Esqueça o hate! She-Hulk é a série mais consistente da Marvel!

Mesmo os mais entusiastas das séries Marvel devem admitir que o padrão de qualidade dos originais da Disney+ não é exatamente satisfatório. Até então o saldo é positivo, mas mesmo os melhores programas da produtora não escapam de problemas pontuais, como o que há de comum entre a maioria deles: a dificuldade de entender e se adequar ao formato televisivo. De um modo geral, os seriados Marvel mais parecem longas-metragens de seis horas parcelados em episódios, muitas vezes, insuficientes e repletos de desfechos abruptos. 

Kevin Feige, presidente da Marvel Studios, já demonstrou confiança sobre o formato cinematográfico apresentado por suas produções televisivas em entrevistas feitas no passado. Não é preciso pensar muito para entender a postura de Feige em relação a isso, basta olhar para o trabalho dele até aqui. Sua carreira foi consolidada pelas obras que produziu para o cinema, logo, a decisão de trazer a mesma abordagem estrutural para as séries de TV se faz entender como a mais óbvia e segura. Porém, já passou da hora da produtora perceber que o óbvio e seguro deixou de ser um aliado, e passou a ser uma âncora, que, no cinema, impede os filmes de alcançarem todo seu potencial, e agora, na TV, nega às séries sua própria identidade.

É claro que, como já disse na minha crítica de Werewolf by Night, a Marvel tem se permitido ousar um pouco mais em suas produções para o streaming. Mas ainda faltava, até então, a coragem para se desprender de vez destas amarras criadas pela famigerada “fórmula Marvel“. 

Assim, se o padrão das produções seguirem o exemplo da mais recente aposta da Marvel para o streaming, She-Hulk: Attorney at Law (She-Hulk: A Advogada), esse paradigma pode mudar. She-Hulk (ou Mulher-Hulk, para os leitores brasileiros) é, de longe, a série mais consistente da Marvel. E, o mais importante: é uma série com cara de série.

Desde o primeiro episódio, Jennifer Walters (Tatiana Maslany), alter ego da heroína She-Hulk, insiste em afirmar ao público, em seus momentos de quebra da quarta parede, que sua série é um programa sobre advocacia, e não sobre super-heroísmo e eventos grandiosos. É claro que isso não é exatamente verdade, pois estamos falando de um produto Marvel, do qual é imprescindível a presença de cenas de ação e porradaria. Mas o que Jennifer realmente quer dizer com seu discurso é que, por mais que ela seja uma personagem fantástica inserida em um universo incrível, sua série está livre de grandes pretensões, e tem como objetivo central explorar o desenvolvimento pessoal e profissional de sua protagonista.

Outra mensagem que o primeiro episódio traz, é a de que She-Hulk é, acima de tudo, uma comédia. O bom humor se faz presente em todos os momentos da série, sem nunca parecer forçado ou ser utilizado para aliviar a tensão da narrativa. She-Hulk é uma comédia por essência, e não tenta ser nada além disso. E talvez seja essa a principal vantagem da série em relação às produções anteriores da Marvel, e que faz de She-Hulk um produto tão agradável. A série entende muito bem o que é, e se propõe a deixar isso bem claro para seu público.

She-Hulk tem nove episódios que duram em torno de meia hora. Simples, dinâmica e leve, conduz a quem assiste com muito carisma, por uma trama episódica de narrativas concisas e satisfatórias, mas, ainda assim, englobadas por um enredo maior que interliga tudo o que envolve o universo de Jennifer. She-Hulk é fácil de se assistir, e seu humor bobo é gostoso de se acompanhar.

Diferente das outras séries da Marvel Studios, She-Hulk mantém sua qualidade em todos os episódios de sua primeira temporada. Claro que existem alguns mais fracos que outros, mas mesmo esses não deixam de agradar com seu arrebatador carisma. E isso não poderia ser diferente, com Tatiana Maslany liderando o ótimo elenco do seriado. Maslany está perfeita em seu papel como a enorme heroína/advogada esmeralda. Com sua energia contagiante, e riquíssima expressão facial e corporal, a atriz transita bem entre o cômico e o comovente, acertando em cheio em uma Jennifer Walters que é, perdoem-me pela repetição, puro carisma.

Mas, infelizmente, não tenho apenas elogios para fazer a essa série. É preciso ressaltar um dos grandes inimigos da produção, que não se trata de um super-vilão, mas sim dos efeitos visuais apresentados pelo seriado. She-Hulk tem como protagonista uma mulher verde gigante que combate seus inimigos usando sua super força. Para uma série com essa proposta, é importantíssimo que os efeitos visuais sejam convincentes, pois o que está sendo animado digitalmente é nada menos que o centro de todas as atenções da produção.

