The White Tiger diz muito e fá-lo com mestria

The White Tiger é uma coprodução indiana e norte-americana, original Netflix, realizada por Ramin Bahrani, que nos conta a história de um ambicioso jovem indiano, de uma casta baixa, que ambiciona ser mais do que a vida parece ter para ele reservado. Esse jovem é Balram (interpretado por Adarsh Gourav) e é com ele que passamos todo o filme, vendo os acontecimentos sob a sua perspetiva, sendo o próprio um narrador presente ao longo do filme. E é aí que o filme se começa a destacar.

Filmes com narrador presente podem funcionar bastante bem (Martin Scorcese tem vários bons exemplos na sua filmografia) ou bastante mal (talvez a versão de David Lynch de Dune, seja um dos “melhores” piores exemplos). Normalmente é um recurso utilizado quando se adapta a história de um outro formato onde é permitido explorar melhor as emoções – neste caso, um livro de sucesso -, mas deve-se ter um especial cuidado para não cair na armadilha de contar mais do que mostrar, que é um dos maiores pecados capitais no cinema. Aqui isso corre bastante bem.

Corre bem porque a informação é relevante, sem ser demasiado exploratória e corre bem porque Adarsh Gourav tem uma fantástica interpretação no papel de Balram. Todas as emoções de Balram transpassam para o espectador de forma absoluta, algo particularmente complicado num filme que brinca com o “genre-bending”, misturando drama, humor, crime e injustiças sociais, de forma bastante satisfatória. Sabemos quando o sorriso de Balram é um sorriso sincero, sabemos quando é um sorriso confuso e sabemos quando é um sorriso de desapontamento. E tudo isso se deve mesmo a Gourav, que é a estrela maior de The White Tiger. 

Muitas comparações têm sido feitas com Parasite, o filme que conquistou o mundo do cinema e os Óscares em 2020, e isso faz todo o sentido. Além da temática da ascensão social e da quase impossibilidade de não-privilegiados a atingirem; o fosso entre ricos e pobres, através de comportamentos e relações, dentro e fora da sua classe, é, por demais, dominante neste filme. A fotografia, outro dos grandes destaques do filme, permite-nos ver a Índia, as várias Índias e as suas várias cores, de uma forma crua e, por vezes, chocante.

O sistema de castas é-nos apresentado aqui de uma forma mais sincera e realista do que o que vimos no passado em, por exemplo, Slumdog Millionaire, e esse tom sincero vai subindo de tom, conforme o filme se desenvolve. Esse é, aliás, um outro ponto em comum com “Parasite”. Ao longo do filme, vamos percebendo para onde o filme nos leva – até a chuva tem aqui também um papel central! – embora este “tigre” seja mais cínico na sua abordagem à “solução final”, utilizando o humor negro e a ironia para descontruir um tom que poderia ser mais sombrio, dado o que realmente acontece no acto final do filme. O final pode mesmo ser controverso, uma vez que uma mensagem que marcou a campanha primária das eleições democratas norte-americanas – “eat the rich” – parece ser mesmo a solução encontrada. 

O filme pode não atingir os níveis sentimentais e nos deixar com as emoções tão à flor da pele quanto Bong Joon-ho foi capaz de fazer na obra-prima de 2019. Havia material para ser emocionalmente mais forte e esse talvez seja o seu ponto mais fraco, mas também não parece esse tenha sido um objetivo. É uma obra pouco dada a subtilezas, percebendo-se desde logo o papel de quem quer mais, de quem quer que tudo continue como está e de quem finge querer mais, mas que, no fundo, não abdica do seu status-quo.

As forças de The White Tiger são, no entanto, bastante superiores às suas fraquezas. Recheado de imagens e cenas fantásticas, que perdurarão para sempre na nossa memória – defecar ao ar livre nunca foi tão belo! – e de uma enorme quantidade de falas que servirão de citações por muitos anos; a força de Gourav no controlo do puro, mas ambicioso, Balram é tanta, que no final até pouco nos importamos que também ele seja consumido pelo sistema. O que sentimos é que ele merece vencer. E o tigre branco é mesmo um vencedor.


The White Tiger
O Tigre Branco

ANO: 2021

PAÍS: India; EUA

DURAÇÃO: 125 minutos

REALIZAÇÃO: Ramin Bahrani

ELENCO: Adarsh Gourav, Rajkummar Rao, Priyanka Chopra

+INFO: IMDb

The White Tiger

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