Revisualizando: episódio 311 – A essência subaproveitada de Naruto

Sou um grande fã do anime Naruto. O fantástico universo criado pelo mangaká (autor de mangás) Mashashi Kishimoto é carismático, complexo, e repleto de personagens criativas e intrigantes. Entretanto, por mais apaixonado que seja por Naruto, não posso negar os enormes problemas que a série carrega e, dentre tais problemas, um dos mais gritantes é a dificuldade do anime em manter um bom desenvolvimento para a maioria de suas personagens a partir de certo ponto da grande jornada que conta.

Naruto é repleto de falhas, e muitas delas vieram com a adaptação do mangá para a TV. O excesso de fillers – episódios originais utilizados para acompanhar as edições mensais do mangá sem que a série ultrapasse o conteúdo original, ou simplesmente para prolongar o tempo de vida da produção – e o uso cansativo e repetitivo de flashbacks, por exemplo, são um sintoma do anime. Mas há também os problemas que vem das limitações do próprio Kishimoto, e o subdesenvolvimento de personagens é o principal deles.

O universo de Naruto é rico em personagens inventivas. Seja um coadjuvante importante, um grande vilão, ou um simples adversário que surge apenas para servir como um conflito de rápida resolução, as personagens de Kishimoto sempre são únicas, portadoras de particularidades suficientes para fazer de cada elemento o menos genérico o possível ou, se assim preferir, minimamente icônico. Naruto, a personagem que protagoniza a série, compartilha de suas aventuras com dezenas das mais incríveis personagens já vistas em qualquer série de TV. São diversos ninjas que, para além de suas habilidades sensacionais de combate, carregam consigo conceitos visuais e contextualizadores extremamente cativantes. Tais personagens recebem um ótimo tratamento nos primeiros momentos da longa jornada de Naruto, dividindo de maneira justa o tempo de tela com o protagonista. Mas, infelizmente, à medida que Naruto, a personagem, cresce na trama, os secundários passam a ser ofuscados, ou até mesmo esquecidos, em alguns casos, para que Naruto possa brilhar. O ápice disso acontece em Naruto Shippuden, a segunda série da franquia, que explora a adolescência do ninja abobado. Nessa fase, muitas das personagens que aprendemos a amar se tornam meras decorações de cenário, com raros e breves momentos de destaque na trama.

Outro grande problema do anime são os famigerados fillers. De início, os episódios “enche linguiça” são raros e bem utilizados em meio aos grandes eventos da série, porém, com o avançar da trama, tornam-se comuns temporadas recheadas de mais episódios filler do que regulares, o que prejudica o anime com cansaço e desinteresse de seu público. Imagine a frustração de quem acompanhou semanalmente os lançamentos do anime. Frustrante talvez seja a maneira mais suave de descrever a experiência.

Todavia, houve momentos em que Naruto fez bom uso de fillers, com episódios divertidos, por mais inúteis que fossem, no fim das contas. Dentre os bons exemplos, existe o excelente capítulo 311, denominado Prólogo para O Caminho Ninja. 311 é, como indica o título, o prólogo para um dos diversos filmes da franquia. Entretanto, apesar de sua natureza preparatória, o capítulo em questão funciona perfeitamente de maneira isolada, uma vez que conta com uma narrativa breve e concisa. E que narrativa!

O 311º episódio de Naruto Shippuden está entre os meus favoritos, e isso se deve ao fato de que nele está tudo o que há de melhor em Naruto. Nesse filler temos muito humor, ação divertida, uma boa dose de drama e, principalmente, respeito à essência do protagonista, assim como das personagens coadjuvantes e suas funções narrativas. Aqui nos encontramos com um Naruto que goza de um dia de lazer, sozinho em sua casa. Não custa muito para que o ninja se sinta solitário, então decide invocar um bocado de seus clones (a principal técnica utilizada pela personagem é a auto clonagem) para uma disputa pelo seu próprio almoço. Seus colegas de aventuras se reúnem para um banho coletivo nas casas de banho do vilarejo, e decidem convidar Naruto para o que desencadeia em uma hilária narrativa de exploração da intimidade dos membros do grupo de amigos do protagonista. Entre conversas sobre inseguranças íntimas e espiadas na sala do sexo oposto, 311 nos reaproxima das personagens que, naquele ponto do anime, sentíamos tantas saudades.

No fim das contas, um mero filler faz muito mais por Naruto do que o próprio Kishimoto foi capaz de fazer ao chegar no que deveria ser o ápice de qualidade de sua obra. O episódio 311 de Naruto Shippuden entende a verdadeira essência de Naruto e suas personagens, e escreve, em 20 minutos, uma carta de amor a esse tão incrível e cativante universo.

Naruto é um garoto solitário. Negligenciado e marginalizado por sua própria comunidade, foi forçado a viver sua infância sozinho, sem ter apropriadamente a experiência de compartilhar sua vida com outras pessoas. À altura do 311º episódio, Naruto se provou um grande ninja, e já criou laços intensos com diversas personagens, mas, ainda assim, é uma pessoa solitária. As feridas do que sofreu na infância jamais poderão ser cicatrizadas. A dor da rejeição jamais deixará o peito do jovem ninja. Não importa quantos amigos faça. Não importa quantas risadas compartilhe com quem ama. No fim do dia, Naruto sempre se sentirá sozinho, não importa quantos de seus clones ou queridos amigos estiverem à sua volta.

É dolorido e soa injusto, mas é lindo, pois em poucos minutos temos uma demonstração de tudo o que o universo e as personagens do anime têm a mostrar. É uma pena que, diferente do episódio em questão, tanto do potencial de Naruto seja desperdiçado. Nem tudo ocorre como nós, fãs, gostaríamos ou merecíamos, mas, afinal, podemos sempre voltar para revisitar estes momentos de brilhantismo técnico e emocional que a série nos proporcionou. Naruto é complexo não apenas em termos de universo, suas personagens também são cobertas de diversas e densas camadas, nem sempre bem exploradas, mas eventualmente tratadas com o devido respeito. 311 é um grande destaque no que veio a ser o pior momento, narrativamente falando, do anime, e considerarei sempre como o melhor exemplo do que é a verdadeira essência de Naruto.

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