Rei e rainhas brilham em King Richard

King Richard talvez não seja o que possam pensar que é. Aqui não se fala de monarquias, mas fala-se de rainhas que chegaram ao topo do mundo e de um rei que, com um plano perfeito, venceu todas as batalhas que pareciam impossíveis.

Serena Williams e Venus Williams. Se viveram desde meados dos anos 90 numa ilha deserta, basta dizer que estas irmãs chegaram ao topo do seu desporto, estando entre as melhores atletas que o ténis algumas vez viu. A mais nova delas, Serena, até é por muitos considerada a melhor tenista de sempre! Mas qual será a a probabilidade de duas irmãs negras, vindas das classes baixas de Compton, singrarem, tornando-se numa das famílias mais bem-sucedidas da história do desporto e logo num desporto que nunca foi o mais barato de se praticar? A probabilidade é muito pouca mesmo. É por isso que é importante falar e estudar como tudo isso começou, como se desenvolveu e como grande parte do sucesso parte de um homem que arquitetou um plano, para muitos, impossível: o seu pai, o Rei Richard.

Richard Williams nunca foi – nem é – um homem isento de falhas. Uma coisa que não irei aqui fazer é julgar a fidelidade desta biografia em relação ao sujeito em causa. Nós somos um conjunto de vários mundos e cada pessoa à nossa volta vê uma ou mais das nossas facetas, mas ninguém vê todas. Nem nós próprios o conseguimos fazer. Para alguns dos seus filhos – e ele teve cinco com a sua primeira mulher! – Richard é apenas o “doador de esperma”. Para Serena e Venus ele foi um verdadeiro pai. Para as mulheres da sua vida, Richard foi, por vezes, pouco, outras vezes, tudo. Para alguns, é um sujeito arrogante que teve a maior sorte do mundo. Para outros, é alguém metódico que só através da sua autoconfiança e perseverança poderia ter alcançado tudo o que alcançou. Esta é uma das várias versões do homem, onde apesar de tudo, não se tenta demonizar nem beatificar a personagem. No final, ficamos com a certeza que numa coisa ele não falhou: na sua contribuição essencial para o que Venus e Serena se viriam a tornar.

Essas várias facetas do homem são incrivelmente absorvidas por Will Smith. Quem ainda pensa que Will Smith é apenas um ator de ação e comédia – ainda existem essas pessoas?! – tem aqui mais uma oportunidade de colocar a viola no saco e render-se às evidências. Percebe-se o quanto o ator deu de si num papel imortal, onde muito diz com as palavras e mais ainda com as suas expressões faciais e corporais. Will Smith deslumbra e come todas as cenas onde tem a oportunidade de o fazer, mas confesso que admiro muito o que Reinaldo Marcus Green conseguiu fazer em termos de fluidez da história e da criação de espaço para outros brilharem. Aunjanue Ellis brilha como Brandy, a mãe das irmãs, sendo várias vezes o balanço perfeito para a dureza de Richard, provando que também sem ela nada disto teria sido possível. E o que dizer das jovens que interpretam as manas Williams? Demi Singleton dá uma excelente profundidade ao papel de Serena, que se sentia,
à época, na sombra da irmã – embora, segundo Richard, tudo fizesse parte do plano! – e Saniyya Sidney é uma autêntica força da natureza, transmitido uma credibilidade incrível aos sonhos e dúvidas de Venus, roubando grande parte do filme. Todos os outros atores secundários do filme se apresentam a um grande plano, com especial destaque para a excelente caracterização e interpretação de Jon Bernthal no papel do treinador Rick Macci. Tecnicamente, o filme está sempre, também, a um nível superior. Pegando num guião bastante coeso, não comete erros na realização, na edição, na banda sonora, na caracterização ou no cuidado que tem com todos os elementos que representam o início dos anos 90.

Tinha dois grandes medos em relação a esta obra: um, que caísse no melodrama fácil, o que é habitual em biografias; outro, que ao ténis não fosse dada a devida importância. Green passa o teste com distinção. Embora tenha ficado com lágrimas nos olhos em determinadas ocasiões, o filme nunca força isso e nem procura ficar muito tempo nesse tipo de situações. Melhor, nunca é excessivamente expositivo. Nem quando toca no tema do racismo, nem quando fala da criminalidade no bairro em que as irmãs cresceram, nem quando percebemos os conflitos internos do Rei Richard (há um brilhante monólogo de Brandy a respeito disso e ao qual Richard responde a tudo com a sua expressão corporal); quanto ao ténis, poucas vezes senti o desporto de forma tão real no cinema. O ténis parece…ténis. Nota-se o trabalho de casa feito, nota-se que se consultou quem percebe do assunto, nada parece falso. É dado o devido destaque ao desporto e ainda temos direito a várias referências únicas para os fãs da modalidade. Pontos negativos? Gostava que o filme tivesse ido um pouquinho mais além na sua conclusão. Mas lá está, isso é uma decisão criativa e o realizador, claramente, quis este final. Ele quis mostrar-nos o trajeto do King até uma das suas filhas chegar ao profissionalismo com um contrato milionário. A viagem de Compton ao topo do mundo.

Se amam cinema, se adoram desporto, se acreditam em sonhos impossíveis, este filme é para vocês. Will Smith aqui não existe. Ele é mesmo King Richard e merece todos os aplausos que lhe queiram dar.


King Richard
King Richard: Para Além do Jogo

ANO: 2021

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 138 minutos

REALIZAÇÃO: Reinaldo Marcus Green

ELENCO: Will Smith; Aunjanue Ellis; Jon Bernthal; Saniyya Sidney; Demi Singleton; Tony Goldwyn

+INFO: IMDb

King Richard

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