Mortal Kombat: Perspectiva de um Gamer

Como fã dedicado, empenhado e narrativamente educado da franquia de jogos Mortal Kombat abro estes pensamentos com desdém, frustração e sabor a bílis na boca por ter visto cerca de 1h30 de rodagem onde só se aproveitam os primeiros 7min e as roupas da cintura para cima de 2 dos personagens desta nova tentativa de readaptação ao grande ecrã deste clássico de violência virtual infanto-juvenil.

Na introdução ao primeiro acto vemos a origem de Scorpion e do seu conflito com Sub-Zero. É paupérrima de contexto, deixa muito buraco narrativo para que o espectador assuma e resolva por si por forma avançar com a ainda mais pobre e lamacenta interpretação de algo que já está cimentado, sustentado, explicado extensivamente e elaborado com paixão e bom-gosto pela outrora Midway Games e actual Netherrealm Studios. Ainda assim, com tudo o que tem de mau, é altamente competente como pedaço cinematográfico e para uma pessoa desinformada sobre os jogos.
Demonstra com ritmo rápido, coreografias de combate bem conseguidas e propositais a serviço do momento retratado, o que ali se está a passar: malta de azul não gosta em particular de um gajo de amarelo. Armam uma tocaia, limpam mais malta de amarelo, o chefão dos azuis atrai o chefão amarelo ao aí combate final sob forma de matar a família do amarelo. O combate final acontece, o chefão amarelo morre, ainda assim jurando vingança (japonesices…) e está lançado o mote. Só falei dos primeiros 7 minutos! A partir daqui é sempre a descer.

Em seguida temos a introdução de mais personagens afectos ao plantel vastíssimo e conhecido dos jogos Mortal Kombat tais como Jax, Sonya Blade, Raiden, Kung Lao, Liu Kang do lado dos defensores da Earthrealm (Reino da Terra. Neste universo, os planetas são reinos e dimensões ao mesmo tempo) e Kano, Shang Tsung, Reiko, Nitara, Mileena, Goro, Reptile e Kabal (fora outros que me tenha esquecido e que apenas serviram para fan service ou como prefiro chamar “palha para colher trocos”) do lado dos atacantes vindos do Outworld.

A seu tempo, estas personagens, umas muito mais esquecíveis que outras, vão aparecendo no filme, com lutas igualmente esquecíveis, de péssima e inconclusiva coreografia, com “fatalities” enfiadas pelo bem de se chamar isto ainda de Mortal Kombat e chavões dos jogos para mais uma vez dispensável, piscar o olho ao fã dos jogos. Ainda não falei das mais importantes pedras no sapato aqui, mas vou bem a tempo….

Revolta-me que exista material-fonte para contar uma história e se ignore por completo esse material para se tentar a irreverência da novidade. Revolta-me mais a hipocrisia de não levar essa decisão avante a 100% quando se recorre selectivamente a essa fonte para escarrar como cola para as fendas que a história vai deixando de tão má e incontornável que é por contraste a tal material original. E agora sim vou falar das pedras que deliberadamente decidi manter no sapato para escrever com mágoa, dores e ódio visceral o que penso deste… filme… Cole Young, as marcas do dragão, os “poderes” dos lutadores e o escarro (sim vou descrever cada escarro mais tarde).

Cole Young é uma personagem completamente inventada e não há mal nisso. Apenas era desnecessário. Este indivíduo com tentativa facial de Keanu Reeves, personalidade de uma alforreca morta na areia da Figueirinha e arco narrativo de um portão de garagem com o motor estragado é o elemento central da história. É-nos apresentado como um lutador de MMA com mais derrotas que vitórias, que aparenta ser extremamente talentoso e ex-campeão inclusive, mas que na altura do filme, tem uma colocação masoquista para com a modalidade onde luta com lutadores de circuitos regionais a troco de uma sande de torresmo. E nisto tem uma filha que não se percebe logo que o é, que faz o apoio ao pai entre rounds nos combates (e que aparenta entender mais de luta que ele) e uma mulher/namorada/parceira em união de facto (riscar o que não interessa – não vale riscar todo o texto até este ponto! É mais fácil riscar o filme!) que lhe faz as ligaduras e passa o Halibut pela inexpressividade na representação do actor Lewis Tan, porque tanto ele como Cole deverão ter hematomas na alma.

Não quero passar o bisturi pelo filme todo, portanto vou passar a mão condescendente por cima das pedras no sapato e na alma. Desta feita: as marcas do dragão. Aparentemente o Great Tournament of Mortal Kombat (o torneio criado pelos Elder Gods por forma a dar uma chance aos reinos/planetas/dimensões de se defenderem de potenciais conquistas por parte dos outros) escolhe os seus participantes com marcas de nascença do dragão-símbolo da franquia dos jogos. Palhaçada total este atalho narrativo quando é bem mais directo e fácil mencionar o que acabei de dizer em vez de inventar e inventar pior.

