Sensibilidade e porrada: a dura complexidade de Monster

Uma mãe percebe em seu filho comportamentos estranhos, e tudo indica que um de seus professores esteja tratando-o com abuso. Ela então se movimenta para exigir que a escola tome medidas perante a situação, mas encontra resistência ao se deparar com a postura friamente metódica e protetiva da instituição. A esta altura já estamos envolvidos com a trama, mas é quando Monster apresenta um novo ponto de vista, que o filme demonstra a complexidade de seu argumento. Saltando entre diferentes versões dos acontecimentos do enredo, apresentando-nos aos poucos a visão de cada personagem acerca do caso, o filme vai prendendo e soltando amarras, até que a verdade por trás de tantos conflitos possa vir a ser revelada.

Não existe verdade que não se transforme ao fazer contato conosco. Nossos interesses, ansiedades, e visão de mundo próprios nos limitam a enxergar fatos também já corrompidos pelos interesses, ansiedades e visão de mundo daqueles que intermediam o que chega até nós. Há o que custamos a conseguir, ou querer enxergar; há o que não podemos ver por limitação de artifícios para tal; há verdades que não expressamos por não conseguir compreendê-las completamente; há verdades que escondemos por serem dolorosas demais; e há, em consequência disso, meias verdades cujos resultados imediatos podem ser avassaladores.

Monster é um filme complexo. Seu enredo emaranhado nos joga de um lado para o outro, fazendo-nos presenciar fatos à primeira vista contraditórios e conflitantes, mas que ao decorrer dos acontecimentos, se provam coerentes e esclarecedores. Nos vemos no lugar das personagens: absorvemos aquilo que chega até nós, e usamos isso para interpretar nossa própria versão da realidade. Julgamos, inocentamos, condenamos, revoltamos e apaziguamos, até tomarmos ciência de diferentes pontos de vista, e sermos provocados a repensar condenações, e considerar novos possíveis agressores. Afinal, quando todos têm razões para agir como agem, e são consideravelmente ofendidos pela forma como os demais decidem agir, como julgar o que é certo ou não a se fazer? No fim das contas, quem é o verdadeiro monstro?

A resposta não se encontra de maneira fácil, ou sequer pode ser encontrada. Monster é um filme complicado, pesado. Sensível por garantir as suas personagens as complexidades realistas da imperfeição humana, e cruel por ser fiel ao fato de que certas verdades simplesmente não são capazes de vir à tona. O que chega à superfície, portanto, são fragmentos de fatos distorcidos por inseguranças e interesses, ambos incapacitantes e corrompedores. 

Monster é uma porrada. É um filme que te agride, e te provoca a reconsiderar o que parece óbvio constantemente, sem qualquer trégua ou piedade. É duro com suas personagens, e é duro com seu público. É um doído e amargo, porém lindo filme.


Monster
Monster

ANO: 2023

PAÍS: Japão

DURAÇÃO: 2h 7min

REALIZAÇÃO: Kore-eda Hirozaku

ELENCO: Sakura Andô, Eita Nagayama, Soya Kurokawa, Hinata Hiragari

+INFO: IMDb

Monster

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