Nomadland (2020)

Nomadland, a obra prima de Chlóe Zhao

Não ter casa faz de nós sem abrigo? Esta é uma das várias questões que vamos descortinando em Nomadland. A adaptação do best-seller de Jessica Bruder, que foi realizada por Chlóe Zhao, estreou a 11 de setembro no Festival Internacional de cinema de Veneza e conta com Frances McDormand como protagonista.

O drama, que foi o grande vencedor da maiorias das premiações deste ano, mostra a realidade de muitos americanos que, depois da crise de 2008, ficaram sem empregos e, por isso, sem meios de conseguir pagar as suas casas. Este facto fez com que muitos se vissem obrigados a adotar um estilo de vida nómada, vivendo nos seus veículos. Esta é a realidade de Fern, personagem de Mcdormand. Afetada pela crise e pela morte do seu marido, Beau, a protagonista começa a adotar esse estilo de vida. Ao longo do filme percebemos que mesmo estando no centro, Fern não é a única que merece ter a sua história contada. Aqui, ela assume um papel de guia que nos dá a conhecer, de forma orgânica, as histórias das pessoas  – como Linda May, Swankie, Bob e Dave – com quem ela se cruza na estrada.  Repetindo a escolha criativa que fez em The Rider, Zhao fez com que Mcdormand contracenasse, maioritariamente, com pessoas que não são atores profissionais. E essa escolha não poderia ter sido a mais acertada!

E se Zhao e Mcdormand fizeram um trabalho extraordinário – digno de todo o reconhecimento – não podemos deixar de parte Joshua James Richards, diretor de fotografia. A mobilidade das câmaras conferiu uma sensação de movimento tal que, mais do que observar, nós também viajámos com Fern! As filmagens, feitas com uma luz natural ou com pouca luz, proporcionaram uma visão ainda mais realista e intimista. Seria isto um filme ou um documentário? É tudo tão real! E quando achámos que o filme não nos pode encantar mais, somos presenteados com viagens que são envoltas em paisagens magníficas. E é através das viagens que o filme, de forma natural, traz à tona a realidade dos trabalhos precários nos Estados Unidos. Fern precisa sobreviver e, para tal, ela vai fazendo, ao longo do ano, vários trabalhos temporários.   

Mcdormand consegue implementar em Fern um olhar de criança e um sorriso tão doce que chega a parecer ingénuo. Torcemos por ela e desejámos que nada de mal lhe aconteça, mas no fundo sabemos que ela vai ficar bem. Viajámos com Fern pelo mundo nómada e, por vezes, até podemos nos questionar sobre o seu lugar ali, mas quando a vemos no mundo “normal” a pergunta inicial é respondida. E essa viagem pelos dois universos mostra que o filme vai para além da questão do que é um lar, ou das questões que envolvem o trabalho temporário, Nomadland é uma ode à liberdade! E se, logo no início, podemos ver um pouco dessa liberdade – Fern urina no meio do mato, sem nenhuma preocupação, – no final, essa liberdade atinge o clímax com o grito de «Feliz ano novo».

A paisagem, a trilha sonora, a(s) história(s) e a protagonista caminham em harmonia e é evidente o porquê de tanta euforia em torno da obra. Aqui, aprendemos que não existem adeus definitivos, afinal de contas um dia vamos todos encontrar-nos no final da estrada. Enquanto o nosso encontro não chega, vejam Nomadland e gravem o filme na memória pois, como diz Fern, «tudo que é lembrado vive para sempre», e esta história merece viver!

 


Nomadland
Nomadland - Sobreviver na América

ANO: 2020

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 1h 47min

REALIZAÇÃO: Chlóe Zhao

ELENCO: Frances McDormand, David Strathairn, Linda May

+INFO: IMDb

Nomadland

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