Não é sempre que o cgi deixa a desejar. Em alguns episódios, She-Hulk convence com texturas realistas que garantem veracidade a sua imagem e peso a sua presença. Bruce Banner (Mark Ruffalo), o clássico herói Hulk, primo de Jennifer, também agrada com seu visual hiper-realista, o melhor de todo o show. Porém, na maioria das vezes em que Jennifer aparece transformada, a estranheza toma conta da tela. Talvez, por Hulk herdar um modelo já pronto das produções cinematográficas, seja injusto comparar o visual das duas personagens, mas, sem dúvidas, a diferença entre ambas é gritante. Enquanto Hulk exibe expressões faciais impressionantes e ricas em nuances, o modelo de Jennifer parece sofrer muito para fazer jus à expressividade já elogiada de Tatiana Maslany

O problema com o cgi é notável, sim, mas não chega a ser um fator que interfere no proveito do entretenimento que a série proporciona. Todavia, She-Hulk: Attorney at Law se trata de um produto audiovisual, e nós, espectadores, somos os consumidores desta obra. Logo, é importante ressaltar tais frustrações e insatisfações com o produto final apresentado, principalmente em tempos de recorrentes denúncias de más condições de trabalho, relatadas por profissionais de efeitos especiais que trabalharam com a Marvel Studios. Tais denúncias trazem à tona um enorme descaso, não só do estúdio com os profissionais do cgi, mas para com todo o público que acompanha seu trabalho.

Entretanto, como citei há pouco, o cgi é UM dos vilões de She-Hulk. Outro grande problema que a série enfrenta é a chuva de negatividade vinda de grande parte do seu público. Não me entenda mal, não menosprezo a recepção negativa por discordar da opinião do público, mas sim por tais críticas se basearem em puro preconceito e conservadorismo dos fãs, e não em aspectos negativos da produção.

Não quero me prolongar muito acerca desta discussão, pois o assunto me aborrece muito. Mas é extremamente cansativo ver, a todo momento, produções protagonizadas por personagens femininas serem alvo de ódio pelo simples fato de terem mulheres no centro das atenções. 

O que? O ciclo vicioso de críticas repetitivas e sem critério empregadas a TODAS produções lideradas por mulheres não é o suficiente para que acredite que tudo isso é infundado e originado de pura estupidez? Então, tome como exemplo um evento ridículo que pude observar em torno da recepção do oitavo episódio da série, em que o adorado personagem Daredevil (ou Demolidor) é oficializado no MCU, e confirma o retorno de Charlie Cox na pele do advogado vigilante:

A única coisa boa em toda a série

 

Haha! Demolidor tá incrível nesse episódio, mas o show continua uma merda..”

 

Este episódio foi realmente bom. Ponham ele em todos episódios. Depois tire ela e adicione o Justiceiro. Depois mude para a Netflix.

 

Foi o único episódio que gostei até agora. Este show inteiro tem sido sem graça para mim

 

Este episódio foi ótimo. Mas o show em si é objetivamente terrível. Não vamos nos enganar aqui.

 

 

Assim como os comentários apresentados acima, houveram diversos semelhantes. Um ótimo exemplo da hipocrisia e estupidez do público machista e misógino que acompanha as produções Marvel. O oitavo episódio, chamado Ribbit and Rip It, em nada se difere dos demais da série. O tom é o mesmo, a realização é a mesma, a qualidade é a mesma. A única diferença entre esse, e os demais episódios, é a presença de Daredevil, e o breve destaque que a personagem tem em relação às cenas de ação. Apenas isso foi necessário para que uma parcela dos detratores de She-Hulk elogiassem a série. A adição de um herói masculino que toma as atenções para si por alguns momentos. É foda!

Felizmente, mais foda que isso, é a sagacidade dos showrunners de She-Hulk em usar todo o ódio dos haters a seu favor. She-Hulk não é sútil ao criticar o machismo com seu texto, e muitas vezes exagera na exposição da problemática, mas é notável a acidez utilizada pela equipe da produção para criticar e ridicularizar tais comportamentos. Seja com a apresentação de personagens toscas, que funcionam como paródias (ou mesmo retratos fiéis de seres reais que se portam como tal) de conservadores, ou o uso de comentários reais de haters, feitos em materiais de divulgação da série, She-Hulk não hesita em provar para quem odeia sua existência, que qualquer demonstração de ódio só a fortalece mais.

