Mank

Mank – A Divina Comédia de David Fincher

Mank é uma homenagem de Fincher à arte em que se expressa e tem cartas dadas (Seven, Zodiac, Gone Girl). É uma crítica expositiva da vertente negocial nos bastidores de poder dos estúdios de cinema. É um enquadramento político e social. É um equilíbrio bem conseguido de como todas estas esferas se relacionam de forma promíscua, perfumada de glamour e abnegação envergonhada entre os seus intervenientes. Isto remete-me à obra literária de Dante Alighieri onde, na sua viagem pela absolvição, vai parando pelo caminho para apreciar as paisagens de crítica ao Mundo e Itália desse tempo, o papel integrante ou passivo de Dante nos episódios que critica e os demais personagens (muitos deles políticos, de poder, de guerra, de estagnação e mudança) mostrados pela sua perspectiva.

Mank, embrulhado numa caixa de preto-e-branco com cuidado evocativo de filmes da época, com papel-de-embrulho da entrega dos diálogos e um over-acting característico desse género, é um filme que conta a vida de quem andava nos filmes, como personagens desse e desses filmes, atado com um laço de percepção do protagonista do enlace narrativo (atrevo-me a essa leitura).

Gary Oldman, que dá vida ao guionista Herman J. Mankiewicz, diverte-se neste papel e isso transparece na tela. Não é uma abordagem pretensiosa. Mank foi estabelecido e desenvolvido de forma consistente como um homem complexo e de intelecto superior, com demónios – manifestos em alcoolismo e vício do jogo – que o assombram mas que ao mesmo tempo são o jindungo da sua personalidade que dilui as posições fincadas sobre a sociedade, a família, o Mundo e a sua existência, com humor mordaz, sempre com a última palavra e um carisma não-forçado que o torna o centro das atenções para o bem ou para o mal, e ele não se importa com isso. É um anti-herói nesta trilha.

Mank interage com todos os membros do elenco mais e menos importantes para o avanço da história de igual modo e preponderância, e estes adicionam enquadramento histórico e contextual importantes. Noutro destaque, Amanda Seyfried mostra a sua qualidade como Marion Davies: dotada de espírito crítico e observador do xadrez de poderes, porém abafado enquanto mulher daquela altura e esposa-troféu de William Randolph Hearst (interpretado por Charles Dance – Tywin Lannister de G.o.T.), magnata da imprensa, extravagante e entusiasta da 7ª arte.

O filme faz pulos e retrocessos cronológicos para manter a atenção do autor. Artifício arriscado, pois facilmente pode dar cocó quando o editor e realizador não estão bem afinados e basta um corte-e-costura correr mal para pôr em causa toda a estrutura. Não achei nada mal conseguido. De memória não me deparei com nenhum erro gritante de continuidade cénica ou narrativa. Fincher arriscou. Não tinha necessidade e correu bem. As transições de cena são claro aceno de fã de cinema da época com a transição entre cenas a cargo dos desvanecimentos de luz pelas lâmpadas ou cortinados. Quando não há um desses elementos em cena, o corte é limpo. Reconhecido. Agradável. Aprovado.

A fotografia não transcende nem impressiona, mas os cenários são caracteristicamente limpos e polidos, outro aceno à cinegrafia deste género de filmes. A banda sonora é não menos evocativa e esteve a cargo de Trent Reznor e Atticus Ross, mais conhecidos no meio musical como Nine Inch Nails. Não nasci naquela altura e parece que lá estive no cinema a ver este filme com todos estes elementos audiovisuais a servir os seus propósitos de o elevar. A história não é especial nem nova nem diferente no entanto o filme saiu fantástico e entretém. Quando isto acontece, só posso dar crédito e mérito a todos os intervenientes.

 


Mank
Mank

ANO: 2020

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 131 min.

REALIZAÇÃO: David Fincher

ELENCO: Gary Oldman, Amanda Seyfried, Lily Collins

+INFO: IMDb

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