Avatar: The Last Airbender da Netflix é um desperdício revoltante!

Desde que foi anunciada, não supri boas expectativas quanto a adaptação live-action da ótima série animada Avatar: The Last Airbender (Avatar: O último Airbender). Gosto muito da produção original, então preferi prevenir possíveis futuras decepções. No entanto, com a chegada das imagens promocionais e demais conteúdos de marketing, a reimaginação da Netflix passou a vender a ideia de uma produção extremamente fiel ao material original, pelo menos no que diz respeito ao visual do universo de Avatar. Com isso, senti uma leve esperança de que o caminho estivesse sendo pavimentado com qualidade e esmero. A sensação era de que se acaso o produto final não atingisse todo o seu potencial narrativo, ao menos nos seria entregue uma experiência visual recompensadora.

Com isso, assim que pude conferir a série, a baixa qualidade apresentada não foi nenhuma surpresa. Controlei minhas expectativas com sucesso, sem demais decepções. Entretanto, tal experiência causou em mim a inesperada sensação de revolta. O motivo? O potencial desperdiçado em tudo o que Avatar da Netflix faz com êxito.

Podemos começar pelo já citado ótimo trabalho de arte da série. A tradução feita pela Netflix do visual animado para o live-action beira a perfeição. Os cenários são tão fantásticos quanto os originais, agora apresentados com bem vindos peso e textura realistas; as criaturas respeitam o design original sem nunca parecerem bobas demais, ganhando excelentes e bem finalizados modelos 3D que se mesclam perfeitamente aos demais elementos em cena; o figurino, a maquiagem e os penteados conseguem se manter próximos do que vemos no material fonte, mesmo que tragam uma identidade mais realista, dando origem a visuais fiéis o suficiente para não perder a magia de Avatar, e realistas o suficiente para evitar parecerem cosplays.

Mas há, sim, alguns problemas nesse quesito. O design de todo o universo da série é ótimo, mas isso nem sempre é bem executado. Alguns cenários, por exemplo, são completamente criados digitalmente. A decisão é compreensível, dada a complexidade de tais ambientes e, é claro, o valor economizado ao seguir o caminho da tela verde. Todavia, é facilmente perceptível a má finalização dos cenários em questão, que recortam estranhamente as personagens de sua ambientação, originando cenas que parecem emular animações feitas com colagem. Isso acontece principalmente quando essas cenas envolvem modelos de criaturas 3D, esses sim, bem finalizados, com textura, peso, e muito dinheiro bem investido. O contraste é gritante.

Onde Avatar da Netflix também acerta é em seu elenco, e talvez aqui more o principal agente responsável pela minha revolta. Esse elenco é bom demais para o que é entregue no produto final. Os atores e atrizes, além de prestarem atuações satisfatórias à série, se assemelham muito às personagens do material original. O problema é que o texto e as decisões criativas do live-action são tão estúpidas, que se faz difícil aproveitar a totalidade da qualidade do trabalho apresentado pelos artistas, e impossível não lamentar o desperdício de potencial apresentado.

O trio de protagonistas, por exemplo, tem muita química juntos, mas sofrem individualmente com os rumos de sua tradução netflixiana. Katara, por exemplo, é a mais descaracterizada. Não é como se a personagem não funcionasse, Kiawentiio é uma boa atriz, e sua presença em cena é calorosa. O problema é que Katara não brilha como deveria brilhar, tendo sua personalidade irônica e destemida substituída por uma postura mais contida. É claro que estou falando de uma adaptação, então alterações não só são esperadas, como podem ser bem vindas, mas o que chateia na abordagem dessa Katara é o apagamento da mesma em relação às demais personagens. 

Há uma chama acesa no interior do Aang de Gordon Cormier, mas tal chama se manteve contida pelas mãos gélidas dos produtores dessa adaptação durante toda a temporada. Cormier traz carisma para o Avatar Aang, mas ao invés da personalidade divertida, infantil e brincalhona da personagem original, os realizadores do live-action decidiram fazer de Aang uma criança séria e dramática,  que vive raros momentos de descontração em sua jornada. O Aang original brilha muito, fazendo jus ao seu título de protagonista, porém com Cormier, o mesmo não acontece. O ator infelizmente não é muito bom, mas a sua vontade e carisma são perceptíveis, mesmo que o texto decida fazer de seu Aang uma personagem discurso ambulante, estranhamente maduro para sua idade, que pouco cresce e evolui em sua própria jornada. O que nós precisávamos estava lá, mas simplesmente não deixaram aflorar. É uma pena.

