Summer of Soul (ou a manifestação artística da existência negra que ninguém quis saber)

O Live Aid foi um marco. Os Rock In Rio querem ser marcos. O Harlem Cultural Festival fez isto primeiro, com poucos a nenhuns apoios, mas com a vontade de elencar vários gritos importantes, necessários e caídos no esquecimento mediático. Este documentário quer ser o desfibrilhador de muitas coisas em torno do festival, mas é apenas bem-sucedido em permitir que essas coisas respirem sem auxílio de ventilador.

A premissa disto tudo vende-se como “o maior e mais importante festival que ninguém viu” e as questões culturais, raciais e sociais adjacentes a esse festival são mais relevantes agora que naquela altura de 1969 onde os movimentos de Direitos Civis estavam no apogeu da militância mesmo com o assassinato de Martin Luther King Jr. um ano antes e de Malcolm X quatro anos antes.

Os Black Panthers estavam activos e de boa saúde militante, a par de outros notáveis que então herdaram a missão deixada prematuramente pelos seus dois maiores símbolos. O partido é mencionado também pela particularidade caricata de ter sido a força de segurança para o festival por recusa do Departamento de Polícia de Nova Iorque.

O boom cultural e artístico manifestara-se em uníssono para assinalar o que estava mal, como poderia ser resolvido e que tinha de se agir a partir daquele momento com a urgência de 200 anos de grilhões de atraso.

O cartaz e actuações foram artisticamente arrebatadores: artistas nativos de renome a prestar homenagem à comunidade carregada de importância cultural e histórica de Harlem, artistas de outros pontos da América Negra tais como o icónico Stevie Wonder e a inconfundível Nina Simone, outros actos de minorias expressivas de diáspora em Nova Iorque, como  e até actos internacionais como o sul-africano Hugh Masekela ou o percussionista cubano Mongo Santamaria formaram um inexcedível ramalhete de talento e mensagem que focou a união, o empoderamento e organização da comunidade negra e a celebração do africanismo.

Tudo isto é exposto no documentário e os testemunhos de participantes artistas como espectadores a reverem-se em imagens incompreensivelmente arquivadas desde o evento é emotivo e poderoso, mas…

Não sei se foi a edição, se foi a narrativa que o documentário nunca encontrou ter e se comprometer, se se esticou por quase duas horas, se todos os anteriores, me fizeram sentir no fim que tentou ser maior que a soma das partes e acaba por não valorizar tão bem quanto podia uma ou outra delas.

Retiro substância deste documentário que volta a trazer à conversa as questões importantes que marcaram aqueles tempos que infelizmente são tão ou mais empoladas que nunca nos tempos de hoje e obviamente são importantes de não deixar no esquecimento, apatia e inacção de cada um de nós, apesar de eu em particular estar a par e em sintonia com tais temáticas, mas…

Talvez este documentário me tenha sabido a pouco pelo que explorou de menos: porque é que este festival incrível, que promove uma imagem da cultura negra americana completamente dissonante da que actualmente reina com o imaginário que o hip-hop vende e propaga, não foi replicado, divulgado e transmitido pelo menos?

A ideia que o documentário passa é que este foi o único Harlem Cultural Festival que existiu e qualquer divulgação foi trancada a sete-chaves, mas não é assim. Descobri isso ao cumprir com a minha diligência de me informar e pesquisar mais sobre isto, premindo pela justiça desta opinião. O cantor local e arquitecto do evento Tony Lawrence já propôs o festival desde 1964. Não tendo pernas para andar, então Tony, que em paralelo já agia activamente nas iniciativas da comunidade, daí volta a vender o peixe e procede a criar e implementar o primeiro festival em 1967, seguindo-o com a segunda edição em 1968 e então ter o magnum opus em 1969.

Ainda assim a porventura demasiado subtil razão que é dada pelo aparente boicote deste festival e a sua transmissão e difusão, foi o facto de o Woodstock estar a acontecer nesse mesmo Verão e que nenhuma parte das potenciais interessadas pegou nele como forma de silenciar o movimento de Direitos Civis que estava mais incómodo que nunca onde este festival conduzido de forma organizada, ordeira e gratuito para os acumulados cerca de trezentos mil espectadores ao longo de quase um mês de duração era o demonstrativo-mor dessa ameaça ao status quo opressivo de minorias, mas isso fui eu que especulei, por conta-própria, porque me interessei.

Se o documentário não me disse bem o que me queria dizer, apesar do esforço reconhecido nesta estreia de realização de Questlove, o lendário baterista dos The Roots, então considero que não correu tão bem como poderia.


Summer of Soul
Summer of Soul (...Ou, Quando A Revolução Não Pôde Ser Televisionada)

ANO: 2022

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 118 min.

REALIZAÇÃO: Questlove

ELENCO: Dorinda Drake, Barbara Bland-Acosta, Darryl Lewis

+INFO: IMDb

Summer of Soul

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