Kandisha – Uma lenda marroquina no centro de um eficaz terror teen francês

Os vários projetos em conjunto de Alexandra Bustillo e Julien Maury têm deixado a sua marca no cinema de terror. Não há um único filme da dupla que seja consensual. Não há um filme que não tenha os seus detratores. Não há, ainda assim, também, um único dos seus filmes que deixe alguém indiferente e isso, normalmente, é uma marca de identidade própria e originalidade da qual nem todos se podem orgulhar.

Kandisha é uma história sobrenatural, muito ao estilo do que já vimos antes, por exemplo, em Candyman. Três raparigas adolescentes descobrem uma inscrição numa parede de um prédio prestes a ser demolido e percebem que se trata de uma referência a um entidade sobrenatural do folclore marroquino, chamada Kandisha. Pouco depois, uma delas desperta essa entidade, não acreditando muito que isso possa surtir efeito, nem percebendo todas as implicações decorrentes desse chamamento. É uma história que não parece muito original na sua aparência e até as (inteligentes) personagens brincam com isso antes da invocação. Mas é precisamente na força dessas personagens que este filme faz a diferença.

Eu sou um fã desta dupla de realizadores e da forma como os mesmos constroem as suas personagens. Fã da forma como eles constroem primeiros actos sem muita pressa, introduzindo-nos personagens, o seu contexto, mostrando-nos, desde logo as suas forças e as suas fraquezas. E aqui isso volta a acontecer. Primeiro, temos um filme de terror focado num grupo de jovens diferentes do normal. Estamos a falar de três raparigas de um bairro social, que se divertem a fazer algumas coisas fora da norma, que vivem a lutar contra várias dificuldades e que parecem bem mais reais do que as habituais personagens teens de filmes norte-americanos.

Não há aqui perfeição. Bustillo e Maury sabem que os jovens são capazes de o melhor e do pior e replicam aqui um pouco a fórmula de “Aux yeux des vivants”, embora com personagens um pouco mais velhas e com um tom sobrenatual – ainda assim, continua a ser uma eficaz história “coming-of-age”. As personagens principais – Amélia, Bintou e Morjana – são todas elas diferenciadas, fortes e muito bem representadas, mas até compreendo que não agradem a todos. Isto é um filme, claramente, francês, com identidade própria, com jovens que representam uma cultura e identidade muito próprias, de imigração, de dificuldades, de adversidade, mas jovens também habituadas a virarem-se sozinhas, sem o politicamente correto que vemos em filmes norte-americanos.

Mas não é apenas com base nas personagens fortes que o filme assenta. Os fãs de gore terão aqui bastantes momentos que os farão sorrir, com a dupla Bustillo/Maury a não ter, mais uma vez, qualquer problema em mostrar tudo em cena, tal como o fazem desde a sua aclamada estreia, com “À l’intérieur”. Há bastantes momentos acima da média, mas também alguns questionáveis (como a morte de um animal em cena), que farão os mais sensíveis levantar as suas vozes em protesto, mas que, para mim, são um ponto forte, ao dar um maior realismo ao que assistimos.

Não querendo spoilar, não posso, ainda assim, de deixar de elogiar algumas das mortes em cena, em especial uma, com cerca de 01:09:00, que é uma das mais marcantes mortes a que já assisti em filmes de terror, acompanhada por um fantástico uso da câmara, com um dolly zoom (efeito Vertigo), que não me lembro de ter visto tão bem aplicado no género (a lembrar a famosa cena de Jaws, por exemplo).

No quadro da entidade sobrenatural, a entidade está, visualmente bastante bem construída e aterroriza, embora eu gostasse de ter visto mais dela em cena. Aliás, penso que isso estará relacionado com o maior ponto fraco do filme. Gostava que as mortes pudessem ter tido uma maior antecipação (por vezes, parecem apressadas) e que tivesse sido criado um clima de maior tensão ao redor do que acontecia. Senti falta, também, de uma maior exposição ao folclore marroquino e às diferenças culturais associadas, percebendo como aquela história chegou até àquela cidade.

De qualquer forma, Kandisha é um filme com uma identidade muito própria, sem medo de chocar o espetador e que mostra adolescentes a serem adolescentes. É, também, um slasher sobrenatural, com excelentes momentos de gore e um interessante contexto social, poucas vezes explorado no terror.


Kandisha
Kandisha

ANO: 2020

PAÍS: França

DURAÇÃO: 85 minutos

REALIZAÇÃO: Alexandre Bustillo e Julien Maury

ELENCO: Mathilde Lamusse, Suzy Bemba, Samarcande Saadi

+INFO: IMDb

Kandisha

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