O realismo da humanidade em La sociedad de la nieve

Um dos meus mais primitivos e infundados medos é o de morrer num desastre de avião. O medo, na verdade, nem é o da morte em si, mas, sim, o medo dos momentos de ansiedade e medo (sim, medo de sentir medo!) que antecedem essa provável morte. La sociedad de la nieve nada fez para acalmar esses meus receios. Bem cedo, no seu primeiro ato, vemos o fatídico acidente do qual o mundo nunca esqueceu. Em 1972, um avião que transportava uma equipa de rugby uruguai despenhou-se na cordilheira dos Andres num dos desastres aéreos mais reportados da história. O nível de realismo é impressionante. É assustador. É do melhor – ou pior, do ponto de vista dos receios – que alguma vez vi. Deixa-nos de boca aberta. Em choque.

No entanto, no que diz respeito ao acontecimento real, o que mais impressionou o mundo foi o que se passou depois. Um grupo de pessoas sobreviveu mesmo a este acidente sem que alguém soubesse. O mundo deixou-os por lá. Era dado como certo que não havia sobreviventes e eles viraram-se como puderam. Como encontraram comida? Comeram a carne humanas dos passageiros que perderam a vida no acidente. Explorar a ética e moralidade de tais ações sempre foi para mim um exercício inútil. A moralidade e ética apenas se podem desenvolver no pressuposto da existência de vida. Se necessitamos de determinada ação para sobreviver, é inútil discutir se a mesma deverá ser uma opção ou não. Ainda assim, o filme não se esconde disso e o guião trabalha muito bem as discussões que existiram entre os membros sobreviventes. Os que, de imediato, perceberam a necessidade. Os que, inicialmente, colocaram questões rendendo-se mais tarde às evidências. 

É sempre baseado nessa premissa bastante realista e até crua que La sociedade de la nieve consegue convencer-nos. Sempre que pensamos que isto pode cair num típico filme de sobrevivência, lá levamos um banho de humildade, seja com um discurso do fundo do coração ou com o destino de certas personagens a tornarem impossíveis que os nossos olhos continuem secos. O trabalho de atores é soberbo e nem por uma vez duvidamos daquilo que vemos no ecrã. Tecnicamente, este é também um filme bastante bem conseguido. O realismo já referido só pode ser conseguido através de, principalmente, um excelente trabalho de efeitos visuais e maquilhagem e tudo isso é muito bem pautado por uma bela cinematografia, de Pedro Luque, que nos transmite de modo perfeito a sensação de impotência e isolamento num vasto espaço branco e um som e banda-sonora inquietante que prova, mais uma vez, que Michael Giacchino pertence à excelência na arte referida. 

Se haverá algum ponto que joga contra este filme é o facto de sabermos onde isto vai parar e de como tudo vai culminar. J.A. Bayona – que 11 anos depois de The Impossible volta a mostrar saber trabalhar histórias do género – procura introduzir algumas surpresas, seja a nível da narração, seja pela forma como coloca certos elementos no ecrã. Mais do que um drama, sentimos estar a assistir a um thriller tenso e inquietante e isso resulta muito bem. Ainda assim, é impossível fugir de uma certa previsibilidade narrativa decorrente principalmente do seu contexto verídico. 

Sob qualquer prisma, este é, de qualquer forma, um excelente filme. Um filme que entende a arte do cinema e que a trabalha de forma excecional para nos trazer de um modo realista e cru uma história de sobrevivência e superação, nunca evitando importantes questões éticas e morais. Tecnicamente, atinge a perfeição na sua cinematografia e banda-sonora mas é na força da sua humanidade onde assume uma ainda maior dimensão.


La sociedad de la nieve
A Sociedade da Neve

ANO: 2023

PAÍS: Espanha

DURAÇÃO: 144 minutos

REALIZAÇÃO: J.A. Bayona

ELENCO: Enzo Vogrincic; Matías Recalt; Agustín Pardella; Felipe González Otaño; Luciano Chatton; Valentino Alonso

+INFO: IMDb

La sociedad de la nieve

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