Revisualizando: Poetry – A poesia da vida

Há poucas coisas que me deixam mais incomodado do que a possibilidade de perder a capacidade de me recordar dos bons momentos, das boas pessoas e do bom que já vivi nesta vida. Nós somos o produto de todas as nossas experiências e se há algumas memórias que perdê-las até nos poderiam fazer mais felizes, ninguém gostaria de as perder se a isso estivesse também associado perder o que de bom já tivemos neste mundo. 

Poetry é Lee Chang-dong a mostrar que pertence à elite da elite. Contar-nos a impactante história de Mi-ja – a personagem principal – mostrando-nos os momentos a lidar com a chegada desta nova etapa da sua vida e os primeiros sinais de Alzheimer já seria digno de uma obra-prima. Afinal, nunca poderia ter existido uma melhor escolha de casting do que a de Yoon Jeong-hee – que, infelizmente, nos deixou no ano passado – que retira de cada uma das cenas todo o ar que por ali existe e toca-nos profundamente no coração com uma personagem que poderia ser a nossa avó, a nossa mãe ou mesmo nós próprios. Mas Chang-dong não se limita a isso neste história. Com carradas de referências a violência sexual, aproveita para fazer uso da sua palavra em filme para criticar de forma assertiva a forma como alguns homens – mais ou menos velhos – vêem o sexo ou, ainda de forma mais carregada, o bullying que aflige as escolas sul-coreanas que não se limitando à violência física também acrescenta a violência sexual com uma clara dinâmica machista a predominar desde cedo.

Quando não nos fala da doença, de memórias e de aceitação, nem sempre nos fala, ainda assim, de violência ou sexo. Por vezes, fala-nos de família. Da família a quem tudo vamos perdoando. Da família que de nós apenas se lembra quando precisa e quando, provavelmente, já será tarde demais. Envelhecer e não ter ao nosso lado as pessoas que amamos tem que ser algo muito doloroso. Imaginem acordar todos os dias e ver à vossa frente uma limitação temporal cada vez mais apertada, ao mesmo tempo que as pessoas que mais amam e a quem deram mais das vossas vidas não tiram tempo para vocês? 

No meio de tudo isto e de toda esta complexidade emocional, Poetry usa ainda grande parte do seu tempo para passar mensagens bonitas e para nos mostrar o prazer de viver. Através do recurso à poesia, há lindos ensinamentos que nos são passados até pelos mais inesperados protagonistas. A nossa personagem principal querer, ela própria, ainda aprender uma nova arte em tão avançada idade demonstra que há sempre algo a aprender nesta vida e que nunca é tarde para podermos perseguir os nossos sonhos. Também a forma como Mi-ja olha para tudo à sua volta, sejam elas pessoas,  crianças, o céu, as árvores ou até para uma simples fruta, diz muito do que ela sente, mas também diz muito do que todos nós estamos a perder. A nossa pressa em viver, a nossa pressa em querer mais, a nossa pressa em ter pressa faz com que não apreciemos tudo o que nos rodeia. É assim muito fácil entender que Lee Chang-dong quis, acima de tudo, dar-nos mais uma lição de vida.

Poetry é um filme brilhante e, por vezes, isso está claro nos seus pequenos momentos, nos seus pequenos detalhes. Está naquela breve cantoria da nossa protagonista principal quando pensa que ninguém a está a observar, recordando quem ela foi um dia. Está naquelas sessões noturnas de poesia, mais ou menos picantes. Está naquela dinâmica da protagonista principal com o doente que tem apenas um desejo final. Está naquela conversa com a mãe de uma jovem que perdeu a vida – conversa simples, subtil, mas dolorosa, até pelo que foi esquecido de ser dito. Está na marcante cena final da qual muito pode ser dito e nada direi, deixando aberto ao que dela queiram fazer.

Nunca optando por uma toada completamente pessimista ou completamente otimista, Lee Chang-dong criou uma obra-prima muito humana e reflexiva. Mais do que falar da jornada de alguém que tem que aceitar que até de si se irá esquecer, o cineasta coreano quis falar para todos nós. A vida vive-se no presente. Apreciem os bons momentos, aproveitem tudo o que está à vossa volta e aprendam a valorizar as relações humanas que são o que de mais belo podemos retirar deste mundo.

 

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