A mestria do necessário e inquietante Killers of the Flower Moon

Na primeira cena de Killers of the Flower Moon, recuando ao passado, Martin Scorsese decide, sob a forma de prólogo, mostrar-nos uma cerimónia fúnebre onde a principal mensagem passada é a de que a tribo Osage tem o destino traçado e esse passará pela sua assimilação e subjugação por outra cultura. De forma crua e cruel, o cineasta alerta todos os que não estão familiarizados com a história de que isto não vai ser uma visualização fácil. A primeira cena é impactante. Ainda assim, não supera o impacto emocional que a última cena – inesperada, inspirada e provocatória – irá despertar nos espectadores. Entre uma e outra cena decorrem mais de 200 minutos de filme. 

A duração deste filme – oficialmente, 206 minutos com créditos – deu sempre muito que falar, mas, depois de tudo visto, a mesma mais do que se ajusta ao escopo pretendido. Partindo de uma perspetiva de um casal misto – uma rapariga da tribo Osage, Mollie (Lily Gladstone) e um homem branco que só agora chega à Nação Osage mas que conta com influentes familiares na região, Ernest (Leonardo DiCaprio) – assistimos a vários acontecimentos que vão transformando o modo de viver daquelas pessoas e daquele lugar. Os brancos misturam-se, os brancos casam-se com os locais, os brancos criam famílias e, aos poucos, Scorsese vai juntando as peças de um complexo puzzle de modo muito cauteloso, muito sofisticado, mas também muito inquietante. Assassinatos vão acontecendo a um ritmo alucinante na região e todos eles apresentam como vítimas elementos da população nativa local.  Logo agora que o petróleo vai dali jorrando, transformando aquela nação que sempre foi cheia de vida numa nação financeiramente próspera e desejada por todos os que nunca antes lhe deram grande importância. Mas quem poderá estar por detrás de todas aquelas mortes e quem poderá ter algo a ganhar com tudo aquilo?

A complexidade de Killers of the Flower Moon não se pode reduzir aos seus temas principais. A ganância dos homens e a sua corruptibilidade é, notoriamente, o que está no centro do puzzle, tal como muitas vezes esteve na filmografia de Martin Scorsese. No entanto, Scorsese não pretende apenas falar sobre estes homens em específico. As suas referências a um período conturbado da história dos Estados Unidos da América e a movimentos de supremacia branca estendem-se até a casos como o massacre de Tulsa e a ascensão do Ku Klux Klan. A criação do FBI também merece o seu destaque na última hora, embora o filme sempre seja muito mais sobre relações – familiares e de poder – do que propriamente um thriller investigativo. A Martin lhe importam os homens. Os bons e os maus. Os manipuláveis e os manipuladores. Todos os que ao poder não conseguem resistir e todos os que calados vão contribuindo para os horrores de demasiadas vítimas.

E no meio desta teia de homens maus e suas vítimas, o realizador nunca se esquece das vítimas maiores desta história real que merece ser vista e partilhada com todo o mundo. Mesmo quando os acontecimentos nos são apresentados maioritariamente sob o ponto de vista agressor – é inegável que a personagem de Di Caprio tem o maior foco – estes nunca deixam espaço a duplas interpretações sobre o que foi feito àquele povo e àquelas famílias. Muitos se questionarão se este será o melhor ponto de vista para apresentar esta história, mas aí eu coloco a questão: haverá melhor ponto de vista para ser apresentado por um homem branco? Não será este mesmo o melhor papel para alguém como Martin Scorsese que demonstra não se esconder das suas dúvidas através de uma explosiva cena final?

Num filme longo, e com bastante ênfase dada aos diálogos e relações pessoais, é exigível que os atores estejam à altura da dimensão da obra. E estão. Leonardo DiCaprio é aquele que tem direito a um maior tempo em cena. É um DiCaprio – não surpreendentemente – excelente no papel de Ernest, mas é surpreendente que Ernest seja uma personagem tão difícil de trabalhar pelos motivos menos óbvios. É que Ernest é pouco inteligente, tal como várias personagens fazem questáo de o demonstrar por palavras ou atos no decorrer do filme. Nem sempre toma as decisões certas, mas nem sempre as más decisões partem de si. É, ainda assim, durante grande parte do filme difícil perceber se essas decisões não partem de si por outro motivo que não seja apenas a sua enorme inaptidão para elaborar qualquer complexo plano que seja. Essa inoperância da personagem, muito bem realçada pelo ator, não o iliba das suas ações e releva ainda mais a importância do último diálogo do filme quando confrontado por Mollie.

Falando de Mollie, o que Lily Gladstone faz com esta personagem é fascinante. Desde as primeiras cenas que parece que somos enfeitaçados cada vez que a mesma está no ecrã, transmitindo-nos uma certa tranquilidade, sabedoria e mistério através de muito poucas palavras. Ao longo do filme, o seu arco vai para caminhos inesperados, mas a atriz nunca se perde, antes pelo contrário, elevando a sua atuação quando mais da personagem é pedido. Seria tentador querer Mollie com um discurso maior no terceiro ato, mais efusivo, com um momento mais espalhafatoso, de partir a loiça toda. Mas isso iria completamente contra a personalidade da personagem e também contra tudo o que nos é dito sobre os Osage bem cedo na obra. Sabemos – através de William King Hale (Robert De Niro) – que eles são pessoas que preferem ficar caladas, preferem que o silêncio e os tolos falem, não querendo com isso dizer que não percebam tudo o que se passa, possuindo uma grande sabedoria. Lily Gladstone é a exata personificação disso mesmo e o que faz no ecrã é sempre arrebatador, através de microexpressões que tudo são capazes de transmitir. Por fim, falando de De Niro, é impossível não constatar que este seja, talvez, o seu papel que mais impressiona nas últimas décadas. Entra por completo na personagem de King Hale e não se limita a “fazer de De Niro” como tantas vezes tem acontecido nos últimos anos. King Hale é o que é, não é o que sempre parece, mas é, sobretudo, estupidamente bem construído e há uma lenda a encaixar nesse papel na perfeição.

No campo técnico, este é também, como seria de esperar, um trabalho de mestria. Rodrigo Prieto traz-nos a sua habitual excelência na fotografia, com vários momentos de nos tirar o fôlego, variando bastante tanto na luminosidade quanto nas técnicas empregadas de acordo com o que nos quer fazer sentir em cada momento. A início, os Osage são-nos mostrados através de uma fotografia com cores mais vivas, mais representativas do momento que se vive na comunidade. Isso muda quando passamos para personagens e relações mais cinzentas ao longo da história, com os tons mais sombrios a ganhar destaque. Thelma Schoonmaker impressiona na edição, tendo sempre – passados tantos anos – truques nas mangas na forma como vai montando as suas peças. Os retratos dos Osage que nos vão sendo dados nunca nos deixam respirar de alívio pois é esse o efeito pretendido e a forma como transforma um longuíssimo filme em algo tão fluído é notável. Não menos impressionante é o trabalho de design de produção – de Jack Fisk – que dá vida própria e personalidade a toda aquela nação com uma naturalidade assombrosa. Mas, claro, todas estas peças e outras mais – sim, a banda-sonora de Robbie Robertson é, simultaneamente, inquietante e envolvente – só fazem sentido nas mãos de um mestre e é isso que Martin Scorsese é. 

Desde a cena inicial percebemos estar nas mãos certas e apenas nos compete ser levados até ao destino final por um cineasta ímpar na condução de homens e de histórias. As peças do puzzle complexo e inquietante vão sendo encaixadas à nossa frente de uma forma tão bela de se ver artisticamente quanto devastadora do ponto de vista da moralidade humana. O final é tão inesperado quanto provocatório e provocou-me arrepios em todo o corpo.


Killers of the Flower Moon
Assassinos da Lua das Flores

ANO: 2023

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 206 minutos

REALIZAÇÃO: Martin Scorcese

ELENCO: Leonardo DiCaprio; Robert De Niro; Lily Gladstone; Jesse Plemons

+INFO: IMDb

Killers of the Flower Moon

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