Revisualizando: O Filme da Minha Vida – maturação, desmistificação e umas pedras pelo caminho

Parte do processo de crescimento é ter de lidar com a desconstrução de muitas das nossas crenças, opiniões e visão de mundo. O Filme da Minha Vida é uma jornada de maturação e, por sua vez, apresenta como parte essencial de sua trama a desmistificação.

Desde a campanha de marketing do filme, seja pelos comerciais na TV ou os diversos posts de feedback postados por Selton Mello em suas redes sociais, somos levados a crer que o primeiro longa de Mello como diretor é equivalente a um passeio à tarde no parque em um domingo de sol. Leve, aconchegante e livre de grandes conflitos. Perfeito. A fotografia e ritmo do filme reforçam isso logo de cara e, mesmo com a apresentação da ausência inesperada da figura paterna do protagonista, temos a impressão de que não temos muito mais que nos preocupar além de conhecer mais a fundo essa figura paterna aparentemente exemplar e suas reais ambições. Mas, por fim, temos de lidar com uma grande decepção, pois o pai é apresentado não só como um farsante, mas também como adúltero.

Ok, a figura paterna não é exatamente o que parecia ser, mas e daí? Acontece que essa não é a única coisa que muda de figura na vida do protagonista, tudo parece se transformar drasticamente durante as quase duas horas do longa. Temos a prostituta que foge do esteriótipo de mulher sem valor, que demonstra ser gentil, carismática e culta; a mulher foda e bem resolvida, que na verdade é uma amante que vive uma vida conturbada de mentiras; o tio gente boa, que se mostra um mentiroso oportunista e farsante, quase assumindo o inesperado posto de vilão. O último ítem é com certeza o mais interessante, pois já se espera que Selton Mello interprete um personagem carismático e gente fina, já que os mais populares trabalhos do ator, seja em filmes, séries ou em dublagens, são em geral personagens desse perfil, como o Kuzco, de A Nova Onda do Imperador, ou Chicó, de O Auto da Compadecida.

É engraçado como O Filme da Minha Vida pode servir como uma analogia a um passeio no parque que, por sua vez, pode ser uma analogia à nossa vida. A princípio, tudo é lindo e empolgante, mas, eventualmente, temos de lidar com algumas pedras em nosso caminho. Nos descuidamos, pisamos nelas e até torcemos nosso pé, mas isso não precisa nos privar de aproveitar o passeio.

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