Thanksgiving é brutal e honesto

O sub-género slasher sempre se caracterizou por uma certa subversão nas suas temáticas. Desde comentários à exclusão social, medos primários ou traumas, de tudo isso tivemos na primeira grande fase dos slashers das décadas de 70 e 80 e depois tudo viria a ser expandido para o meta-comentário dos anos 90, do qual Scream (1996) é o expoente máximo. Injustificavelmente – ou talvez justificável porque a demasiada oferta sucede-se sempre um periodo de saturação – o terror quase que se esqueceu durante mais de uma década de um dos seus sub-géneros prediletos dos fãs, optando por outros caminhos, de aparentemente maior “elevação”. Isso mesmo é explorado num magnífico discurso de Scream V (2022), um filme que em muito ajudou a reacender a chama dos slashers.

Nesta nova vaga de slashers, os novos títulos não têm esquecido as suas origens. As referências a filmes que marcam o género são várias e parece existir um enorme amor pelo género, homenageando os seus clássicos de forma regular. Ao mesmo tempo, procura-se atualizar no que às temáticas diz respeito, fazendo também com isso uma justa homenagem às origens, reforçando o estatuto de ser sempre socialmente relevante. Thanksgiving não esquece isso.

A cena de abertura é memorável. Uma daquelas à Ghost Ship (2002) ou de um dos filmes da saga Final Destination. Uma daquelas que nunca será esquecida. Além da sua construção ser impecavel, a mesma ebule até a um cenário totalmente catastrófico e brutal que antevemos, mas do qual Eli Roth não se quis esconder. Melhor ainda: tem forte  relevância cultural, ao ser também ela uma incisiva crítica à sociedade consumista e confusa de valores morais em que vivemos.

Essa cena de abertura permite também desde logo perceber qual vai ser a toada do filme. Over-the-top, sem medo de parecer ridículo, com vários momentos cómicos e brutalmente macabros em simultâneo. Acompanhamos um grupo de jovens, como habitual em slashers do género, sabemos que nem todos vão chegar ao fim e também sabemos que alguns deles serão suspeitos e entre eles poderá estar o assassino. Tão simples quanto isso.

O que é colocado em cena, é tecnicamente sempre bem feito. Apesar do guião ser, por vezes, demasiado direto – diria até bruto, quase como que um martelo perfurando uma parede – e que algum do diálogo pareça forçado ou excessivamente expositivo, a forma como o filme constrói as suas setpieces, os seus momentos de maior terror e brutalidade fazem esta viagem valer muito a pena. Adorei em especial uma cena onde o som é utilizado de forma exemplar criando o suspense adequado e concluindo com vários acontecimentos relacionados com a própria audição ou os…canais auditivos.

Algumas atuações poderão ser questionáveis – nada de novo no género e confesso que a minha aposta para assassino revelou-se acertada, o que retira alguma da aura de um bom slasher com um serial killer mascarado. De qualquer forma, Thanksgiving é um filme que consegue sempre entreter, muito pelos seus excessos, quer a nível da brutalidade das suas morte, quer por por algum humor que pode parecer desenquadrado a quem não se entregue de corpo e alma ao espírito do filme. O guião está longe da perfeição, mas é um filme muito honesto, dando exatamente aquilo que promete à usualmente exigente e experiente audiência de slashers.


Thanksgiving
Feriado Sangrento

ANO: 2023

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 106 minutos

REALIZAÇÃO: Eli Roth

ELENCO: Patrick Dempsey; Addison Rae; Milo Manheim; Jalen Thomas Brooks; Nell Verlaque; Rick Hoffman; Gina Gershon

+INFO: IMDb

Thanksgiving

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