Sinceridade, delicadeza e melancolia em Petite Maman

Sinceridade ao representar amizade, delicadeza ao abordar melancolia e cuidado ao passear pelas belas e finitas águas da memória. Petite Maman se propõe a apresentar seu universo através do inocente olhar de uma criança, expondo-a a complexidades que assombram a vida adulta, como o luto, e conduzindo-a por uma jornada de reflexão e descobertas, internas e externas, com a verdade necessária para fazer dessa obra uma leitura fiel dos desafios pessoais da vida infantil.

Não há pressa na realização de Céline Sciamma. A cineasta entende suas personagens e, por compreender a delicadeza da situação que estão vivendo, permite que elas respirem, dando o tempo necessário em cada take para que as personagens sejam absorvidas, de corpo e alma, pelos ambientes e atmosferas em que estão inseridas. Assim, Céline absorve também seu público com o constante clima de sutileza composto, principalmente, por uma fotografia sóbria, inundada de tons pastéis e enquadrada por planos simples, porém contemplativos.

As atuações do longa francês são belas e contidas. O destaque fica para as gêmeas Joséphine e Gabrielle Sanz, que interpretam, respectivamente, Nelly, protagonista do filme, e Marion, a nova amizade de Nelly que, além de ser tão parecida com ela quanto a própria imagem refletida em um espelho, tem o mesmo nome de sua mãe. A dupla de atrizes mirins encanta com sua graça e curiosidade, ao mesmo passo que, assim como o restante do elenco, entregam um trabalho primoroso ao demonstrar, mesmo nas cenas de maior descontração, um tom agridoce de constante melancolia..

Outro elemento que merece destaque nessa obra é a composição sonora de Jean-Baptiste de Laubier. Que trabalho lindo. A criação de Laubier é tímida, recusa-se a dar às caras durante quase toda a duração do filme, surgindo apenas nos finalmentes do terceiro ato. A ruptura criada pela inserção de uma banda sonora tão distinta do que já havia sido apresentado até ali poderia ser problemática, mas acaba por ser certeira. O impacto da composição é surpreendente, pois carrega consigo um enorme potencial imersivo e atmosférico, enchendo de comoção uma cena carregada de vislumbre e sentimentalismo. O resultado é lindíssimo.

Melancolia é um sentimento complexo, assim como a forma com que as crianças enxergam o mundo. Céline decide abordar ambos os temas, e faz isso com tamanha maestria e sinceridade, que faz parecer simples o grande desafio de traduzir tais complexidades ao formato audiovisual. Petite Maman é um simples, porém grande filme.


Petite Maman
Petite Maman

ANO: 2021

PAÍS: França

DURAÇÃO: 1h 12m

REALIZAÇÃO: Céline Sciamma

ELENCO: Joséphine Sanz, Gabrielle Sanz, Nina Meurisse

+INFO: IMDb

Petite Maman

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