The Creator é experiência audiovisual impactante e imersiva, mas peca em desenvolvimento emocional

Se há algo que o realizador Gareth Edwards sabe fazer, é trazer impacto para a grande tela. Pude conferir seus três mais recentes filmes no cinema: Godzilla, de 2014, Rogue One, de 2016, e, agora, o filme contemplado por esta resenha crítica, The Creator (O Criador). Edwards conduz muito bem cenas de ação, fazendo de seus filmes experiências cinematográficas extremamente intensas e imersivas. Sem sombra de dúvidas, sair de casa para assistir a um projeto do realizador, é garantia de que se irá vivenciar um espetáculo visual e, também, sonoro. Todavia, Edwards já sofreu com dificuldades em desenvolver personagens e arcos dramáticos envolventes no passado, e, infelizmente, isso se repete em The Creator.

Joshua (John David Washington), um amargurado soldado, é recrutado para encontrar e matar O Criador, importante arquiteto de robótica e líder da resistência das inteligências artificiais, que estão em guerra contra os humanos do hemisfério ocidental. Em sua missão, Joshua cruza o caminho de uma criança artificial, Alphie (Madeleine Yuna Voyles), que se torna sua protegida por conveniência. Entretanto, a conexão entre os dois é inevitável, e o soldado logo se vê enfrentando seus próprios preconceitos, e encarando diferentes pontos de vista em uma guerra que se revela muito mais complexa do que poderia imaginar.

The Creator te mantém preso à poltrona desde o início. Os excelentes efeitos visuais (outra especialidade de Edwards), somados à opressora perspectiva de escala da realização e fotografia, e aos nervosos efeitos sonoros que ecoam pela sala do cinema com gravidade e tensão, são bem sucedidos em demonstrar o quão perigosa é a situação das personagens que acompanhamos. É difícil encontrar explosões tão secas e violentas quanto no cinema de Gareth Edwards. Costumamos vibrar com grandes e explosivas cenas de ação, cheias de brilho e espetacularização. Aqui, a história é diferente: há choque e aflição. 

E há, também, uma magnífica banda sonora, que auxilia muito na imersão de The Creator. As composições orquestrais de Hans Zimmer mantém a epicidade do filme sempre em alto tom. Nos momentos de maior ação, as músicas exprimem grandiosidade, e nos momentos dramáticos, é carregada e intensa. Não é à toa que Zimmer ostenta grande renome. Seu trabalho é sublime, e dispensa mais elogios.

Quanto ao visual do filme, também não há o que reclamar. Parte importantíssima de uma ficção científica futurista, é um bem resolvido design de cenários e personagens. É preciso não só atrair o público com belos visuais, mas convencer a quem assiste com conceitos criativos e concisos que sirvam à obra com verossimilhança, e relevância narrativa para além do objetivo de garantir designs legais e chamativos. The Creator é conceitualmente primoroso. A tecnologia presente no filme é avançada e criativa o suficiente para nos impressionar, mas coerente o bastante para não nos afastar demais daquela realidade. É como se o avanço mostrado no filme fosse algo próximo e natural da tecnologia que temos hoje, no nosso dia a dia. A ideia é feliz, pois inteligências artificiais já são uma realidade nos dias atuais, sendo os questionamentos acerca da tecnologia cada dia mais intrigantes e, claro, preocupantes. Assim, nos mantendo ligeiramente próximos de tudo o que acontece em seu universo, The Creator não pode evitar, senão nos fazer sentir envolvidos com sua trama.

Bem, parcialmente envolvidos. A conexão com os conflitos tecnológicos e políticos do filme é garantida, porém, quando se trata do fator emocional, The Creator deixa a desejar. Apesar de todo pano de fundo grandioso, o principal foco do filme gira em torno da relação do protagonista com a criança artificial. Então, para que a narrativa possa funcionar bem, é preciso que haja conexão com as duas personagens e a sua relação pessoal, e credibilidade no desenvolvimento de tal relação. Mas, infelizmente, isso não acontece. Assim que Alphie se junta à jornada de Joshua, não há qualquer elo entre os dois, além de interesses e conhecimentos que se chocam. Avançando em direção do seu objetivo, e enfrentando adversidades juntas, as personagens se conectam, e logo vão criando afeição uma pela outra. A ideia é boa, e já foi explorada em produções anteriores com êxito. Porém, em The Creator, não vemos a relação entre as personagens evoluir naturalmente. Em um momento, Joshua e Alphie são completos estranhos. No outro, se amam incondicionalmente, e fariam de tudo para garantir o bem estar um do outro. Não há meio termo, não há gradual crescimento de afeto, carinho e preocupação. O filme simplesmente vai do oito ao oitenta de forma brusca e confusa.

Entretanto, deve-se ressaltar que, apesar de não haver uma convincente construção da relação entre os dois, depois de completamente entregues ao carinho um do outro, Joshua e Alphie convencem sim, e muito, de que o que sentem é realmente intenso e verdadeiro. E o fator mais importante para estruturar essa credibilidade, é claro, é a excelente atuação da dupla de atores por trás das personagens. John David Washington está, como de costume, muito bem no papel de Joshua. Mesmo quando o texto não exige muito dele, sua entrega é carregada de peso e credibilidade. Mas, por incrível que pareça, o grande destaque fica para a pequena Madeleine. Mesmo ao lado de um ator consagrado, a atriz mirim brilha, e brilha muito! É incrível a capacidade de Madeleine, na pele artificial da pequena robô, de transmitir fortes, sofridas, confusas e angustiantes emoções. A menina é, tranquilamente, o que há de melhor em The Creator.

E por falar nas emoções da inteligência artificial, era de se imaginar que The Creator entrasse fundo em discussões acerca da tecnologia, explorando complexidades e questionamentos que se fazem, inevitavelmente, cada vez mais atuais. Todavia, a realidade não é essa. The Creator até discute o assunto, mas deixa para se aprofundar mesmo em críticas ao imperialismo americano, e em analogias do conflito ficcional com os que enfrentamos hoje. A abordagem do texto deixa a desejar, com certeza, mas não chega ao ponto de ser decepcionante.

Assim, The Creator se consagra como um espetáculo audiovisual quase absoluto: impactante, brutal e imersivo, mas emocionalmente mal desenvolvido, e tematicamente insuficiente. Os aspectos técnicos são primorosos, mas o verdadeiro ponto forte do filme são as atuações da dupla de atores principais. The Creator pode ter seus defeitos, porém, assim como as produções anteriores do realizador Gareth Edwards, vale a pena ser conferido nas grandes telas do cinema.


The Creator
O Criador

ANO: 2023

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 2h 13min

REALIZAÇÃO: Gareth Edwards

ELENCO: John David Washintgon, Madeleine Yuna Voyles, Gemma Chan

+INFO: IMDb

The Creator

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1 Comment

  1. Entendo que a razão do afeto repentino dos protagonistas deve-se ao fato da pessoa em comum entre os dois, o amor que ambos sentem por Maya e o suposto (possível) grau de parentesco entre os dois que vai se apresentando durante o filme é o que faz esse amor repentino surgir.
    Mas concordo que deveria ter mais desenvolvimento nessa relação. O filme é excelente e acredito que é subestimado pelo grande público merece uma repercussão maior. Apesar de alguns furos no roteiro é uma obra que merece atenção, pelas atuações, pelos efeitos (sonoros e visuais), pelos debates sobre IA, sobre preconceitos, sobre geopolítica e mais algumas reflexões.
    Inclusive o final ter alguns pontos interessantes sobre o que acontecia realmente na NOMAD.
    E parabéns pelo site e pela crítica.

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