Tem cuidado, Chucky: A M3gan chegou!

Há certo filmes que não aspiram a Óscares, não aspiram a festivais de cinema, não aspiram a quebrar fronteiras. Os seus criadores querem apenas que eles sejam divertidos, que entretenham e que dêem aos espetadores exatamente aquilo que prometem. M3gan é um perfeito exemplo disso mesmo.

Assente numa campanha de marketing viral, cedo foi que a equipa por detrás deste filme percebeu onde estava o seu público-alvo. A geração Z tornou M3gan num fenómeno antes mesmo deste ser lançado e, portanto, era obrigatório explorar essa faixa etária, tendo o filme reduzido as doses de sangue inicialmente previstas (e filmadas) de forma a que o seu lançamento no cinema pudesse atrair adolescentes.

As comparações entre M3gan e Chucky são mais do que óbvias e justas. Ambos parecem parte do mesmo universo. Ambos fazem a separação entre “o mundo dos adultos” e “o mundo das crianças”. Ambos procuram também dizer-nos algo acerca de “ser pai e mãe” e de como alguns (aparentemente) inocentes divertimentos se podem tornar num autêntico pesadelo. Aqui é-nos contada a história de Cady (Violet McGraw) que ficou orfã devido à morte dos seus pais num acidente de viação, sendo ela a única sobrevivente do mesmo. Katie vai viver com a sua tia, Gemma (Allison Williams), que é criadora robótica numa empresa de brinquedos e que usa a inteligência artificial para a criação de M3gan (Model 3 Generative Android) uma boneca realista que rapidamente se revela em algo bem maior do que uma assistente pessoal, parecendo ser uma verdadeira amiga de Cady. Ao início tudo corre bem. As duas dão-se às mil maravilhas e Gemma está satisfeita por finalmente ver a sua sobrinha feliz e por todas as demonstrações de M3gan se revelarem um sucesso a nível empresarial. Agora…vocês já sabem que isto não fica por aqui e claro que inteligência artificial se torna demasiado inteligente e cruel.

Um dos maiores pontos positivos de M3gan é que nunca se leva demasiado a sério. Desde as primeiras cenas apresenta um tom leve, suportado em divertidas situações e personagens, com destaque para Ronny Chieng e o seu David. O filme faz isto bem e equilibradamente, pois nunca descamba para a paródia completa. Na verdade, há cenas de suspense em número suficiente para que sjea considerado um dos bons exemplos de “comédia de terror”. M3gan faz também um bom uso das suas temáticas sem se aprofundar em demasiada compexidade.

A típica história do/a cientista que se arrepende de ter criado um monstro é por todos nós conhecida, mas M3gan acrescenta uma segunda camada a isso ao mostrar-nos Katie como uma personagem completa que procura também criar laços com a sua sobrinha, tentando sempre equilibrar as suas incertezas com a sua vontade em fazer melhor. O luto também está aqui presente e com ele a sua necessidade de se criarem novas relações que nos permitam ultrapassar melhor esse período. Ainda assim, estando em 2023, é óbvio que muito do que M3gan nos quer dizer é também acerca da inteligência artificial e dos perigos inerentes à mesma.

Mesmo que aborde todos estes temas, a obra nunca se torna demasiado séria porque vai criando cenas que nos fazem rir que refletem bem a época em que o mesmo foi feito. As danças de TikTok, os sons populares cantados pela boneca, as falas. É um filme tão confiante em si mesmo que nas mãos erradas poderia ter corrido muito mal. Felizmente não foi o caso e isso em muito se deve em como a sua personagem principal foi escrita e desenvolvida. É ela quem vende o filme, é ela quem vai vender carradas de mechandising, é ela que irá ser a causa de muitas sequelas. Parecendo mesmo uma boneca que capta movimentos e ações humanas para se desenvolver a si própria, M3gan consegue sempre capturar o que o filme lhe pede, não sendo ela própria “demasiado perfeita” nem “demasiado fofinha”. É estranha como deve ser. É intrigante. É inquietante e sempre nos faz vê-la como uma ameaça mesmo quando não está em cena.

Ainda assim, apesar da excelente personagem, este não é um fime perfeito. Por vezes M3gan – o filme, não a personagem – fica um pouco preso às amarras de filmes passados com premissas semelhantes. Não faz nada essencialmente diferente a nível estrutural, sendo previsível e tendo até, por vezes, um ritmo errático. Não é assim um filme que nos dê muito mais do que o que nos é dado nos materiais promocionais (embora muito do problema esteja também no excesso que nos foi dado a nível promocional). Além de ser um pouco contido em escala, a já referida classificação etária também não deixa o filme ir para patamares mais elevados de satisfação. Não defendo que muito sangue seja necessário para um bom filme de terror, mas neste caso nota-se em demasia que a câmara se afasta em certos momentos onde um bom gore lhe ficaria a matar. Ainda assim, tudo o que faz é muito mais positivo do que negativo e é de louvar ver adolescentes de volta ao cinema de terror e de louvar que se perceba que o terror é um género que pode ser explorado em todos os segmentos etários.

Estamos a assistir à criação de um novo ícone em tempo real. Apesar da sua previsibilidade e da contenção nas doses de sangue para acomodar um público mais jovem, M3gan é sempre um filme divertido que não se leva demasiado a sério, tendo-se já tornado num fenómeno viral. Prevejo que um dia tenhamos um M3gan vs Chucky. E M3gan vencerá.


M3gan
M3gan

ANO: 2023

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 102 minutos

REALIZAÇÃO: Gerard Johnstone

ELENCO: Allison Williams; Jenna Davis; Violet McGraw

+INFO: IMDb

M3gan

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