Reminiscence (ou a lembrança de como não se faz uma açorda)

Lisa Joy tem muita ambição onde abocanha escrever, produzir e realizar o seu primeiro filme. Há muita promessa, mas faltou a entrega. No meio da confusão, deve ter-se esquecido…

Nos primeiros quarenta minutos desta longa-metragem de pouco menos de duas horas (como tem sido forte apanágio de Hollywood e como factor que considero o mais prejudicial para a danosa classificação que tenho para dar) fica logo estabelecido que vou assistir a uma açorda, tal foi o despejo abrupto de ingredientes com que me deparei e onde, na minha cabeça, já estava a vender de barato um enredo previsível com um desenvolvimento e desfecho exasperantes. Não errei por muito…

Nunca foi perceptível se estava num thriller sci-fi, se estava num reconto evocativo de um drama criminal com laivos de film noir (onde o detective privado reservado e amargurado é abordado pela femme fatale), se estava numa trama de conspiração num mundo em decadência ou se estava num romance e só apaziguei a mente inquieta quando encontrei paz ao pensar em açorda.

Onde poderá ser entendido que todos os elementos que mencionei acima não tomaram preponderância por vista à homogeneidade nessa amálgama tentada, só pensei que esta açorda teve uma criminosa ausência de ovo para ligar os restantes ingredientes e tornaria o prato final suave e consistentemente cremoso.

Este filme podia facilmente ter contado tudo o que faria dele verdadeiramente interessante se se estendesse por sóbrias duas horas e quarenta e cinco minutos ou até, querendo espremer a fruta até o sumo ser pura invenção, partindo-o por duas partes. Os estúdios apostaram q.b. em Joy e a açorda saiu a saber a pato.

O pão saloio que se utilizou para o corpo da açorda, ou o mundo criado para pano de fundo das acções, foi vendido como promissor e bem levedado porém cheio de ar no miolo e sem se saber de que padaria veio, ou seja, foi pauperrimamente explicado quando se mostrou revigorante e bem proposto nesta visão pós-apocalíptica de uns Estados Unidos assolados pelo aquecimento global e que nunca se valoriza sobre como e porque está e como ficou assim. Só isto dava para um spin-off interessante.

A cabeça de alho estava cheia de rama e os dentes todos ressequidos e sem sucos nenhuns, claramente esquecida no frigorífico, o que condena a açorda à falta de um travo forte que active os outros sentidos pelo paladar, ou seja, os efeitos especiais têm falhas flagrantes onde o computador de 7500 euros foi mal utilizado e onde aponto novamente o dedo à preguiça em usar efeitos práticos num filme que passaria bem com eles e provavelmente pouparia dinheiro. Há que pôr os olhos em “Boss Level” por favor! Há lá CGI, mas há requinte e doseamento apenas para emendar coisas que os efeitos práticos não conseguem, apenas para polimento da matéria bruta inconfundível em qualidade!

O enredo tem tanta promessa… Os conceitos têm tão boa utilização… O elenco trabalha tão bem com a história e interacções mútuas… As personagens têm histórias contundentes e o que as une é forte… O enredo tem muitos buracos. Os conceitos têm fragmentos ocos que os expõem. O elenco nunca é desafiado. As personagens são revoltantemente pouco exploradas. Isto é o azeite que queimou os coentros, isto é a água que não foi bem espremida do pão que estava de molho, isto é o Knorr que salgou esta açorda toda.

“Reminiscence” esvanece-se da minha memória com 2 estrelas. É uma açorda onde se vai riscando cada passo da receita, mas o que no fim ficou premente a inexperiência de Lisa Joy com a acumulação de tanta tarefa. Há competência em delegar.


Reminiscence
Reminiscência

ANO: 2021

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 116 min.

REALIZAÇÃO: Lisa Joy

ELENCO: Hugh Jackman, Rebecca Ferguson Thandiwe Newton

+INFO: IMDb

Reminiscence

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