Shiva Baby transpira autenticidade e induz ansiedade

Há filmes que nos surpreendem e nos agarram desde os seus primeiros momentos, mesmo que, à partida, pareçam ter pouco a ver connosco. A premissa de Shiva Baby diz-nos apenas que “uma adolescentre universitária encontra o seu sugar daddy num serviço de funeral familiar judeu, onde estão os seus pais”. Não há muito que dê para se extraír daqui. Presumimos que podem acontecer algumas situações caricatas, cómicas talvez, embaraçantes, mas nem sequer conseguimos antever o tom do filme ou como se desenvolverá. Para aumentar as incertezas, a obra é também a primeira longa-metragem da autoria de Emma Seligman, que escreve e realiza, baseada numa curta-metragem também escrita e realizada por si.

No papel principal, Rachel Sennott vive a jovem adolescente no meio de uma situação constrangedora, encontrando-se na festa com os seus pais, que colocam muitas pressões em cima da jovem; com o homem que lhe vai dando presentes em troca de uma relação proibida (por Danny Ferrari); e com Maya, a sua ex-melhor amiga (muito boa interpretação de Molly Gordon), com a qual parece já ter tido algo mais no passado, sendo que o desejo de ambas por algo mais do que a simples amizade parece ainda manter-se.

Shiva Baby tem uma duração curtíssima – 78 minutos, incluindo os seus créditos finais -, mas é mais uma prova que o cinema atual tem-se adaptado e que, depois de uma fase recente em que parecia que qualquer obra teria que ter mais de 140 minutos para ser satisfatória, argumentistas, realizadores e produtores, perceberam o poder de uma forte edição para manter uma história coesa e concisa, prendendo o interesse do público, sem que se perca algo a nível de construção narrativa e de personagens. A escrita de Seligman parece já ter sido uma grande ajuda ao evitar material para “encher chouriços”, mas é a sua realização claustrofóbica – quer na utilização de espaços; quer nos efeitos sonoros; quer nas insólitas situações apresentadas – que permite ao filme manter a sua consistência e não se tornar cansativo, mesmo que utilize, de forma regular, os mesmos espaços e repita alguns truques cinematográficos durante a sua duração.

Seligman realiza com mestria, usando e abusando dessa sensação de claustrofobia (nunca ouvimos a personagem dizê-lo, mas a sua expressão grita constantemente “estou aqui presa e quero sair!”), levando-nos a subir os nossos níveis de stress e ansiedade de forma gradual, de uma maneira que só quem muito bem domina a arte de storytelling é capaz de o fazer. O nível de ansiedade induzido ao espetador é tanto que eu – como fã do cinema de terror – fico a torcer para que Seligman entre nesse mundo e aplique as suas técnicas num filme do género.

Porém, além da realização como ponto forte, é impossível desassociar o sucesso deste filme da excelente e bastante personalizada interpretação de Sennott no papel de Danielle. Acompanhamos Danielle em, praticamente, todas as cenas do filme e ela nunca nos chega a aborrecer, dando-nos uma interpretação tão segura, quanto real. Não importa se nos revemos no papel de uma adolescente profissional e sexualmente confusa – há o sugar daddy, há a amiga pela qual nutre maiores sentimentos, há exigências escolares e profissionais. A sua capacidade de nos fazer sentir o que ela está a sentir, de nos colocar no seu lugar e de vivermos os acontecimentos como se ela fossemos, dá o pozinho extra necessário a uma colaboração (Seligman/Sennott), que parece ser um daqueles casos destinados a voltar a acontecer, tendo em conta a complementaridade da realização e da interpretação no ecrã.

O filme faz referência a vários elementos da comunidade judaica, à importância de valores, mas também a uma certa hipocrisia na escala desses mesmos valores e exigências da sociedade, que é tão relacionável com todos nós porque, de facto, acontece um pouco em todas as sociedades. Shiva Baby é, acima de tudo, isso: um filme que transpira autenticidade, relatabilidade e honestidade, merecendo ser visto pelo maior número de pessoas possível.


Shiva Baby
Shiva Baby

ANO: 2021

PAÍS: EUA, Canadá

DURAÇÃO: 77 minutos

REALIZAÇÃO: Emma Seligman

ELENCO: Rachel Sennott; Molly Gordon; Polly Draper

+INFO: IMDb

Shiva Baby

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