E, por falar em força, não é possível comentar She-Hulk sem ressaltar o surpreendente final de temporada da série. Em seu último episódio, a série impacta com imensas ousadia e criatividade.

Algo que acompanha She-Hulk desde o início, e com isso falo, inclusive, de sua origem dos quadrinhos, é a quebra da quarta parede. Assim como nos gibis, Jennifer conversa com o público a todo momento, e demonstra estar ciente de fazer parte de uma produção de uma super franquia milionária. Porém, por mais vacinados que possamos estar depois de oito episódios de intimidade com a protagonista, não era concebível que She-Hulk fosse arriscar tanto com um texto tão metalinguístico! Não ouso discutir isso a fundo, pois quero evitar spoilers para quem ainda não conferiu o seriado, mas o que essa série faz é de uma ousadia que considerava, até então, inviável em uma produção Marvel. Em seu nono episódio, She-Hulk traz à tona, através de seu argumento meta, diversas críticas e comentários irônicos em relação ao método de produção do Universo Cinematográfico Marvel. Sobra até mesmo espaço para falar dos problemas do estúdio com o cgi!

O impacto que esse encerramento causa é forte, e a esperança de que a Marvel Studios esteja ouvindo às críticas que vem recebendo é animadora. Basta esperarmos para ver se haverá mudanças no modus operandi da produtora no futuro. Caso haja, o season finale de She-Hulk ficará marcado para sempre como um dos pontos altos de todo MCU. Um verdadeiro divisor de águas. Caso não haja, esse episódio ficará conhecido como apenas uma piada ofensiva, de muito mal gosto. Torçamos, então, para que se trate do primeiro caso.


She-Hulk: Attorney at Law
She-Hulk: A Advogada

ANO: 2022

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 9 episódios

REALIZAÇÃO: Kat Coiro, Anu Valia

ELENCO: Tatiana Maslany, Ginger Gonzaga, Jameela Jamil, Chalie Cox, Mark Ruffalo

+INFO: IMDb

She-Hulk: Attorney at Law

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3 Comments

  1. Antes de mais, bom dia!
    Permita-me discordar de alguns pontos.
    A série vende-se como uma série de advocacia: Onde está seriedade dessa área?
    Pessoalmente acho que uma série de comédia não precisa de estar sempre a chafurdar na lama de piada. Os momentos sérios dariam bem mais impulso ao riso nas horas em que há piada. Agora dizer que o público que não gostou é machista, misógino e etc… acho exagerado, embora concorde que muito do publico tenha realmente esse tipo de preconceito.
    A falta de profundidade dos personagens masculinos foi algo que me fez uma certa comichão mas, graças à sua critica (que desde já agradeço), percebi que foi proposital.
    O CGI também me incomodou um pouco, mas é o que é. Eles poderiam ter feito bem melhor.
    O design do Skaar foi ridiculo. Era suposto, seguindo a linha das BD’s, ele ser o Conan da Marvel, era esperado uma outra aparencia, uma outra abordagem. Este Skaar ficou parecido com um samurai com calvície.
    Mas seria de esperar que uma série que transmite o minimo de comédia, o minimo de emoção, iria ter uma avaliação extrapolada pela critica no geral, depois de uma sucessão de decepções com as produções do estúdio. Baixaram o nivel e agora tudo o que passar um pouquinho já é, falsamente, bom.

    Espero que, numa próxima temporada, tenham tempo para aprimorar o cgi, para dar profundidade aos personagens machistas, misóginos e etc. porque acho que dá pra lhes dar profundidade e ainda assim satirizá-los.

    Muito obrigado por darem espaço a comentários!
    Continuação de um ótimo trabalho!
    PS. “Exita” não existe. Talvez deva querer dizer “hesita”.

    1. Fui pesquisar mais a fundo e realmente “Exita” existe. Se for possivel editar o comentário, eu gostaria de tirar o PS.
      Se não for possivel, fica aqui o meu pedido de desculpas por ter corrigido erradamente!

      Até à próxima!

      1. Em primeiro lugar, obrigado pelos comentários! Sim, “exita” existe, mas, naquele caso, o certo era “hesita” mesmo. Foi confusão minha, mas já está editado. E quanto ao que tu disse em relação à seriedade necessária em uma série de advocacia, não concordo. Acho que o tom geral de She-Hulk funciona muito bem, e espero que siga assim nas próximas temporadas!

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