho que vejo as suas falhas. Mesmo tendo feito um trabalho excecional como Judas, Stanfield deixa um pouco a desejar, especialmente quando o comparamos com Daniel Kaluuya. Talvez terem tentado dar o mesmo espaço de antena para ambos tenha sido o caminho errado: as histórias individuais foram bem desenvolvidas mas o enlace de ambas peca por não parecer percetível ao olhar. A traição final tem impacto, mas algo me diz que se a ligação entre ambos tivesse sido melhor desenvolvida eu não teria derramado apenas umas quantas lágrimas e, sim, um mar delas.

Sabemos quem é um, sabemos quem é o outro mas não sabemos quem são eles os dois juntos, no mais, sabemos quem é O’neal com Mitchell. Apesar disso, a dinâmica de ambos serviu o seu papel. Tanto Hampton quanto O’neal lutavam pelo poder e liberdade. No entanto, se para o primeiro esses objetivos estavam representados na igualdade, na justiça, no socialismo, para o segundo, eles estavam simbolizados no capitalismo, na riqueza. Seriam eles, dois lados de uma mesma moeda? Talvez sim… talvez não…

Falar sobre a longa-metragem e não mencionar Dominique Fishback, actriz que interpreta Deborah Johnson, namorada de Hampton, é cometer um erro lastimável. Fishback brilha em todas as cenas e representa o poder, a força e resiliência das mulheres negras. E o que dizer da sua interpretação no final: o seu olhar, a sua postura… formidável!

Independentemente das suas falhas, – um segundo ato menos forte do que os demais, a distância dos protagonistas –  Judas and the Black Messiah é muito mais do que os seus erros. Os seus acertos, como a cinematografia de Sean Bobbitt, a representação do elenco, a trilha sonora e o argumento falam muito, mas muito mais alto, garanto-vos!

Sintam a força de Deborah Johnson, percam-se nos discursos de Fred Hampton, odeiem – ou não – Bill O’neal, façam o que quiserem… desde que vejam a obra de Shaka King! Desafio-vos a não repetirem «eu sou um revolucionário», «eu sou um revolucionário».


Judas and the Black Messiah
Judas e o Messias Negro

ANO: 2021

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 2h 6min

REALIZAÇÃO: Shaka King

ELENCO: Daniel Kaluuya, LaKeith Stanfield, Jesse Plemons

+INFO: IMDb

Judas and the Black Messiah

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