Vida, morte, horror e fascínio no Pinocchio de del Toro

A popularidade das animações clássicas da Disney tornam a tarefa de adaptar clássicos contos de fadas para o meio audiovisual um grande desafio. Tudo que diz respeito a personagens como Cinderela, Branca de Neve, Bela Adormecida, entre outras, é imediatamente associado à produtora. Logo, comparações são inevitáveis.

Por mais que sejam muito mais recentes que as obras originais que as inspiraram, as adaptações dos contos desenvolvidas pela Disney firmaram no imaginário popular como características essenciais dessas histórias, tons mais infantis, ingênuos e leves, no intuito de atingirem seu público alvo, as crianças, de forma menos agressiva que o material fonte. A abordagem impactante e brutal originalmente pensada para tais contos, é hoje encarada como algo à parte dessas histórias, um mero resquício de ideias antiquadas que já não funcionam mais atualmente.

Sair-se bem aqui é complicado. O desafio vai além de contar uma boa história. É preciso ser original o bastante para desprender o público de adaptações passadas, público esse que já se direciona à obra com essas adaptações em mente, e, para isso, é antes necessário livrar-se das muletas criativas que a referência desses clássicos pode garantir ao autor de uma nova adaptação. Tais referências são, sim, bem-vindas, tendo em vista a iconicidade indiscutível do que foi feito no passado, mas apoiar-se demais nisso pode resultar em um produto sem identidade disfarçado de homenagem.

Felizmente, Guillermo del Toro sabe o que faz, e junto de Mark Gustafson, reconta uma história há muito conhecida, o conto do boneco de madeira que ganha vida, Pinóquio, com o frescor de uma obra com identidade própria, capaz de engajar com o uso de elementos narrativos nunca experimentados antes nessa história, e ressignificações narrativas que garantem a sensação de novidade, sem deixar de lado a real essência do material original.

Pinnochio (quando me referir ao filme, usarei o nome original, quando me referir à personagem, o nome traduzido) é uma animação em stop-motion que leva, para além da inédita abordagem técnica, muita inovação para esse tão popular conto. Comecemos pelo tom do filme: Pinnochio não é sombrio como o seu material original, mas também não é leve e infantil como o filme da Disney dos anos 40. A nova adaptação encontra um equilíbrio entre essas duas abordagens, se acomodando bem no meio do caminho entre elas. Ao final, o que temos é uma obra capaz de agradar a qualquer público facilmente, pois consegue ser densa e complexa o suficiente para olhares mais maduros, e doce e inocente o bastante para cativar as crianças. 

Situado na Itália fascista regida pelo ditador Benito Mussolini, Pinnochio é concebido com uma atmosfera opressora, triste e pessimista que, mesmo em seus momentos de maior descontração e leveza, não falha em deixar o público preocupado, ou minimamente desconfortável. As amarras morais, comportamentais e intelectuais ditadas pelo regime autoritário ameaçam punir qualquer um que ouse se desprender, mesmo que brevemente, do seu controle. E esse é o maior motivo da nossa preocupação com o que se passa em tela: como evitar que um menino de madeira, que com a dádiva da vida se livrou da limitação de mover-se apenas com a manipulação de cordéis, com toda sua ingenuidade, compreenda que para não correr riscos, deve se limitar a agir, pensar e expressar-se aos moldes de um fascista mimado que comanda uma nação inteira com impiedade? A situação é complicada, podemos sentir isso a todo momento. O autoritarismo do regime de Mussolini tenta moldar Pinóquio a sua maneira, e ainda tenta se aproveitar de suas nada usuais condições físicas em prol da manutenção do governo fascista. 

Mas isso não é tudo. Fora o clássico e indispensável arco de exploração do protagonista como ferramenta de lucro, Pinnochio também apresenta problemáticas religiosas. Não demora muito para que o menino de madeira seja hostilizado pela sociedade. Com poucas horas de vida, Pinóquio experimenta o que de pior a humanidade tem a oferecer. O filme explora a capacidade das pessoas em demonizar o que não compreendem, e o quão violentas e estúpidas podem se tornar em detrimento de sua fé corrompida, que confunde intolerância com amor e justiça.

