Malcolm & Marie (2021)

Malcolm & Marie é uma montanha russa de emoções

Poderia começar por falar sobre as críticas que o filme tem sofrido, quer seja pela diferença de idades entre os protagonistas, pela falta de imaginação na criação da história de Marie ou pelo facto dos ataques de Malcolm aos jornalistas de cinema parecerem um desabafo mesquinho de Sam Levinson – realizador e escritor do drama – mas não o farei, pelo menos, não agora, até porque Malcolm & Marie merece ser comentado por outros motivos. O filme, que estreou a 5 de fevereiro na Netflix, foi um dos primeiros a ser inteiramente gravado na altura do primeiro confinamento.

Depois da estreia do seu filme, o cineasta Malcolm – John David Washington – regressa a casa com a namorada Marie – Zendaya – para aquilo que pensava ser a celebração «da melhor noite da sua vida», como ele mesmo diz. Mas não é, porque contrariamente à sua cara de felicidade, a cara da namorada conta outra história e é ao questioná-la sobre isso que nós, espetadores, somos empurrados para uma montanha russa de emoções – sem cinto de segurança, diga-se de passagem. Afinal porque é que Marie não está feliz? A resposta a essa pergunta é dada em diversos momentos que são preenchidos com monólogos de Zendaya e John David, onde entendemos o porquê do filme ser a preto e branco. Eles estão ali, sozinhos, mas têm a capacidade de encher o ecrã. O palco está montado e os actores estão mais do que preparados para mostrar ao que vieram. Seria isto uma peça de teatro? Não, mas parece. 

Um filme a preto e branco, uma trilha sonora que se configura como uma terceira personagem, uma casa no meio do nada: o ambiente perfeito para uma descarga emocional. E que descarga! Durante uma hora e quarenta e seis minutos, presenciamos uma discussão que nos leva a questionar até que ponto eles deveriam estar juntos. Não seria aquilo uma relação tóxica? Sim! Mas é através desses questionamentos que nos apercebemos do quão maravilhosa foi a colaboração de Levinson, Zendaya e Washington: sabemos que aquilo não está certo mas entendemos, de forma gradual, o porquê de estarem juntos. O filme, que foi extremamente certeiro em termos visuais, mostra-nos que dentro da simplicidade podemos encontrar uma complexidade abismal. E estes personagens são complexos e essa complexidade é desconstruída a olhos nus em cada momento de tensão e discussão dos protagonistas que, através de diálogos e monólogos, se dão a conhecer, revelando a sua verdadeira face. Cada «amo-te» é real e cada «odeio-te» também, não fossem eles Malcolm e Marie. 

A longa-metragem, de forma bastante explícita, acaba por criticar a forma rasa como os jornalistas escrevem as suas críticas de cinema e como, independentemente da história, tudo o que um cineasta negro faz – para um jornalista branco – tem um cunho político quando, na verdade, pode não ter. Mas até que ponto essas farpas – de Malcolm ou Levinson – eram necessárias para o drama? Talvez até não fossem, mas a verdade é que esses comentários parecem importantes para a construção da essência do protagonista. Através delas percebemos quem ele é e como tudo aquilo afeta o seu trabalho enquanto cineasta. E, talvez, sem isso não teríamos o momento mais engraçado do filme – a reação dele à crítica.

Também é importante mencionar que, apesar da diferença de idades – algo que parece estapafúrdio ter sido comentado, tendo em conta a maior parte das histórias românticas de Hollywood – ,uma coisa é certa, Zendaya é uma mulher, e que mulher! Ela encheu o palco, quer dizer, o ecrã, e mostrou em todos os momentos o porquê de estar ali. Até porque na história que estava a ser contada a diferença de idades era essencial. E, apesar de podermos fazer uma comparação entre Marie e Rue – personagem de Zendaya na série Euphoria, também escrita por Levinson – onde ambas lidam com a toxicodependência, aqui esse passado fazia sentido pois sem ele, como diz Marie, o filme de Malcolm não teria existido e sem o filme não haveria aquela discussão. 

Independentemente de todas as críticas, a verdade é que Malcolm & Marie é um filme que merece ser visto, nem que seja para aprendermos o que não fazer numa relação ou simplesmente para ficarmos estupefactos com as representações esplendorosas de Zendaya e John David Washington.

 


Malcom & Marie
Malcom & Marie

ANO: 2021

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 1h 46min

REALIZAÇÃO: Sam Levinson

ELENCO: Zendaya, John David Washington

+INFO: IMDb

Malcom & Marie

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