Em Lamb, o luto apresenta diferentes formas

A campanha de marketing de Lamb não deixava bem antever ao que isto vinha. É difícil não entregar nada do filme, por isso fiquemo-nos pelo que o trailer entrega: um casal sem filhos descobre no seu rebanho uma cria diferente: uma mistura de um carneirinho com bebé humano! O casal decide trazê-lo para casa e criá-lo como se fosse seu…

Claro que isto é estranho. Claro que cada vez que esta “criança homem-carneiro” aparece no ecrã, vocês têm duas grandes opções: ou compram e abraçam a nada usual história ou a acham uma completa palhaçada. Eu decidi aceitar. A verdade é que cada vez que a “criança homem-carneiro” está em cena, o nosso envolvimento para com ela vai crescendo. A figura não é logo mostrada de imediato, vai sendo mostrada aos poucos, o que pode ajudar a criar dúvida em que veio para a história totalmente a zeros ou pode ajudar a criar curiosidade em quem quer ver logo tudo.

O filme tem um ritmo lento. Tem aquilo que eu chamo “identidade A24”, visto que contém muitas das características comuns em filmes da produtora e que a faz ter tantos seguidores: planos estáticos, longos minutos onde pouco parece acontecer, uma certa sensação de inquietude, fotografia limpa e personagens que parece que têm algo a entalar-lhes a língua. Este tipo de filmes mais artísticos são uma faca de dois gumes para mim. Considero alguns fantásticos, considero outros profundamente secantes. Cheguei à conclusão de que o que diferencia os mesmos é normalmente a grau de sugestividade presente em cada cena e, principalmente, a tensão subjacente aos eventos que estão para vir. Como filme de terror, Lamb falha nesse sentido. Deixou-me desinteressado inicialmente, deixou-me com pouca vontade de lhe dar uma oportunidade depois de passada a excitação pelo “diferente”. No entanto, com o passar dos minutos fui descobrindo um novo filme em Lamb. Não o que eu vinha para ver – esperava algo na senda de Midsommar ou The Witch – mas um interessante drama, ainda que continuasse a ter alguns problemas identificados: o estilo minimalista ameaçava deixar cair o meu grau de atenção a cada momento.

Mas não aconteceu. Lamb funciona muito melhor quando nos conseguimos desamarrar das ilusões de um filme de terror. Não é isso que é. O filme resulta na forma como lida com o sentimento de perda, com o luto e com as estratégias que criamos para nos sentirmos melhor connosco próprios. Serão essas estratégias úteis, mesmo fazendo a coisa errada (como a forma como María lida com a mãe da criança-carneiro?)? Deveremos em primeiro lugar preocupar-nos com o nosso estado mental e emocional? Não estaremos, por vezes, a empurrar os problemas para um canto onde um dia teremos mesmo que ir limpar? Há muitas questões que podem ser levantadas tendo como base a situação apresentada e a maioria dessas respostas cai no campo da subjetividade. O filme dá-nos pistas, dá-nos vislumbres, tal como o faz em relação ao passado do casal e à perda que os mesmos viveram e tentam ultrapassar.

Esteticamente, Lamb é um filme deslumbrante. Fazer uso dos cenários exteriores dos campos islandeses ajuda e de que maneira! É uma fotografia ligeiramente escura, mas limpa, colocando-nos imediatamente num dia típico do Norte Europeu. Faz também todo o sentido no conceito do filme: um filme calmo, mas que, em determinados momentos, enegrece a alma através das suas mensagens subliminares. Quem realiza – Valdimar Jóhannsson – faz também um ótimo trabalho com a câmara e foca grande parte da sua atenção na personagem de María, representada elevadamente por Noomi Rapace, a grande estrela do filme.

Sem querer entrar em detalhes que estragam a experiência, a conclusão do filme parece responder a algumas questões, não tanto a outras, mas ajusta-se àquilo que o filme nos vinha apresentando até então: um drama com pozinhos fantasiosos. É também o único momento em toda a obra onde há um vislumbre de terror (anteriormente, havia sido sugerido numa cena com o cão da família). Mas esqueçam o terror. O terror aqui não existe. Felizmente – e apesar de um excessivo traço minimalista característico de filmes da A24 – há um bom drama fantasioso com várias camadas para descobrir. Lidar com o luto nunca é fácil, mas também não costuma envolver bebés que sao híbridos de humanos com carneiros e dou créditos a todos os envolvidos por terem conseguido entregar algo com alma, sem cair no ridículo.


Lamb
Lamb

ANO: 2021

PAÍS: Islândia, Suécia, Polónia

DURAÇÃO: 106 minutos

REALIZAÇÃO: Valdimar Jóhannsson

ELENCO: Noomi Rapace; Hilmir Snær Guðnason; Björn Hlynur Haraldsson

+INFO: IMDb

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