Enfim, deixei o “menos importante” do trio por último, pois aqui o seu papel se inverte em relação ao que vimos antes. Sokka deixa de ser o alívio cômico de Avatar para se tornar o verdadeiro protagonista da série. O melhor ator entre os três, Ian Ousley dá a vida a um Sokka um pouco menos abobado, mas tão divertido, destemido e falho quanto o da animação. O jovem guerreiro é também o único dentre os heróis que tem real espaço para crescer, tendo mais tempo para desenvolver seus arcos narrativos, diferente dos outros dois, que sofrem com uma indefensável pressa, que só resulta em textos rasos e sem graça. O que desaponta na adaptação da personagem é a decisão da produção em cortar a postura sexista da mesma. O machismo presente no comportamento de Sokka no seriado original é justamente um dos principais meios de desenvolvimento da personagem, que aprende muito com a convivência com as impactantes personagens femininas que encontra em sua missão. Resolvem bem a personagem no live-action afinal, mas negar a ela uma das suas principais características por simplesmente não saber lidar com complexidades morais e ideológicas em seus heróis não é só deprimente, como é revoltante.

E infelizmente o que a série de Avatar da Netflix mais esbanja é a incapacidade de desenvolver uma narrativa. A produção é uma completa bagunça do início ao fim. Já citei o problema com o tom da série, que deixa de lado a leveza e a diversão do original por um clima mais denso e dramático, que conflita com as personagens coloridas que gritam por uma chance de rir mais e fazer rir. Porém o que mais revolta em Avatar é a completa incapacidade da série em organizar as informações de seu texto. Usemos como exemplo o primeiro episódio do programa, um dos mais bagunçados da temporada:

O episódio se inicia com uma introdução que simula a da série original, dando o contexto do universo de Avatar. Todavia, aqui somos informados de muito mais do que deveríamos saber, conhecendo antes da hora muito do que deveríamos descobrir ao longo da série. Então seguimos para mais uma cena contextualizadora, que mais uma vez nos explica o que já sabemos. E assim o capítulo segue, repetindo as mesmas afirmações sem parar, atropelando eventos e estragando quaisquer surpresas que viriam a ser reveladas com o enredo da série. Quando o live-action chega ao ponto do início da série original, decide recontar com fidelidade o que já vimos anos atrás, sem considerar que o que está prestes a revelar com isso já nos foi dito nos seus minutos iniciais pelo menos duas vezes à essa altura. 

É completamente revoltante. A sensação é de que a nova série se preocupou demais em se diferenciar da original, e decidiu então acrescentar novos elementos que trouxessem mais densidade ao conteúdo textual da obra, com maiores contextualizações e desdobramentos. O problema é que o que há de “novo”, na verdade é mais do mesmo que já conhecemos, apresentado em um repete e repete mascarado de novidade. No fim das contas, vemos muitas coisas antes da hora, repete-se muita informação que deveria chegar até nós com calma, e apresenta-se muita “novidade” como se novidade realmente fosse.

O mais engraçado é perceber a razão de tudo isso. O Avatar da Netflix quer muito ser mais adulto que o Avatar da Nickelodeon. Quer tanto, que pensa que trazer gravidade para personagens naturalmente divertidas é uma boa ideia. E acha também que falar mais sobre o que é óbvio e deveria nos acompanhar com sutileza, garante complexidade ao seu texto. Mas o que o Avatar da Netflix não sabe é que sem sua diversão, as personagens do seu universo são incapazes de brilhar forte como deveriam, e sabe tampouco que a tão infantil série da qual tenta se desprender é extremamente bem sucedida entre todos os públicos com seu texto bobo, porém extremamente menos expositivo que o “complexo” enredo que tenta construir. Pensei em chamar o resultado disso tudo de paradoxal, mas acho que seria glamourizar demais o trabalho deles. A palavra que se encaixa melhor é hipocrisia mesmo.

