Ant-Man and the Wasp: Quantumania decepciona, apesar de Kang

Ant-Man and the Wasp: Quantumania (Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania) é o fim de uma trilogia. É também o início da fase cinco da Marvel nos cinemas, e, com isso, tem a missão de retomar a empolgação que boa parte dos fãs perderam com a fase anterior. Entretanto, a proposta mais importante do longa é a introdução do antagonista multiversal e multitemporal, Kang, o Conquistador, que virá a ser o grande vilão que enfrentará os Vingadores no futuro e causará dores de cabeça nos heróis de todo o universo Marvel dos cinemas e TV.

São muitas responsabilidades para um filme só. Mas será que Ant-Man and the Wasp: Quantumania realiza com sucesso tudo o que promete?

Infelizmente, não. Ao tentar ser muitas coisas, e aumentar o escopo da franquia, o novo capítulo de Scott Lang (Paul Rudd), alter ego do herói Homem-Formiga, e sua família, não balanceia bem seus temas, e acaba discutindo de forma insuficiente o que tem de mais valioso em seu núcleo, e que sempre destacou os filmes Ant-Man dos demais longas do MCU: as relações familiares.

No filme de estreia do herói no universo compartilhado Marvel, toda trama girava em torno da jornada de Scott para se tornar alguém do qual sua filha pudesse se orgulhar. As subtramas do filme também traziam a mesma temática, como o conflito de Hank Pym (Michael Douglas) e sua filha, Hope Van Dyne (Evangeline Lilly), que, junto da problemática central, eram desenvolvidas através da roupagem de filme de assalto.

Na sequência, Hope é estabelecida como uma heroína, a Vespa, toma lugar no título do filme e, assim, traz suas questões pessoais para o enredo central. Com isso, mais uma vez a série se volta para as relações familiares, encorpadas por uma trama que atrai a ação para as personagens principais e as ajuda a contar sua história.

Até aqui, havia harmonia no universo estabelecido no primeiro Ant-Man. Tínhamos, sim, grandes ameaças que poderiam extrapolar em grandes eventos a níveis de Vingadores. Porém, toda a ação extraordinária agia como uma ferramenta essencial para o desenvolvimento das personagens e suas relações. Já em Quantumania, as coisas se desequilibram um pouco.

Depois dos eventos dos últimos dois filmes dos Vingadores, a vida de Scott mudou da água para o vinho. Antes um ex-presidiário, agora um herói responsável por salvar a Terra, Lang tenta se adaptar a essa nova realidade, enquanto tenta se reaproximar de sua filha, Cassie (Kathryn Newton). Mas, ao apresentar ao pai um dispositivo quântico que criou com a ajuda de Hank Pym, Cassie acaba, por acidente, atraindo a si mesma, seu pai, Hope, Hank Pym e Janet Van Dyne (Michelle Pfeiffer), esposa de Hank e Vespa original, para dentro do reino quântico. Assim, a família se vê em uma jornada para voltar a seus lares. Mas, para isso, terão de enfrentar um novo e formidável vilão.

Com o aumento do escopo da ação em relação aos filmes anteriores, Quantumania me deixou com um pé atrás. A série Ant-Man sempre me encantou por apresentar filmes menores, mais contidos, que serviam como necessários respiros em meio aos grandes eventos do MCU. Tinha medo de a megalomania da narrativa engolir tudo o que funciona de melhor na franquia. E ela engoliu.

O filme começa bem, com uma introdução de Scott ao seu novo estilo de vida, a apresentação de seu atual status de relacionamento com Hope, e da dificuldade de se relacionar sua filha rebelde. Pois é nesse último conflito que mora o que havia de melhor a ser explorado por Quantumania. Scott passou cinco anos afastado de sua família. A menininha com quem convivia e mantinha uma relação saudável de companheirismo, agora é uma jovem totalmente diferente. Lang ainda vê sua filha como a doce menina de um tempo que perdeu para sempre.

A premissa é ótima, e tem um potencial grande a ser explorado. Entretanto, assim que o precoce evento os atrai para o universo quântico, toda a ideia de desenvolver o assunto se perde em meio a bizarrice microscópica. As personagens são jogadas à ação com muita pressa, sem que possamos nos envolver por inteiro com seus arcos narrativos, e, a partir do momento em que começam sua grande viagem subatômica, qualquer complexidade narrativa ou sentimental do elenco de protagonistas é resumida a uma premissa abordada de forma rasa, relembrada a todo tempo por diálogos simplórios e bestas que impedem qualquer uso de subtextos e sugestões no filme.

Mas nem tudo funciona mal na jornada quântica de Quantumania. Apesar de achar que em alguns momentos o filme exagere na aleatoriedade e estranheza do microuniverso, mirando no excitante desconhecido e acertando na esquisitice desnecessária e sem sentido, o universo quântico tem seu charme e te convida a explorar cada canto de sua infinidade. Quantumania é uma explosão de diferentes cores, formas e texturas que só não empolgam mais pois, por vezes, o filme sofre com CGI mal finalizado. Os efeitos visuais tem sido um grande defeito nas atuais produções da Marvel, mas, pelo menos, aqui não senti tanto incômodo como em filmes anteriores. Há, com certeza, algumas quebras de imersão causadas pelo CGI falho aqui ou acolá, mas a aventura de Scott e sua família é engajante o suficiente para te manter minimamente interessado até o encerramento do longa.