E em meio a toda esta atmosfera violenta, está Pinóquio, que com sua doçura e ingenuidade, traz o contraste necessário para que o filme atraia o público infantil, além de garantir a já citada constante sensação de perigo. A personalidade inocente de Pinóquio não é novidade, mas, diferente de outras versões da história, aqui o protagonista não apresenta malícia alguma. Muito pelo contrário. Pinóquio é extremamente puro, benevolente e sensível. Ah, e claro, muito fofo. A atuação de Gregory Mann é um dos maiores destaques deste elenco que conta com vozes de atores talentosíssimos como Ewan McGregor e Tilda Swinton. Além de cantar muito bem, o jovem ator emprega muito carisma em sua voz, mas, principalmente, muita naturalidade. Gregory Mann dá muita alma para Pinóquio, que impressiona com genuínas demonstrações de desespero, alegria e, principalmente, empolgação. É indiscutível a qualidade do serviço prestado por Mann, uma vez que sua voz garante ao pequeno boneco de madeira legítima sensação de vida e fascínio por viver.

Mas o mais empolgante aspecto de Pinnochio, é como o filme ressignifica muitos dilemas e temas centrais do conto original, sem perder a essência do que faz essa história tão especial. As motivações das personagens, por exemplo, sofrem mudanças significativas.

Gepeto não é mais um homem solitário que sonha em ter companhia, e sim um pai que sofre com o luto da perda precoce do filho, e, entregue as bebidas, esculpe um menino de madeira na tentativa de trazê-lo de volta. Gepeto não reage bem ao ver sua criação ganhar vida, e seu arco se torna o de aceitar Pinóquio como seu filho, ao invés da clássica missão de ensiná-lo a ser um bom menino.

Pinóquio não tem mais como objetivo principal ser um rapaz exemplar, para ganhar a dádiva de ser um menino de verdade. Sua missão aqui é simples e puramente trazer felicidade à vida de seu pai, Gepeto. E isso faz muito bem ao filme, pois renova o assunto central da trama para algo muito mais altruísta, que condiz com a condição de ingenuidade de Pinóquio, que é convencido a fazer o que não deve em prol do bem estar e aceitação de seu pai.

Outro ponto a se exaltar sobre Pinóquio, é a sua relação com a morte. A personagem tem nesse longa dilemas profundos em relação a fragilidade e efemeridade da vida humana, que vão para além da pura vontade de se viver. Em torno desse tema, o filme discute assuntos como a aceitação das inevitabilidades da vida, mas também abre espaço para falar sobre sacrifício, compaixão e identidade. Seja de forma literal, encarando a entidade Morte cara a cara, ou de forma subjetiva, Pinóquio discute constantemente o valor da vida e daqueles que têm o privilégio de viver.

A nova animação do Pinóquio é uma celebração à vida, em todo seu horror e beleza, decepção e fascínio. Uma história sobre inocência, e malícia. Um conto de ideologias, comportamentos e tons de contrastes violentos, que unidos formam uma belíssima e rica obra audiovisual.

Pinnochio é sensível, complexo e emocionante. Del Toro e Gustafson tinham uma missão difícil, mas o seu trabalho mostra que um projeto realizado com muito carinho não pode evitar senão resultar em uma obra linda. Pois é isso que Pinnochio é: um filme repleto de sentimento e vida, que transborda paixão por contar boas histórias.


Pinocchio
Pinóquio

ANO: 2022

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 2h 57min

REALIZAÇÃO: Guillermo del Toro, Mark Gustafson

ELENCO: Ewan McGregor, David Bradley, Gregory Mann, Tilda Swinton, Burn Gorman, Ron Perlman, John Torturro, Finn Wolfhard, Tim Blake Nelson, Cate Blanchett, Tilda Swinton, Christoph Waltz

+INFO: IMDb

Pinocchio

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