The French Dispatch (ou Wes Anderson a ser o melhor Wes Anderson que Wes Anderson consegue)

O que funciona em detrimento deste filme é o que me retranca de o adorar absolutamente.

Esta proposta de pouco menos de 2 horas é carregada de estética, personalidade e representação incríveis.

Estética: ver este filme de Wes Anderson é assistir a uma peça de teatro onde a filmagem é o espectador e a cena é o palco. Onde o setting são os adereços, como eles interagem entre si, em detrimento de si, em detrimento do diálogo, com o diálogo. É poesia representativa em todos os sentidos. É lindíssimo.

Reticência a essa estética: é o dispositivo que é usado por todo o filme, onde a carga informativa me deixou assoberbado como que me culpando a mim, espectador, de não estar suficientemente atento para captar toda a informação para fazer sentido do que estava a ver.

Personalidade: o uso da paleta de cores, essa paleta escolhida, o jogo de luz e escuridão, a irreverência na representação em fazê-lo sem pedir licença e o distanciamento entre a obra feita e quem a vai assistir por forma a realçar a obra e procurar o deslumbre constante do que se vê e ouve são marcas prementes deste realizador e transpiram por todo o filme.

Reticência a essa personalidade: torna-se massudo de encaixar tanta mirabolância neste formato de filme. A história trata de representar várias historietas em montagem sequencial. Considero um tanto exigente do realizador que se alugue tanta vez pelo mesmo ritmo de mid-burner essa atenção ao espectador. No fim tive a impressão de ter assistido a uma compilação de episódios em vez de uma viagem de princípio, meio e fim, mesmo que não tenha de se seguir a estrutura por essa ordem.

Representação: este elenco é mais rico que a garagem do Jay Leno. Nunca vi tanta estrela ou actor de palmarés no mesmo filme. Vou mencionar 7 nomes e faltar-me-ão outros 7, pelo menos para fazer sentido deste ramalhete brilhante e incrível: Benicio Del Toro, Adrien Brody, Tilda Swinton, Léa Seydoux, Frances McDormand, Timothée Chalamet, Jeffrey Wright. Todo o elenco, repito, TODO O ELENCO esteve excelso neste filme. Como não estou habituado a ver esta gente a representar de forma teatral e/ou mais artistazeca, fiquei bastante agradado com o que me fora apresentado. Há comédia, drama, introspecção, identidade própria de cada actor nos seus papéis e o desafio em entregar tamanhas secções de diálogo é digno de destaque.

Reticência a essa representação: foi cansativo assistir a tanto brilhantismo ou proposta de tal. Dei por mim no que entendo ser uma aula de representação onde diversos exercícios de entrega de falas estavam a acontecer, mas com actores de renome. Reparei também que a teatralidade de que este filme se embebe pautou de forma vincada o ritmo das falas, como que se de travões bruscos de bicicleta se tratasse com o propósito propositado de derrapagem controlada para exacerbar o estilo. Interpretei também que muito actor apareceu aqui para dizer que fez parte de um filme de Wes Anderson. Deve ser aquele crachá que todos querem ter sem necessariamente ter vontade de fazer por ele, ou simplesmente por ser cool ter trabalhado com Wes Anderson.

Parca é esta crítica face à magnitude que The French Dispatch transmite. Aprendi muito a ver este filme e aprendi que é fácil odiar Wes Anderson, mas pelos motivos que o fazem ser reverenciado pelos nichos. É inconfundível a exuberância do seu ADN nos seus filmes tal que a preparação mental para um próximo desafio a assistir algo dele é como a segunda vacina contra o Covid-19: sabe-se para o que se vai, sabe-se que não dói e sabe-se que é necessário apesar de opcional mas é fortemente possível de dar febre e isso não é fixe.


The French Dispatch
Crónicas de França do Liberty, Kansas Evening Sun

ANO: 2021

PAÍS: EUA, Alemanha

DURAÇÃO: 107 min.

REALIZAÇÃO: Wes Anderson

ELENCO: Benicio Del Toro, Adrien Brody, Frances McDormand

+INFO: IMDb

The French Dispatch

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