She Said: Um monstro, as vítimas e a importância do jornalismo de investigação

Muitos se poderão perguntar acerca da relevância de She Said, um filme de Hollywood sobre acontecimentos recentes passados dentro do próprio meio. Poderiamos ver um documentário. Poderiamos ler artigos informativos. A verdade é que o cinema tem poder para nos tocar de uma forma que outros meios não têm, mesmo que quem esteja no ecrã sejam atores a interpretar emoções e acontecimentos de outras pessoas. E a verdade é que She Said provou a sua relevância.

Mas será que She Said é sobre esse tal monstro, sob a forma de homem, chamado Harvey Weinstein? É claro que em grande parte o é. É sobre uma investigação jornalísitica minuciosa que o deixou cair. Mas, tal como o título indica, é muito mais acerca das vítimas, de quem sofreu sucessivos abusivos e se calou. De quem sofreu os abusos e falou, sem que nada tenh sido feito. Maria Schrader realiza o filme com bastante sobriedade, tom pontuado por uma bela e tocante banda-sonora. Não há aqui recurso a opções demasiado vistosas ou artimanhas estílisticas. Não há uma tentativa de empregar artifícios a uma história que merce ser contada da forma mais direta e clara possível. É feito o que é necessário e Schrader respeita a história, as vítimas e as jornalistas que permitiram que tudo isto fosse mais do que apenas outra tentativa falhada de fazer ouvir mulheres que já várias vezes haviam tentado ser ouvidas.

Para os papéis principais Zoe Kazan e Carey Mulligan foram chamadas. Elas são Jodi e Megan, duas mães, duas jornalistas, que têm sobre elas o peso de muitas mulheres deste mundo. Elas também têm dúvidas como “com tantas mulheres a sofrerem por casos similares no mundo, porque é que nos devemos preocupar com Hollywood?”. A resposta é simples e faz todo o sentido. Porque se nem em Hollywood as mulheres se podem sentir protegidas – e há vítimas de todos os tipos, desde assistentes a reputadas atrizes – onde é que se poderão sentir? A mensagem tem que ser passada de cima para baixo, mesmo que o filme nem sempre vá tão a fundo quanto deveria, mas já lá vamos. Primeiro, voltemos a Kazan e Mulligan. Elas são mesmo estas jornalistas. Incansáveis. Com dúvidas. Com receios. Com vontade de ouvir aquelas mulheres. Com vontade de encarar o touro pela frente. Acima de tudo, elas são humanas e a forma como ambas as atrizes empregam tão bem as suas virtudes e defeitos é que torna as suas personagens tão credíveis, ao mesmo tempo que nos voltam a recordar da importância do real jornalismo. Nos papéis secundários, Patricia Clarkson e Andre Braugher têm-nas protegidas. E depois há os testemunhos…Arrepiantes depoimentos de várias vítimas. Entre as vítimas temos direito também a alguns cameos, incluindo Ashley Judd a fazer de…Ashley Judd.

Há quem levante interrogações acerca do comportamento de algumas destas mulheres. Victim shaming não é o meu forte, mas é importante ressalvar que o filme explica muitas dessas situações. Muitas falaram antes. Muitas foram caladas. Muitas disseram não. A muitas destruiram a vida e os seus sonhos. E é por isso que tão difícil foi que algumas voltassem a falar e que outras falassem pela primeira vez. Estas pessoas não devem viver com remorsos de terem sido vítimas de um mundo que perpetua que situações destas sejam sistémicas e não apenas acasos. E é aqui que She Said poderia e deveria ter ido mais longe, abordando mais os facilitadores. As referências ao silêncio de pessoas importantes são mínimas. Fala-se por alto de que “todos sabiam”, fala-se de acontecimentos, datas e locais e concretos, mas não se apontam muitos dedos, não se vai a fundo, não se faz uma auto-crítica a um sistema que continua a alimentar que tudo possa continuar a acontecer. Não se deve julgar uma obra pelo que nós gostávamos que ela fosse, mas sim pelo que ela é. No entanto, o “fantasma” desse sistema está cá presente e não se aprofundar essa questão faz a história parecer incompleta, faltando uma importante peça do puzzle.

Ainda assim, She Said é um filme muito recomendável. Um filme para ver e mostrar às vossas filhas, às vossas companheiras, aos vossos filhos e aos vossos companheiros. Sóbrio e bem construído, fala-nos da queda de um monstro, embora devesse ter ido além nos ataques ao sistema facilitador. Os testemunhos farão sentir repulsa. As interpretações e o ritmo contagiante mostram porque é que o cinema continua a ser o melhor meio para contar estas histórias, mesmo quando sabemos o seu desfecho.


She Said
Ela Disse

ANO: 2022

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 129 minutos

REALIZAÇÃO: Maria Schrader

ELENCO: Carey Mulligan; Zoe Kazan; Patricia Clarkson; Andre Braugher; Jennifer Ehle; Samantha Morton; Ashley Judd

+INFO: IMDb

She Said

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