Napoleão aos olhos de um velho inglês

A Apple passou um cheque de $200M a Ridley Scott e pediu que lhes desse um novo Gladiador. O veterano britânico – sim, são 86 bem-sucedidos anos! – não fez algo semelhante – talvez se esteja a guardar para a sequela dessa sua obra-pirma – mas, ainda assim, foi capaz de trazer algo suficientemente interessante para servir de falatório e chegar até às massas. 

Napoleão Bonaparte é uma personagem histórica pouco consensual – como quase todas o são quando vistas pelos olhos do “homem moderno”. Venceu muitas batalhas. Demasiadas alguns dirão, tendo em conta a quantidade de mortos que daí vieram. Na sua vida privada foi alguém também com várias particularidades, amores assumidos, amores perdidos e que, diz a lenda, seria bem mais inseguro de si próprio do que aquilo que fazia crer. 

Neste filme, Scott foi o mais inglês que um inglês pode ser. Nem sequer se preocupou em nos oferecer uma França minimamente credível. Os atores são anglo-saxónicos e nem aquele patético sotaque francês dos filmes de antigamente tentam fazer. A forma como os franceses – seja Bonaparte ou quem o rodeia – são apresentados é bem menos positiva, menos humana e menos inteligente do que a que nos é mostrada do lado inglês. Sabemos o quão Scott rejeita manter-se fiel a factos históricos, preocupando-se sempre mais com a espetacularidade cinematográfica que permita entreter os espetadores. Nada de errado com isso, pois não falamos de documentários. Ainda assim, escolher um título com o nome da personagem principal e fazer dele apenas uma caricatura do bom estratega que se pensa que foi e uma super-carrancuda, patética e desinteressante pessoa, pode ter sido um passo demasiado arrogante. Tão arrogante quanto Napoleão. 

Mas há aspetos onde Scott raramente falha. Um deles é a forma como constrói e filma as cenas de ação, sempre acompanhadas com brilhantes efeitos visuais e um potente som. Brilhante é a já famosa batalha no gelo e não menos incrível é a forma como filma a batalha final, a de Waterloo. A grandiosidade de Gladiador está nesta cenas presente, o espírito épico e a sua capacidade de filmar tudo de uma forma sangrenta e violenta ao ponto de chocar. Chocar também é o que faz em algumas cenas interiores quando nos mostra um pouco mais da vida particular do imperador francês, embora por vezes os momentos entre batalhas se arrastem em demasia com pouco para dizer. No final, o realizador também recebe ajuda importante por parte do seu elenco. Se Vanessa Kirby cumpre muito bem o seu – mais reduzido do que deveria – papel da enigmática Josephine, é Joaquin Phoenix quem merece o maior destaque como Napoleão, num papel não longe de outras figuras mentalmente desequilibradas que já viveu no cinema, mas com uma entrega em cada cena que nos faz até colocar a questão “será que este gajo é mesmo assim maluco da cabeça?”. 

Napoleão é uma obra peculiar. É a visão muito inglesa de um velho inglês sobre Napoleão Bonaparte e, obviamente, que isso é enviesado por tudo aquilo que foi vendo e ouvindo. Napoleão nunca foi uma figura consensual, mas é difícil entender o objetivo do filme que não seja o de rebaixar as suas conquistas, diminuindo ainda mais a dimensão humana da personagem. As cenas de batalha são, ainda assim, espetaculares e a prestação de Joaquin Phoenix permite que isto seja sempre interessante de acompanhar com direito a algumas cenas memoráveis. 


Napoleon
Napoleão

ANO: 2023

PAÍS: Reino Unido; EUA

DURAÇÃO: 158 minutos

REALIZAÇÃO: Ridley Scott

ELENCO: Joaquin Phoenix; Vanessa Kirby; Tahar Rahim

+INFO: IMDb

Napoleon

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