A comédia, importante elemento dos filmes do Homem-Formiga, não é tão eficiente como nos seus dois filmes antecessores. Quando envolve as personagens já estabelecidas pela franquia, o humor funciona minimamente bem, roubando algumas sinceras risadas vez ou outra. Agora, quando se trata das personagens novas, a história muda. Todas as piadas parecem muito forçadas e fora de timing, sem sentido e sem função nenhuma na narrativa além de aborrecer o público. Existe, porém, uma nova personagem cujo carga humorística funciona bem em maior parte do seu tempo em tela: MODOK.

MODOK é um clássico vilão dos quadrinhos Marvel. Essa grande ameaça das revistas, em Quantumania, é apresentada como um alívio cômico flutuante. Eu entendo que levar uma cabeça voadora gigante a sério seja difícil em uma adaptação live-action, por isso compreendo o que fazem com ele no filme. Toda obsessão, instabilidade e insegurança da personagem são justificáveis e tornam tarefa fácil rir de sua desgraça e bizarrice. Lamento, entretanto, como decidem concluir seu arco. Ao final, MODOK se torna apenas uma personagem exageradamente boba e non sense, quase infantil.

Mas essa falha no desenvolvimento e tom de personagem não se restringe apenas a MODOK.

Hope, que tem seu alter ego heróico dividindo espaço no título do filme, pouco serve mais do que para atirar completamente desprotegida contra guardas mal treinados que não acertam sequer um tiro em seus alvos, e ajudar Scott quando esse precisa de suporte.

Janet faz o insuportável esteriótipo de personagem que sabe demais, mas não compartilha de seus conhecimentos quando conveniente pelo simples motivo de que deve fazê-lo apenas quando o argumento precisar.

Hank, o cientista genial e Homem-Formiga original, passa boa parte do filme falando obviedades ou tiradas cômicas bobas, para só no ato final demonstrar alguma importância significativa.

E quanto à Cassie e Scott, ambos funcionam melhor que o resto do elenco. Sim, toda a trama principal que os envolve é subdesenvolvida, mas suas ações em tela são sempre relevantes ao filme e condizentes com suas personagens. Vemos pouco do que a relação entre os dois prometia, mas esse pouco funciona – apesar da fraca interpretação da atriz de Cassie.

Mas, antes de partir para a melhor coisa que Quantumania tem a presentar, devo ressaltar algo que muito me aborreceu durante o filme. Como já deixei claro ao citar o arquétipo em que Janet se encaixa e os tiroteios sem sentido, Quantumania está cheio de clichés. Não sou completamente contra o uso desta ferramenta, desde que seja usada de forma sutil ou maneirada. Mas isso aqui é um festival de clichés! Temos combate violento que acaba sendo revelado como cumprimento de amizade, DIVERSAS cenas de personagens libertando-se sem qualquer esforço e das maneiras mais genéricas possíveis de guardas inúteis, e muito mais. O argumento e realização de Quantumania deixam bem claro de que se sabia onde as personagens deveriam estar, para onde elas deveriam ir, e quem elas deveriam apresentar para a audiência no processo. Quanto ao que ocorreria entre esses eventos, nada se sabia e poucos foram os esforços para fazer disso algo com real substância.

Mas quem é essa tal personagem que Quantumania tanto quer nos presentar? Bem, estamos falando da grande promessa de ameaça do MCU: Kang!

Kang (Jonathan Majors), o Conquistador, é de longe a melhor coisa de Ant-Man and the Wasp: Quantumania. Majors é um excelente ator, e traz muito peso para o antagonista. Totalmente destoante de qualquer ameaça boba do filme, Kang tem presença, impondo muito respeito e demonstrando verdadeiro perigo para todos que ousam cruzar seu caminho. E, mesmo sendo mal aproveitado no terço final do longa, o vilão protagoniza a melhor e mais intensa cena de ação de todo o filme e, por mais que tenha um desfecho decepcionante, mantém com êxito o clima de constante perigo que a personagem exala. O grande trunfo de Kang é que ele é uma personagem que viaja por entre o espaço tempo constantemente e, por isso, conta com milhares de variantes extradimensionais que podem e devem apresentar ameaças a qualquer momento.

Mas o filme deve ser percebido a partir do que apresenta em sua duração total, e não no que promete para o futuro. E o que Ant-Man and the Wasp: Quantumania tem para mostrar é, infelizmente, decepcionante. O encerramento da trilogia de Scott Lang e sua família tenta ser demais, quando deveria ser menos, e faz pouco com o que deveria explorar a fundo. Entretanto, o filme conta com uma aventura leve e descontraída que cumpre com o mínimo: entreter. Quantumania está muito aquém do que poderia ser, e perde bastante em qualidade em relação aos seus dois filmes anteriores, todavia, não chega a ser ofensivo, morrendo na mediocridade.


Ant-Man and the Wasp: Quantumania
Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania

ANO: 2022

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 2h 5min

REALIZAÇÃO: Peyton Reed

ELENCO: Paul Rudd, Evangeline Lilly, Michael Douglas, Michelle Pfeiffer, Kathryn Newton

+INFO: IMDb

Ant-Man and the Wasp: Quantumania

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1 Comment

  1. Esqueceu de citar a atmosfera de Star Wars, presente em todo o filme. Roupas, desertos, veículos, o bar, e até Kang. Só faltaram os sabres de luz. TB nem vou falar da cena copiada de John Carter entre dois mundos.
    Nem vou comentar COMO as formigas deixaram o Kang escapar
    O pior mesmo é Kang, o maior gênio do multiverso, q copia QQ tecnologia (seu “poder” é essencialmente esse), passar a vida sem saber copiar (ou roubar!) a tecnologia da vespa original, tendo passado tanto tempo com ela. Buraco negro no roteiro. Chega a ser ridículo.

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