No Sudden Move (ou o mesmo corpo com roupa diferente)

O realizador Steven Soderbergh já fez isto antes com dois filmes da franquia “Ocean’s” e agora enveredou pelo submundo com travos de máfia. Com o elenco que teve à sua disposição, esta história que conseguiu entreter pelas pouco menos de 2h de duração tinha tanto mais para dar, mas é sempre capada pela narrativa que só funciona se a medida for exactamente a que nos fora dada.

Sem qualquer pressuposição formada sobre este filme (mesmo do jeito que eu gosto), abre-se-me a trama com nada menos que Don Cheadle. É impressionante como começo a apreciar as pequenas coisas que grandes actores fazem com as suas escolhas de representação sem ter de rebobinar ou me aperceber eventualmente. Isto acontece muito mais vezes e com outros nomes de referência como Brendan Fraser no papel de “enforcer” da máfia, Matt Damon como magnata da indústria automóvel, Amy Seimetz como esposa e dona-de-casa a quem lhe acontece algo e lhe é revelado um segredo que lhe abana com as fundações, e por aí em diante. Benicio del Toro também está cá, mas começa a tornar-se type-cast com a forma como representa, sendo que aqui ainda mostra alguma vontade em ser fiel ao que lhe foi pedido em vez de apenas a si próprio. Será sempre bom ver Benicio ser Benicio mas quando há chance em tentar algo num envolvimento menos exigente e não se tenta, entristece por ser mais do mesmo.

Como já mencionei, já vi este filme antes em Ocean’s Eleven e Twelve (tanto que há mais uns três destes em que nem Soderbergh quis estar envolvido, talvez por enjoo da própria fórmula), no entanto o que vai dissimulando tanto quanto pode No Sudden Move dos seus pais espirituais é a forma de como a acção se desenrola, as interpretações entre actores são muito bem ligadas e o ritmo é muito menos frenético apesar de bem compassado e consistente.

A filmografia é acima da média e capta bem a época retratada, o que reconheço como esforço acrescido, já que o enredo tem esta possibilidade camaleónica de se vestir de qualquer roupa sendo o mesmo.

Necessito de destacar o som deste filme. Não a banda-sonora, mas o som. A mistura, a masterização, as opções dos efeitos sonoros e o conjunto. Poderei ser suspeito aqui por ter assistido a No Sudden Move com fones, mas este adicional condimento que me ajudou a compenetrar no filme trouxe um “je ne sais quoi” agradável, bem-vindo e ligador das acções com as percepções a reter dessas acções.

Este filme podia ter poupado potenciais milhões ao escolher outro leque de actores que fossem menos conhecidos mas que lhes fosse reconhecido potencial para as interpretações que obtive com o elenco então escolhido, ao que me pergunto: se assim fosse, alguém veria este filme sequer?; se o star-power não estivesse na equação, o filme seria menos bom por inerência?; se quem quiser ver este filme estiver preocupado em se informar exaustivamente sobre o que se trata, será que vai vê-lo na mesma pelo star-power?

Ficam estas interrogações existenciais que tive tempo de tecer sobre No Sudden Move quando podia e devia ter reflexões sobre a obra propriamente dita em vez do que a rodeia mas não há mais a espremer, o que não deixa de ser engraçado pois o próprio filme levanta questões que resolve mas não as explica e dispõe de ramos narrativos que são palha pura que, cortados, facilmente torná-lo-iam merecedor de não mais de 1h20 de duração mas que assim seria muito difícil explicar o potencialmente elevado cachê. 3 estrelas.


No Sudden Move
Nem Um Passo Em Falso

ANO: 2021

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 115 min.

REALIZAÇÃO: Steven Soderbergh

ELENCO: Don Cheadle, Benicio Del Toro, David Harbour

+INFO: IMDb

No Sudden Move

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