O valor da banalidade em Perfect Days

O filme que recebe a crítica neste texto se chama Perfect Days, ou Dias Perfeitos, em português. Uma obra calma e contemplativa que acompanha o calmo e contemplativo zelador de banheiros públicos Hirayama, em toda sua simplicidade e quietude. Mas o que há de perfeito nisso?

Nada. Acompanhamos aqui a rotina metódica de um homem comum e reservado, cujo olhar atento e melancólico a tudo o que o rodeia, o preenche com a satisfação da contemplação do agora, e o que o agora tem a lhe proporcionar. Hirayama, vivido pelo brilhante Koji Yakusho, é econômico em tudo o que faz, e fala só quando sente necessário, porém, seu silêncio diz tudo o que se nega a verbalizar. Sua disciplina rotineira, dedicação ao trabalho, e atenção aos singelos e simplórios prazeres do dia a dia, demonstram o desapego do excesso de um homem que enxerga as coisas sem pretensão, e entende a beleza de sua banalidade.

A realização de Wim Wenders, que também co-escreve o argumento, acompanha o metodismo de Hirayama. O olhar paciente do realizador acompanha o protagonista com calma, respeitando o tempo de alguém que não tem tempo a perder com a pressa. Hirayama não tem o melhor emprego, tampouco tem muito do que possa chamar de seu. Todavia, valoriza o que possui, o que observa e o que absorve com o contentamento de quem vive o momento, e tem gratidão por sua suficiência. Wenders usa da simplicidade para captar a rotina de Hirayama, pois compreende que excessos não condizem com quem sua personagem é, e só fariam inflar com forma e contraste o que se faz perfeito na suficiência da imperfeição do mundano.

Mas uma narrativa pede por conflitos, e Perfect Days interfere no dia a dia de Hirayama com a intrusão de terceiros que o provocam a fugir de sua rotina. Colegas de serviço inconvenientes e visitas inesperadas o levam a ser mais vocal e exceder-se para além do seu costume, e com isso podemos compreendê-lo melhor. Hirayama, ainda assim, diz pouco, e só fala o que sente que precisa ser dito. Sua economia verbal, tal qual a economia formal e do discurso do filme, podem parecer uma crítica aos costumes excessivos de terceiros, mas como o próprio Hirayama defende, as pessoas vivem em diferentes mundos, dos quais vivem entrelaçados entre si. Ele não está interessado em julgar os outros e como levam suas vidas, ao invés disso, prefere focar no que sua vida tem a lhe oferecer, e em valorizar a banalidade dos breves e agridoces vazios de sua existência. Quanto aos demais e os diferentes mundos dos quais carregam consigo, Hirayama se contenta com o que absorve do choque entre suas diferentes filosofias.

E tudo o que Hirayama absorve fica contido dentro de si, aguardando o momento de fechar os olhos, e cair no lúdico mundo dos sonhos. É só ao entregar-se ao onirismo que Perfect Days e seu protagonista se aventuram pelo abstrato, garantindo-nos sequências contemplativas e poéticas oriundas do que há de mais interno em Hirayama, e que dizem de si mais do que muito do pouco que permite ecoar através de sua garganta. Como uma janela para sua alma, imagens sobrepostas dão origem a planos fantasmagóricos belíssimos, não de fantasmas assombrosos, mas daqueles que carrega consigo em eterna memória, significado e importância.

“A próxima vez é a próxima vez. Agora é agora.” A frase de Hirayama define perfeitamente o que é Perfect Days: a celebração do momento; o contentamento com o banal; a aceitação do que é em detrimento do que pode ser. Nada é tão perfeito que não possa estar quebrado, nem tão imperfeito que não possa ser suficiente. As coisas têm a importância que damos para elas, e isso não deveria funcionar da forma inversa. Perfect Days é perfeito em sua insistência em ser muito com pouco, em ser grande com a simplicidade do comum. A abstração e a complexidade deixamos aos sonhos de Hirayama. Lá, sim, ele se permite mais, sempre mais.


Perfect Days
Dias Perfeitos

ANO: 2023

PAÍS: Japão, Alemanha

DURAÇÃO: 2h 4min

REALIZAÇÃO: Wim Wenders

ELENCO: Koji Yakusho, Tokio Emoto, Arisa Nakano,

+INFO: IMDb

Perfect Days

Previous ArticleNext Article

1 Comment

  1. “respeitando o tempo de alguém que não tem tempo a perder com a pressa”

    Seu atrevido. Aqui permitiste-te e saiu muito bem!

    “Nada é tão perfeito que não possa estar quebrado, nem tão imperfeito que não possa ser suficiente.”

    Outro atrevimento! Que linha!

    Texto “perfeito” para um filme “perfeito”. Obrigado. O que se sente e entende ao ver o que se viu, considero poeticamente fiel descrito neste texto.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *