Revisualizando: Eternal Sunshine of the Spotless Mind (ou o presente envenenado em apagar sonhos tornados pesadelos)

Numa relação falhada, quem não pagaria por simplesmente apagar a existência do seu par, para prevenir a dor? Eu sei que pagaria.

Amar é tão simples que se torna complexo, dadas as portas que abre para com todos os fenómenos físicos, psicológicos, racionais e emocionais.

Até agora se reflecte sobre amor. Até agora se expressa sobre amor.

Até agora se aprende e se ensina sobre amor. Até agora se ama, se odeia amar pelo dissabor que é o pós-amor.

Esse dissabor que é uma ressaca tão duradoura quanto o desmame do que não se queria largar, porque amar confunde tudo depois de aparentar fazer sentido de tudo. Amar tolda o julgamento quando deixa de ser a endorfina ou dopamina que clarifica tudo de repente e galvaniza o âmago do ser a potenciá-lo a conquistar o mundo. Amar cria habituação depois de criar vício em amar e sentir-se amado. Amar é tramado depois de ser muito bom.

Jim Carrey é Joel Barish que, após terminar a sua relação com Kate Winslet na pele de Clementine Kruczynski, descobre que esta recorre a um serviço que “apaga da mente” a existência de Joel. Este, sentindo-se despeitado, decide recorrer ao mesmo serviço, para poder avançar com a sua vida. Esta premissa por si só chega e sobra para ver este filme e apreciar a narrativa, a aplicação técnica dos efeitos especiais e, acima destes, o desempenho assombroso de Carrey.

Este deverá ser o filme que melhor desconstrói as dinâmicas transversais de uma relação, com um bom senso de objectividade, frieza, lógica (se é que se pode aplicar lógica ao envolvimento ou término abrupto desse, entre seres humanos que num dia se juraram de tudo e todas as coisas para noutro conseguirem até odiar-se mutuamente) sem abusar do que típicos filmes românticos masturbaram até à “goticular” exaustão, tais como o profético final feliz ou as curvas e contracurvas de arcos inconsequentes que não remetem a lições, mudanças, responsabilização ou contrição.

Clementine é intensa mas insegura. Joel é reservado mas ansioso. Isto funciona bem como se de uma moamba de choco se tratasse, até ser impossível evitar por mais tempo a constatação, com coitos exercidos, promessas feitas, prendas oferecidas, carícias trocadas e discussões de questiúnculas afagadas com pazes feitas e juras de melhoras, de que entretanto não dá mais. Choco não pertence a moamba, mas poderia. Porque não? Porquê a teimosia dos dogmas? Porquê a procura da solução banal? A resposta não é absoluta mas é a minha resposta: porque o desgaste de tentar que choco se adapte a moamba e vice-versa, encarando este processo como venda do próprio ser em vez de voluntariado em prol da relação, é abrasivo, corrosivo, torna-se nocivo e em última instância, indigesto.

Choco poderia pertencer a salada tal como moamba poderia pertencer a galinha e ambos serem servidos na mesma refeição, com porções iguais, diferentes, conforme a fome ou o dia, em comum acordo mas é tremendamente revoltante que o fim seja o desfecho absoluto para o que poderia ser tratado. Sobra sempre a escolha entre a culpabilização de poder ter sido feito mais e o apontar de dedo indiscriminado ao outro.

Oh, parcos seres humanos orgulhosos das suas falhas que chamamos de personalidade e fraca vontade em mudar para melhor que chamamos de auto-amor… “O Despertar da Mente” não poderia ser maior antítese que, para variar, até faz sentido neste título de filme. A mente desperta no filme para Joel e Clementine. A mente desperta para o facto de que dor não só faz parte como dor é necessária.

A dor de crescimento não é só algo fisiológico e físico que alguns de nós poderemos ter vivido na nossa puberdade. A dor de crescimento é emocional quando a vida não nos corre de feição. Por muita ou pouca vontade que tenhamos em que simplesmente tudo acabe, ou nos comiseremos do porquê de estarmos a ser alvo disto ou daquilo, ou odiemos a outra pessoa por nos ter feito isto ou aquilo, a dor é a áspera constante de que já não somos crianças. Que não podemos começar por aprender sobre nós, outros ou o Mundo a partir do 0. O nosso disco-rígido não pode ser formatado. Precisa ser desfragmentado. O bloco que faz de nós quem somos tem de ser desconstruído e esse processo de demolição cirúrgica dói. Claro que dói. Tem de doer. Não sabe bem mas faz bem. Não deveria ser preciso mas é preciso.

Michel Gondry realizou e co-escreveu este filme. Entregou uma peça de cinema de 108 minutos e permitiu a degustação leve de um tema pesado quando o vivemos, mas banal porque toda a gente já o viveu, vive ou irá viver. O tema tem tantas camadas como aquelas que o filme explorou e não deixou de abordar. Eternal Sunshine of the Spotless Mind fala de facto do nascer do sol perante uma mente vazia, na melhor metáfora sobre amor e seus ramos que já vi.

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