A voz primitiva e gutural de Saint Omer

Incômodo, desconfortável e desgastante. Saint Omer é um filme sobre as mais íntimas ansiedades e dores femininas. Complexas relações maternais sustentadas por inevitáveis laços sanguíneos e espirituais; a ingrata solidão da mulher desamparada em seu momento de maior fragilidade física e emocional; o imensurável fardo de ser o ventre da humanidade e, por isso, ser considerada a origem de todo o pecado que se deriva dela.

Saint Omer pesa e sufoca. O filme acompanha Rama (Kayije Kagame), uma romancista que assiste às audições do julgamento de Laurence Coly (Guslagie Malanda), ré confessa de cometer infanticídio à própria filha, no intuito de escrever sobre o caso em uma adaptação do mito de Medéia. O objeto de estudo de Rama é extremamente indigesto, e a realização de Alice Diop, que também co-escreve o argumento, entende que esta história pede majoritariamente sobriedade artística. Saint Omer não tem pressa alguma em dizer o que precisa dizer, e estende o quanto for necessário suas cenas de maior tensão e ansiedade para extrair se suas personagens e ambientes as mais genuínas intenções e atmosferas possíveis.

Saint Omer é quieto, mas seu silêncio se faz angustiantemente ensurdecedor. Diop cria uma atmosfera ansiosa orquestrada por sons intra diegéticos que preenchem o vazio sonoro com ruídos ambientes nervosos e constantes. Rama não passa pela fase mais estável de sua vida, e todo o trabalho de som pensado para Saint Omer traduz com perfeição essa instabilidade, que tira seu foco e mantém sua cabeça em cada canto de qualquer lugar que se faz presente, inclusive dentro de si mesma.

Mas, como disse, o filme é majoritariamente sóbrio, não totalmente. Os depoimentos da ré Laurence são extremamente fortes e doloridos, capazes de gerar choque e comoção com a mesma intensidade. Os relatos dela impactam a já instável situação emocional de Rama, que inevitavelmente se conecta com a ré, seja por identificação, ou sororidade. Tal relação sensorial/emocional transcende lógicas racionais, e leva Rama a transes emocionais demarcados por hipnotizantes músicas inteiramente compostas por vozes femininas, primitivas e guturais. Uma solução artística de arrepiar, que nos aproxima de suas personagens e toda sua intensidade.

Alice Diop vai fundo no que há de mais particular e dolorido em suas mulheres, e o faz sem precisar dizer muito, pois nos faz sentir parte do que elas sofrem internamente. Uma abordagem sensível, de admiráveis primor e elegância.

Saint Omer não é fácil, e nem deveria ser. É cansativo, e se estende em seus vazios e silêncios pois é isso que sua indigesta trama pede. Uma obra avassaladora que encanta enquanto fere. Um imperdível choque sensorial e primitivo.


Saint Omer
Saint Omer

ANO: 2022

PAÍS: França

DURAÇÃO: 2h 2min

REALIZAÇÃO: Alice Diop

ELENCO: Kayije Kagame, Guslagie Malanda, Valérie Dréville

+INFO: IMDb

Saint Omer

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