Cobweb prende o público em sua teia satírica

Um cineasta frustrado, obcecado por uma recém descoberta ideia genial que pode fazer de seu já finalizado filme uma obra-prima + uma atriz sobrecarregada por uma agenda apertadíssima e o peso de um segredo comprometedor + um ator desesperado por ter de suportar as consequências de suas infidelidades amorosas + uma herdeira e aspirante à produtora, obcecada com a ideia de fazer parte de uma grande produção cinematográfica + uma produtora transtornada, enraivecida por estar no meio do caminho entre um realizador que insiste em sua autoralidade, e os critérios de uma censura violenta = um grande drama cinematográfico sobre o drama de desenvolver arte aos perrengues.

A equação é clara, o produto parece óbvio, mas… está incorreto. Cobweb é, na verdade, uma sagaz e muito bem humorada sátira. A obra em questão tem tudo para sufocar seu público com gatilhos de ansiedade, mas, ao invés disso, decide fazer rir com o desespero de suas personagens.

Cobweb não é do tipo de comédia que arranca gargalhadas do seu público, por mais exageradas e caricatas que suas personagens sejam. Não. Mais comum que expôr os dentes em frente à tela, é o balançar de cabeça com um leve sorriso no rosto de quem identifica em si mesmo ou nos outros ao seu redor um espelho do que o filme apresenta. Mais do que uma trama sobre a produção de uma peça audiovisual, Cobweb é uma comédia que debocha do ego que somos capazes de alimentar nocivamente, e da nossa capacidade de perpetuar o caos mesmo nos ambientes mais controlados.

Rimos pois ouvimos os pensamentos auto terapêuticos de um cineasta que amaldiçoa quem o subestima e critica, e tapeia as próprias costas com desculpas amenizantes, elogios e esperanças de grandeza motivacionais; rimos pois uma personagem pensa ser uma boa ideia lidar com uma situação complicada, complicando-a ainda mais com a combinação de bebidas alcoólicas, cordas e fitas tape; rimos pois estamos diante de um elenco afiadíssimo que propositalmente entrega trabalhos caricatos, dando vida a atores que entregam atuações bestas levando-se muito a sério, em um universo em que tal entrega absurda é recebida com palmas e queixos caídos; rimos pois mesmo quando apresenta textos mais sérios, o trabalho de câmeras inventa movimentos cômicamente ágeis e dinâmicos que divertem com o simples uso da forma.

Cobweb é um filme esperto. Puxa em seu enredo alguns assuntos sérios, mas no fim das contas, quer apenas debochar do ego e pretensão do artista, e da nossa tendência ao caos. Tem sua camada meta, um filme dentro de um filme. Brinca com formatos: temos o próprio filme, colorido, com qualidade de imagem e som que estamos habituados, e temos o filme dentro do filme, em preto e branco, com imagem e som ruidosos, cheios de charme. Nada de novo aqui, é claro. A questão é o êxito de Cobweb em nunca perder seu público com desinteresse, utilizando de diferentes formatos, dinâmico ritmo, ágil movimentação e sagaz texto para nos prender em sua teia satírica.


Geomijip
COBWEB - A Teia

ANO: 2023

PAÍS: Coreia do sUL

DURAÇÃO: 2h15min

REALIZAÇÃO: Jee-woon Kim

ELENCO: Park Jeong-su, Krystal Jung, Oh Jung-se, Song Kang-ho, Lim Soo-yung, Jeon Yeo-been, Jang Young-nam

+INFO: IMDb

Geomijip

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