Old: Shyamalan de volta ao “modo louco” que divide cinéfilos em dois grupos

M. Night Shyamalan é um dos mais reconhecidos escritores e realizadores de Hollywood. Famoso desde a sua estreia (com The Sixth Sense), a partir daí, os seus filmes têm dividido muitas opiniões, não deixando ninguém indiferente. É seguro dizer que Shyamalan tem uma base de fãs fiéis – voltou a ter uma estreia no 1º lugar da bilheteira -, mas é tão, ou mais seguro, dizer que, a partir de um certo momento, passou a ser cool gozar com Shyamalan e odiar tudo o que faça. Independentemente de falarmos de Signs, The Village, The Happening ou Split, a verdade é que os seus filmes têm uma identidade própria. Eu encontro-me do lado que o considera um dos realizadores mais inovadores de Hollywood, que não tem medo de arriscar e de fazer “diferente”, mesmo que nem sempre os resultados estejam à altura.

Esta introdução é necessária, pois irá ter muito a ver com a disposição com que encararão Old. É um filme do “Shyamalan louco”, daquele Shyamalan que não se importa minimamente com o que a crítica pensa dele, daquele Shyamalan que faz escolhas estranhas de ângulos, que faz escolhas estranhas do que mostra em cena, que nos faz duvidar se o que vemos é para rir ou se é para ser levado a sério. Se gostam dessa faceta do realizador, Old deverá resultar com vocês. Se querem um filme que vos diga, claramente, o que devem sentir e que segue by the book as regras do cinema norte-americano, têm aqui vários motivos para odiar esta obra.

Na história, uma família chega a um novo resort, numa paradisíaca localização e são convidados pelo dono do estabelecimento a visitar uma praia privada da qual poucos têm conhecimento. Lá encontram mais hóspedes que tiveram conhecimento do local e, cedo se apercebem, que algo de muito estranho se passa: estão a envelhecer muito, muito rápido e a sua vida pode ficar reduzida a menos de 24 horas. A história é interessante, mas, desde cedo, tive a dúvida se seria um conceito sustentável para nos manter interessados durante toda a sua duração. Na minha opinião, não falhou nesse sentido, embora tenha sentido que todo o material promocional do filme tenha contado em demasia e que esta teria sido uma experiência ainda mais surpreendente e chocante, caso tivesse tido uma promoção mais sugestiva.

As atuações do filme dependerão muito de como comprem o conceito do filme. Uns acham fantásticas, outros acham ridículas. Pessoalmente, acredito que seja uma abordagem realista a um conceito imaginário, mesclando a componente dramática, com alguma componente cómica e irónica. Isto leva a que o filme tenha um tom não muito bem definido, deixando o espetador decidir se lhe apetece rir ou chocar-se em determinados momentos, dada a perplexidade do que vai acontecendo em cena. Na maioria das vezes, Shyamalan acerta, mas cai também, por vezes, no exagero da excentricidade, o que não irá agradar a espetadores mais dados à zona de conforto.

As próprias mensagens que o filme tenta passar assim o são também. Temos um olhar cínico e irónico a alguns aspetos da sociedade, como o endividamente das gerações mais jovens, o poder das farmacêuticas e a obsessão pelo lucro em detrimento de vidas humanas. Mas também temos um perspetiva emocional e abordagem, surpreendentemente, profunda a questões relacionadas com o tempo – seja o envelhecimento e os seus efeitos, seja o poder das nossas escolhas e de como um dia iremos olhar para elas. Quem não tiver comprado o conceito até aqui, irá, seguramente, perder este interessante olhar do realizador.

A nível técnico, Shyamalan aposta também…em tudo o que lhe dá na cabeça. Às vezes dá-nos ângulos de filmagens do outro mundo, outras vezes prefere brincar e experimentar coisas novas, que, talvez, nem sempre saiam bem. A cinematografia é interessante (embora muito colada ao próprio cenário) e existe um excelente trabalho de make-up, dando-nos um muito crédivel processo de envelhecimento rápido (embora, por vezes, os efeitos não pareçam funcionar, de igual forma, para todos).

Em suma, Shyamalan nem sempre acerta, mas Old é um filme arriscado, sem medo de parecer ridículo e difícil de rotular, que, pela sua abordagem, certamente, terá tantos haters quanto fãs. Por vezes, Old é bem mais profundo do que aparenta e preparem-se: temos aqui o “Shyamalan louco”, com vários momentos alucinantes e cómicos!


Old
Presos no Tempo

ANO: 2021

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: Gael García Bernal; Vicky Krieps; Rufus Sewell; Alex Wolff; Thomasin McKenzie; Abbey Lee; Nikki Amuka-Bird; Ken Leung

REALIZAÇÃO: M. Night Shyamalan

ELENCO: 108 minutos

+INFO: IMDb

Old

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