The Harder They Fall: elenco estrelado, realização pretensiosa

The Harder They Fall (Vingança e Castigo) traz um elenco composto por nomes talentosos de Hollywood e uma trilha sonora original ousada. Traz também uma realização repleta de maneirismos e um argumento que oscila entre a comicidade que não se leva a sério e a intensidade encharcada de pretensiosidade. O elenco mostra a que veio com o esforço de tentar dar vida às suas personagens reduzidas a arquétipos pelo texto fraco. A realização morde mais do que pode engolir, e entrega um filme aquém do seu potencial.

Estive confuso durante boa parte das 2h10m de The Harder They Fall. Ora acompanhamos personagens dramáticos, tensos e sisudos, ora acompanhamos cenas de comédia escrachada; ora confrontamos a morte nua e crua e sentimos todo o seu pesar, ora presenciamos humor sendo feito com o mesmo tema. Não há unidade no tom do filme, não há unidade na realização, não há unidade no argumento.

Jeymes Samuel, realizador e co-argumentista, parecia não saber o que fazer com sua história. Enquanto Samuel me conduzia por seu western moderno, senti que ele estava perdido, que sua confusão transbordava em mim e que isso era a causa do meu desgosto pelo longa. Foi só então, depois de assistir uma entrevista dada por ele ao IMDb, que percebi meu engano: Jeymes sabia muito bem o que estava fazendo. Com sua empolgação e excentricidade, ele me mostrou que o exagero e a mistura apresentados em The Harder They Fall foram muito bem pensados. Os takes e edição afetados que mesclam diversas técnicas diferentes, mesmo que não condizentes com o restante do filme; a ação que se acha épica e usa de clichês como o andar convencido de uma personagem que não olha para trás e esnoba o resultado de suas ações; está tudo lá, tudo reunido em um único pacote. Uma mistura de diversos elementos legais para criar o filme mais incrível possível.

Porém, apesar de não apreciar a obra, houveram dois elementos cruciais do longa que me ajudaram a manter o interesse até o final: suas atuações e sua banda sonora. Zazie Beetz, Idris Elba, Regina King e companhia mostram seu valor com atuações esforçadas e cativantes. O destaque fica com os atores Jonathan Majors, que atua como o protagonista Nat Love, e LaKeith Stanfield, que interpreta um dos vilões, Cherokee Bil. Majors entrega a personagem mais complexa do filme, me surpreendendo com uma impressionante demonstração de tensão, usada na dose certa, para destacar o ponto de partida do segundo pro terceiro ato. O talento de Jonathan me convenceu o bastante para me emocionar com a única quebra formal que parece funcionar no longa, quando Nat Love encara o público quebrando a quarta parede. Já Stanfield demonstra domínio sobre sua personagem, entregando um vilão sem honra, porém carismático. O desfecho de seu arco narrativo é o mais empolgante da obra, carregado de muita tensão e uma banda sonora incrível, Blackskin Mile, representada pela voz de Ceelo Green. Essa é a melhor canção de uma banda inspirada, que traz músicas originais compostas por Jeymes Samuel e representadas por cantores talentosos, como JAY-Z e Kid Cudi.

Aproveito que citei o desfecho do arco de Cherokee para falar de outra personagem envolvida em sua conclusão narrativa: o pistoleiro transgênero Cuffee, interpretado por Danielle Deadwyler. Próximo a conclusão do segundo ato, Samuel decide deixar de lado a naturalidade usada para representar a personagem até então, e dá lugar a uma desculpa narrativa deprimente que serve apenas para ridicularizar a personagem e sua orientação sexual. Depois de mais de uma hora tratando Cuffee com respeito e chamando-o pelo pronome correto, sem questionamentos, o argumento decide deixá-lo desconfortável, forçando-o a passar por constrangimentos absurdos, como a necessidade (extremamente desnecessária) de se usar um vestido e os comentários estúpidos de uma personagem que se sente aliviada por descobrir que “não se sentia atraído por um homem”. É triste que um filme que se preocupa em trazer representatividade negra, seja tão insensível quando o assunto é representar o meio lgbtqia+. 

Espero que críticas a esse descaso cheguem até a produção do filme. Espero que Samuel receba bem essas críticas. The Harder They Fall deixa um gancho para uma possível continuação, o que, acredite ou não, me intriga. Apesar de detestar o resultado final, principalmente pelo absurdo citado acima, acredito que há muito potencial no universo e nos personagens criados por Jeymes. O filme não funciona para mim, mas devo admitir que há nesse mundo muito carisma e que, se uma sequência vier, estarei esperando com curiosidade.


The Harder They Fall
The Harder They Fall

ANO: 2021

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 2h 10m

REALIZAÇÃO: Jeymes Samuel

ELENCO: Jonathan Majors, Zazie Beetz, RJ Cyler

+INFO: IMDb

The Harder They Fall

Previous ArticleNext Article

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *