One Night in Miami é uma lição de história obrigatória

Olhando para a premissa de One Night in Miami, estamos longe de imaginar quantas camadas emocionais e quanto sumo é possível daí espremer: no seguimento de uma importante vitória, que deu o título mundial de pesos-pesados a Cassius Clay (que, mais tarde, viria a ser conhecido por Muhammad Ali), o pugilista reúne-se num hotel com Malcolm X, Sam Cooke e Jim Brown, numa celebração bem diferente da que se poderia antever, discutindo-se direitos civis, a história da luta negra nos EUA e a responsabilidade de cada um dos intervenientes. Na realização está Regina King – a atriz vencedora de vários prémios, entre Óscares, Globos de Ouro e Emmys – que se estreia por detrás das câmaras. E que estreia!

Sempre segura, não deixa o filme fugir-lhe, seja nos breves momentos anteriores à “noite” que marca o filme, seja, principalmente, quando o filme limita quase toda a sua ação a espaços bastante contíguos: maioritariamente no quarto de Malcolm ou no terraço do motel onde este está hospedado – o que permite uma visão fantástica sobre uma cidade que não dorme e um paralelismo com a urgência da ação de Malcolm, que até numa noite que se queria de festa, tem como interesse maior a procura de novas formas de luta e o incentivo para que os colegas façam mais pelas causas relacionadas com os direitos negros.

Esse papel, de Malcolm X, é desempenhado de forma eletrizante por Kingsley Ben-Adir, numa das mais surpreendentes interpretações do ano. Pouco conhecido do grande público – apesar de alguns papéis significativos na televisão – encarna a personagem de forma tão convincente que até nos esquecemos que não é o próprio Malcolm que está a ser filmado para um documentário. Os tiques, as pausas, o olhar profundo, as reflexões…tudo está lá, ainda que este seja um Malcolm mais calmo do que muitas vezes é retratado, a poucos dias de embarcar numa viagem que iria mudar, para sempre, a sua vida e o seu papel – interno e externo – na luta pelos direitos cívis. Todos nós nos lembramos de Denzel Washington e a sua hipnotizante performance no clássico de Spike Lee e acho que o maior elogio que se pode fazer a Ben-Adir é dizer que, mesmo sendo aqui pedido algo diferente (não vemos Malcolm nas ruas, não o vemos com o povo ou em direto confronto com os que o mais perseguem e odeiam), nem por um momento nos sentimos tentados a fazer comparações com essa outra versão que muito admiramos, pois ambas são grandiosas à sua maneira.

Mas não é só de King e Ben-Adir que vive este filme. É um filme maioritariamente de atores e é obrigatório destacar todos os principais. Eli Goree vive Cassius Clay e mostra-nos a sua conhecida arrogância no plano desportivo – não de quem o faz de uma forma ofensiva, mas, sim, de uma forma autoconfiante – que nos cativa e que nos deixa a querer que também ele faça parte do nosso núcleo de amigos. Goree evidencia-se quando ele próprio se questiona a si próprio em relação ao futuro e às suas escolhas, revelando que, em breve, iniciará um novo capítulo na sua vida. Aldis Hodge cativa na sua missão mais introspetiva, como Jim Brown, estrela do futebol americano, que, aos poucos, tem perdido a ilusão que tinha, de poder pertencer aos grupos que o admiram dentro do campo. Brown quer, agora, usar esse papel de entretainer a seu favor e irá fazer algo para ser ele a mandar nessa relação de poder.

Por fim, Leslie Odom Jr. está irrepreensível na interpretação do cativante e talentoso Sam Cooke. Ao acreditar que não é ele o explorado na relação que tem com o seu público, Cooke entra em confronto com Malcolm num dos melhores momentos do filme, em que Malcolm o chama a atenção para a sua responsabilidade para com o seu povo e para formas mais eficazes de passar a sua mensagem. Cooke tem, talvez, o arco mais importante de todo o filme e não admira todo o reconhecimento que Odom Jr. tem vindo a receber pela sua interpretação, que é admirável sob todos os aspetos.  

A cinematografia e a edição do filme são também elas excelentes e dignas de destaque, mas o que torna One Night in Miami numa visualização obrigatória é a a capacidade de Regina King de unir todos os pontos e dar-nos importantes lições de história, enquanto conduz todo o seu elenco para performances excepcionais.

 


One Night in Miami
Uma Noite em Miami

ANO: 2020

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 114 minutos

REALIZAÇÃO: Regina King

ELENCO: Kingsley Ben-Adir, Eli Goree, Aldis Hodge, Leslie Odom Jr.

+INFO: IMDb

One Night in Miami

Previous ArticleNext Article

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *