Scrapper (ou a ambição da qualidade sobre o egoísmo da pretensão)

Ainda é possível fazer filmes sobre pessoas, para pessoas, que nos tocam a múltiplos níveis como pessoas.

E não me-é possível traçar a comparação entre as produções com que tropecei da BBC Films e os clássicos produzidos pela Canal+

Here Before já me tinha deixado completamente chocado pela surpresa do quanto se pode fazer sem uma enorme aspiração lucrativa, mas com ainda mais inchada e premente inspiração artística.

Agora aparece Scrapper que consegue fazer de forma indelével o que se propôs a fazer: tratar de um tema difícil como mono-parentalidade.

O humor é usado na narrativa e na edição para aliviar a carga pesada da premissa.

A premissa é apresentada pela demonstração e não pelo diálogo expositivo.

A demonstração e desdobração quer da premissa, enredo e personagens é mais mostrada que dita, o que por si só já complica um filme aparentemente simples, mas, bem feito, destaca a qualidade dos intervenientes ao contar esta história.

Aqui não há brilhantismo de ponta a ponta, mas há uma inquietante vontade em fazer as coisas bem.

Não se confunda muita vontade com pouco acerto. Entenda-se antes muita vontade com muito acerto, mas sem flagrante matéria-prima.

A saber:

– filmografia não necessita de profundidade ou vastidão para ser atingida ou almejada excelência. Basta captar emoções ou conceber interpretações com a imagem, seja nas sequências, seja nos planos fixos. Feito e feito.

– a representação não precisa ser “ultra-método” ou de escolhas de trejeitos ou entregas de falas ao nível obstinado e comprovado de experiência e transfiguração de corpo e alma dos actores. Basta emitir com o dito e, mais difícil e potencialmente despercebido, não-dito. Feito e feito.

– o som não necessita ser o fio-condutor ou a base pretensiosa de uma história em filme para se fazer sentir ou fazer sentir mais a metragem. Basta que eleve ao expoente do que a história e/ou filme precisem para que, novamente, a história ou filme se façam sentir e entender. Caramba, até silêncio e som ambiente envolvente, equalizados e polvilhados são artimanhas para que SOM, sonografia, banda-sonora, o que se quiser chamar, sejam os sinais de pontuação de uma narrativa que passe do papel para a tela pela via da filmagem e actores para fazer acontecer o filme. Feito e feito.

O tom de Scrapper é de uma leveza de nuvem com momentos de trovoada que irrompem a anunciar os murros no estômago que só nós espectadores escolhemos tombar perante esse KO técnico, dependendo de como estamos, quem somos e como nos vemos e ao mundo pela lente e caneta de Charlotte Regan.


Scrapper
Scrapper

ANO: 2023

PAÍS: Reino Unido

DURAÇÃO: 84 min.

REALIZAÇÃO: Charlotte Regan

ELENCO: Lola Campbell, Alin Uzun, Harris Dickinson

+INFO: IMDb

Scrapper

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