Road House (ou o desenrolo audiovisual da arte com preço)

Um remake pode ser uma reinterpretação do que se baseia na peça original ou uma modernização dessa peça.

Este fumegante fecal produto de Doug Liman podia ter sido um ou outro remake. Tinha tudo aqui em tese e possibilidade. Mas optou por ser prostituição sem vulva explícita por duas horas e 95M$ de orçamento. Um coito demasiado caro, desavergonhado e deprimente, desoladoramente hilariante.

Jake Gyllenhaal poderá ter sido tão enganado quanto eu, ou então quis apenas fazer uma versão divertida de Southpaw. De qualquer das formas, definitivamente ele não é o que de mau tem o filme, apesar de ser contribuinte e integrante do que de mau tem o filme.

Conor McGregor como psicopata e alívio cómico funcionou. Como é expectavelmente um mau actor, fora-lhe indicado que se interpretasse a si em modo “promoção de lutas”.

Todo e qualquer restante membro do elenco é simplesmente assalariado e não se destaca em nada. Até o eterno vilão Joaquim de Almeida e até a amplamente empurrada como novo talento Daniela Melchior.

Ri-me mais do que queria e do suposto proposto pelas falhas flagrantes e claramente indiferentes desta coisa. Mas só me ri depois de ultrapassar a frustração inicial de estar a assistir a uma subversão da essência artística em detrimento de publicitar coisas e pessoas. Post Malone é a primeira publicidade. UFC é a outra publicidade. Todos os artistas que actuam no bar The Road House são os seus respectivos anúncios. Note-se nunca olvidar que este filme é produzido de e para a Amazon, que também se quer tornar num grande player da indústria musical.

Elwood Dalton (Gyllenhaal) foi a primeira gargalhada frustrada. O lixo fonético e esquecível deste nome remete a que nem se queira chamar o tipo de Elwood ou Dalton. Fica sempre mais fácil mencioná-lo como ‘o gajo que luta’.

Isto porque, por sua vez, tenho a forte impressão de a ampla maioria das falas ter sido re-gravada em pós-produção, como se de um cgi auditivo se tratasse. A mixagem é deficiente neste quesito e é uma falha continuada de ponta a ponta do filme.

A trama principal (há um bar que é atormentado por comportamentos degenerados e delinquentes precisa de ajuda a resolver o problema) é trincada com dentada de crocodilo pela ulterior necessidade de esse bar ser um empecilho a uma obra imobiliária.

Há um sub-enredo muito interessante que poderia ser genuinamente explorado sobre o passado de Dalton e o que o torna como é, ou explica quem é, apenas pincelado, mas que, tal como a batata-palha do parágrafo anterior, é maltratado, desrespeitado, atravancado e afunilado a apenas “sou um tipo irascível que fiz algo por ter ficado muito fulo”.

Há mais planos de “herói da Marvel sem camisa” que o necessário. Um dos traços altamente charmosos de Dalton de Patrick Swayze é o recato, metodismo e controlo. Seria interessante preservar estes traços de personalidade para este Dalton, mesmo sendo virtualmente uma pessoa diferente. Entendo que o que nos foi mostrado de quem é, ancora isso tranquilamente.

As coreografias de luta são estragadas pela edição. Como se de um produto filmado se tratasse em vez de arte audiovisual, dei por mim a assistir a planos e cortes de videoclipe.

Com um multicampeão de mma a co-protagonizar o filme, custava muito terem-no consultado para rever os takes que escolheram utilizar para as sequências de troca de golpes de BJJ, por exemplo?

Ou todos sabem que ele foi completamente atropelado pelo melhor wrestler de sempre do UFC com precisamente o mata-leão que lhe-é aplicado num hilariante erro de raccord que muito provavelmente irá passar despercebido ao comum espectador?

Não obstante, Conor sem a remota pinga de experiência ou talento para representar e Gyllenhaal com todos os créditos firmados na área, tentam genuinamente fazer omeletes sem ovos.

O que mais me irritou nuclearmente é o pretensiosismo num filme que não foi feito seriamente, sobre uma peça original que foi bem obtida a ser profissional ao não se ter levado a sério.


Road House
Road House

ANO: 2024

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 121 min.

REALIZAÇÃO: Doug Liman

ELENCO: Jake Gyllenhaal, Doug Liman, Daniela Melchior

+INFO: IMDb

Road House

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