Mais se desenrola e entende-se que Cole não é o único com a marquinha e lá se encontra com os restantes defensores. Raiden é o chefão dos defensores, mas desde cedo diz que não pode interferir no processo apesar de Santo Padroeiro da Trovoada e falhas de energia em Angola. No ginásio-cave de Raiden é explicado que alguns defensores terão de treinar para desbloquear os poderes sobrenaturais que os farão todos uns X-Men da farinha Amparo. Esta é outra pedra no sapato e foi explicada e desenvolvida tal e qual como descrevi. Desafio qualquer leitor que me reinterprete o que eu vi com os meus olhos a um Combate Mortal de palavras!

Agora, em jeito de finalização vou definir alguns dos imensos escarros deste guião:
– Sub-Zero trabalha a recibos-verdes para Shang Tsung como assassino dos Bonzinhos da Terra para que Tsung e Outworld possam ganhar o Mortal Kombat na secretaria. Na franquia Sub-Zero tem uma preponderância singular e até isolada de defensores e atacantes identificando-se com uns e outros conforme o jogo, mas sempre com sustentação narrativa sólida e inabalável!

– Cole descobre que o seu poder é uma armadura de bronze desbloqueada a partir de uma pulseira de pano que a filha lhe dá, com umas tonfas místicas que subitamente tem alta proficiência em usar. Ora se a pulseira não existe, Cole nunca vira Iron Man?

– Cole descobre este poder justamente na situação mais crítica para si: combate contra Goro. Para quem não sabe, Goro é só e apenas o Príncipe da raça Shokan e multi-vencedor do torneio Mortal Kombat como representante de Shang Tsung e Outworld, tendo ganho 9 torneios sendo que a 10ª vitória dá a capacidade de Tsung em invadir Earthrealm. Nada disto foi usado como criador de tensão e risco neste filme. Foram por outro caminho… O caminho com buracos na estrada e respectivas pedras…

– Kung Lao morre quando Shang Tsung demora cerca de 700 segundos figurados a absorver-lhe a alma, a ponto de Liu Kang ter a sua própria cena de slow motion porque ainda havia orçamento, e os restantes defensores ficam estarrecidos a ver. Aparentemente Raiden da EDP não pode intervir mas Shang Tsung da Galp já pode…

– Scorpion reaparece pela forma mais mirabolante que podiam ter inventado. Mais mirabolante que Scorpion ser um espírito de vingança condenado ao reino do inferno ou Netherealm, personificado pela magia do feiticeiro Quan Chi, para ser seu mercenário pessoal e para levar a cabo os objectivos do feiticeiro em obter tantas vantagens quanto possa para ser soberano do Netherrealm (tentando usurpar o actual Governante: o Elder God Shinnok) conquistar Outworld, vencer Great Tournaments e assim invadir outros sítios… Ora os génios deste filme determinaram que Cole é o herdeiro de sangue de Scorpion e é por isso que Cole tem a marca: Hanzo Hasashi era o tipo que tinha a marca mas como morreu por Bi-Han, então a tal marquinha passou pela linhagem em continuação até chegar a Cole. Raiden da EDP, que, recorde-se, não pode intervir, salva um segundo filho de Scorpion que Sub-Zero não matou e nem ouviu chorar com tanto barulho dos flocos de neve à sua volta, dá a faca original de Scorpion a Cole que, completamente ao acaso, invoca Scorpion através do seu sangue e aí temos a batalha final entre Sub-Zero e Scorpion… e Cole.

– Cole entra na batalha final porque está a ser-nos empurrado pela goela abaixo como a caracoleta assada, sem sabor e cheia de areia que é, porque Sub-Zero congela a família de Cole e este então socorre-os e aí [ler escarro anterior].

– Sub-Zero, que tem dizimado tudo e todos e tem transformado o mundo em Calippos, qual Bubu que transforma e come todos como chocolate, desta vez não matou a família de Cole, como tem vindo a matar desde o início do filme. Porquê? Porque o guião e realização acham que um herói tem sempre de ter algo/alguém por que/quem lutar e então vamos lá manter a família do Iron Man dos pobres.

– E o maior escarro de todos: escarro aos fãs que encetaram fé nesta adaptação, iludidos pelo trailer, hype e a difusão gratuita dos primeiros 7minutos do filme online.

Menções honrosas a Kano que rouba o filme completamente, tem o arco mais consistente e mesmo nesta disfunção eréctil que nem o Libidium Fast do Futre cura, é o escape humorístico, cru e visceral que o filme tentou captar à moda Marvel mas que falhou no todo à moda filme, mesmo e ao guarda-roupa de apenas a cintura para cima quer de Sub-Zero, quer de Scorpion para onde aparentemente foi a outra metade do orçamento do filme.

Sabem todas as pedras no sapato que mencionei? Junto-as todas e construo 1.5 estrelas a este filme.


Mortal Kombat
Mortal Kombat

ANO: 2021

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 110 min.

REALIZAÇÃO: Simon McQuoid

ELENCO: Lewis Tan, Jessica McNamee, Josh Lawson.

+INFO: IMDb

Mortal Kombat

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