Mas a confusão não para por aí: além de tudo o que já foi citado, a série também mistura arcos narrativos de maneira que reduz a importância de todos em um novelo de histórias rasas e sem impacto, ressignifica conflitos sem qualquer justificativa, simplificando-os demais, muitas vezes extraindo dos mesmos o que os fazia únicos, e tornando-os genéricos e apáticos, e, entre outros diversos problemas, garante leis novas ao universo de Avatar pelo simples motivo de querer garantir shows visuais estupendos, e saciar a fome do consumidor pouco exigente de cultura pop faminto por fan-services

E neste mar de erros envelopados por visuais incríveis, Avatar: The Last Airbender compõe sua temporada de muitos episódios péssimos, um ou outro regulares, e apenas um realmente bom. E esse tal episódio de maior qualidade é ironicamente protagonizado por dois dos antagonistas, ou quase isso, da série. O príncipe Zuko e seu tio Iroh são as melhores coisas que aconteceram a Avatar em sua versão em carne e osso. Dallas Liu e Paul Sun-Hyung Lee, Zuko e Iroh respectivamente, não são exatamente fiéis ao material original, mas têm a alma no lugar certo. A complexidade narrativa e psicológica está lá, ardendo junto da química de angústia, respeito e confidência que existe entre os dois. Mesmo que o texto se precipite ao adiantar muito do que os dois teriam a desenvolver no futuro (pois é!), o que é feito com sua jornada é muito positivo.

Mas quando falamos dos principais vilões da série, a conversa muda de rumo. Daniel Dae Kim e Elizabeth Yu são perfeitos para seus papéis, mas ambos não deveriam estar em destaque aqui. Avatar da Netflix tem a péssima mania de adiantar tudo o que deveria vir depois, e isso acaba com boa parte do potencial de seus antagonistas. Nós vemos demais do Ozai, o Senhor do Fogo, de Dae Kim, enquanto a psicopata princesa Azula de Yu, nem deveria dar as caras aqui. Todo o peso da silhueta diabólica de Ozai e o mistério de um futuro surgimento de Azula no caminho de Aang e seus amigos é estragado pela afobação dos realizadores e produtores de Avatar

É inconcebível o que fazem com o argumento desse Avatar. Enquanto toda a jornada principal dos heróis é subdesenvolvida e apressada, diversos conflitos secundários são desnecessariamente e exaustivamente inflados e adiantados na trama, ao mesmo passo que são injetadas firulas estúpidas apenas para trazer ação ao que já era movimentado o suficiente. É incrível como todas as decisões narrativas e tonais da série são conflitantes. Uma bagunça. Uma completa bagunça.

Eu gostaria muito de ter gostado de Avatar: The Last Airbender. Mesmo. Não me decepcionei com a série, como bem disse na introdução deste texto, mas não pude evitar de deixar a experiência revoltado. E assim me sinto com o resultado dessa adaptação pelos mesmos motivos que me fazem desejar ter gostado dela: o potencial apresentado era muito alto. Ou melhor, É muito alto. Pois a série já foi renovada à esta altura, e onde há potencial há chance de haver qualidade. Mais uma vez, não criarei expectativas. Todavia, manterei viva a esperança de que o grande potencial da adaptação seja melhor aproveitado no futuro. Há espaço de sobra para evolução, e estou disposto a abraçar a série caso ela se permita isso.


Avatar: The Last Airbender
Avatar: O Último Airbender

ANO: 2024

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 8 episódios

REALIZAÇÃO: Michael Goi, Roseanne Liang, Jabbar Raisani, Jet Wilkinson

ELENCO: Gordon Cormier, Xiawentiio, Ian Ousley, Dallas Liu, Paul Sun-Hyung Lee, Daniel Dae Kim, Ken Leung, Ruy Iskandar, Elizabeth Yu

+INFO: IMDb

Avatar: The Last Airbender

Previous ArticleNext Article

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *