Mass (ou a parentalidade em xeque)

Este filme tem todos os ingredientes de tearjerker. Tem a estrutura de descoberta narrativa altamente propicial ao apelo à lágrima de forma inesperada, chocante, propositadamente descontextualizada e estruturalmente um tanto previsível, mas…  a humanidade, o enquadramento, a intimidade e o peso, a tensão, a carga de tonelagem que se abate sobre até o peito mais granítico e desfasado do que assiste, na inocência de pensar que era um mero filme para criticar é avassaladora. 

Isto deverá ser objecto de estudo sobre como filmar, editar, sonorizar, representar e contar uma história dramática. 

Como uma simples alteração de câmara fixa para câmara trémula (shaky cam) faz com que exista mais aproximação emocional? Decerto que alguém estudado explicará. O que é certinho é que esta subtileza, aliada ao uso mestre do som, a mise en scène numa simples sala e os movimentos de cena (dos protagonistas, o altamente subtil zoom e a sublime edição) me tiraram o chão de um dos pés. 

Não me aguentei ao pé-coxinho com a representação. Locke já me tinha mostrado de como guião, diálogo e interpretação são capazes de carregar uma história com um só sujeito. Multiplique-se isso por quatro, em interação constante activa e passiva e pariu-se um Mass. 

Não houve erros. Não detectei ausência de paixão uma única vez. Não me-foram evidentes desvios dos actores das suas personagens uma única vez. Todas as partes do corpo representaram. É terrivelmente difícil, decerto, que quatro pessoas dialoguem de forma tão humana por cerca de hora e meia seguida. Pareceu real. Pareceu genuíno. Pareceu que lhes aconteceu mesmo.  

O guião promove o desenrolar narrativo mid-burner mas que não constrói e destrói momentos criados como mero dispositivo. Há propósito. Há envolvimento emocional nas palavras proferidas e há uma mensagem transversal a ser cravada na alma do espectador a cada desenrolar e queimar de fio do novelo. 

O som e a ausência de som. Quão importante foi para enaltecer a interpretação de cada actor e actriz. Aterrador. Cru. Real. 

A cinegrafia. Os planos estáticos iniciais estabelecem o coloquialismo com que os intervenientes apontaram abordar-se mutuamente à face do tema em debate. Quando a essência humana efervesce, os planos apertam, a câmara ganha vida em consonância com a inquietação das emoções e o foco fica imutavelmente trancado a quem está a falar ou a reagir ao falado. Simples. Ténue. 

Talvez estivesse dormente até esta prova de representação dado o panorama actual do cinema que vem da principal fábrica de filmes do mundo, talvez deveria entender este filme como algo que deveria ser o padrão de normalidade ao invés de procurar juntar o queixo ao resto da cabeça por cada quatro a seis palavras que escrevo quando revivo o enredo, talvez esteja a exacerbar este filme por ser o último do meu ano com o projecto e por ter entrado com mais compromisso que vontade de o ver, para me deparar com tamanha carga de porrada que não sabia precisar.  

Mass fecha o ano como todos o deveríamos fechar: reflectindo para procurar repetir as virtudes e curar das falhas. 


Mass
Mass

ANO: 2021

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 111 min.

REALIZAÇÃO: Fran Kranz

ELENCO: Jason Isaacs, Martha Plimpton, Ann Dowd

+INFO: IMDb

Mass

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