Sound of Metal (ou A fortuita pré-sequela espiritual de Cherry)

Sound of Metal de 2019 partilha imensos traços narrativos sequenciais a Cherry de 2021.

Tom Holland é um gaiato que se torna viciado quando tenta preencher o vazio indefinido com várias decisões mirabolantes encontrando algum desfecho no final. Riz Ahmed em Sound of Metal é um ex-viciado que encontrou na rotina restrita de batidos detox, tournée pelos EUA como membro de um duo de Rock com a namorada interpretada por Olivia Cooke (com passado de auto-mutilação – algo projectável para a namorada de Holland na sua reabilitação) e o escape de ser o baterista nesse duo com a válvula simbólica de descompressão através das pancadas em tambores e pratos para alimentar o subjacente vício e inquietude (a par do serviço militar e dos assaltos a bancos de Holland em Cherry).

Os artifícios prementes aos traços fundamentais das vidas dos protagonistas também existem em pareio, mas para explicar estágios diferentes das vidas dos mesmos. Em Cherry, os irmãos Russo optaram pela componente visual para envolver os espectadores na viagem psicotrópica, de traumas de guerra e de potencial descoberta e redenção, ao que em Sound of Metal, o mecanismo escolhido por Darius Marder foi o som, dado que o grande desbloqueador de personalidade de Ahmed aqui é surdez contraída, sabe-se lá como. Não obstante, o engenheiro do som deste filme merece o prémio que lhe fora atribuído de caras!

Paul Raci rouba o filme. Fez o que lhe fora pedido e ainda mais. Mostrou emoção, representação com a cara, voz, entrega das falas, um autêntico veterano que me condeno por ter “encontrado” tão tarde na minha e sua vida. Olivia Cooke cumpre bastante bem mas acanhou-se ao que lhe fora pedido. Não fez nada mal mas não atraiu maior atenção a si. Será do pouco tempo de tela? Discutivelmente terá aparecido mais que Raci. Vou desculpá-la com o que a história pediu de si.

Muitas vezes foi-me empurrado enquadramento emocional empático sem que Riz Ahmed tenha sido o responsável por isso. Mais vezes que menos, foi o som casado de forma competente com os planos apertados dos olhos perturbados e lacrimejantes dele que criaram o momento. Foi um conjunto de fragmentos que culminaram em apogeus espaçados e também pequeninos. Aqui Ahmed mostrou laivos de potencial, mas para o actor de 38 anos ainda não é este o papel que o define.

Entrando nos aspectos menos satisfatórios deste filme que, segundo ouvi falar, foi nomeado para melhor guião, onde também a prestação de Riz Ahmed foi bastante badalada, sofro de uma desilusão criada pela sinopse desta proposta de 2h de rodagem.

Sou músico amador e amante perdidamente apaixonado por música, com praia assumida pelas sonoridades pesadas. Escusado será justificar o fogo que senti nas miudezas quando li que um baterista de heavy-metal enceta numa espiral descendente quando começa a decair na surdez. Não aconteceu. Contar esta história com ou sem esta particularidade não acrescentou tal como não subtrairia absolutamente nada a esta premissa. Assim que voltei à Terra pela ausência de peso e peso da desilusão que me fora revelada a meio do primeiro acto, o meu desapego emocional também foi reduzido a 25% dos 225% que coloquei. Ainda assim mantive-me atento observador desta trama para entender o que daqui se poderia extrair. Posto isto, não foi nada sofrida a experiência. Todo o filme está bem estruturado e conseguido. Soam 3.5 estrelas para o Metal que não existiu.


Sound of Metal
O Som do Metal

ANO: 2019

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 120 min.

REALIZAÇÃO: Darius Marder

ELENCO: Riz Ahmed, Olivia Cooke, Paul Raci

+INFO: IMDb

Sound of Metal

Previous ArticleNext Article

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *