The Iron Claw (ou a pressão que cria diamantes e a que sufoca a felicidade dos acorrentados)

As harpias do sentido da vida atacam forte numa das maiores lições de “pimenta no cu dos outros” que se pode observar numa das dinastias mais importantes da luta-livre, na mais trágica dinastia de sempre a criar e cultivar excelência numa qualquer profissão.

Tenho pena de que a montanha tenha parido um rato.

Quer tenha sido pela evidente utilização de esteróides, quer tenha sido legitimamente uma queda por correr com meias em casa e ter rebentado a fronha numa bancada de granito (não estou a gozar – é a versão oficial da sua lesão facial), a cara de Zac Effron não está apenas quadrada como se de Stan Smith de American Dad se tratasse

Está inexpressiva.

É como se ele tivesse feito da cara um Obelix e a tenha deixado cair num caldeirão de botox. É tremendamente complicado defender a sua prestação. A estampa física, essa sim está invejável e de indelével caracterização com um wrestler daquele tempo que tenha abusado copiosamente de substâncias para potenciar tais ganhos de massa magra sem comprometer a velocidade e movimentação.

Harris Dickinson para mim é o melhor intérprete dos irmãos Von Erich. O sotaque está quasi-nativo texano, os maneirismos brutos e pouco refinados daqueles rapazes de quinta / pro wrestlers estão muito bem incorporados. A sua envergadura claramente justifica o seu casting. Este menino esteve muitíssimo bem em Scrapper (2023) e Triangle of Sadness (2022) e só tem a crescer daqui. Não tinha o físico mais condizente com o que seria expectável de uma era de papéis que apelam a corpos impossíveis, mas não vou voltar a falar de esteróides e Zac Effron. Não me vale a pena bater numa boca que não sente nada.

Jeremy Allen White é um tremendo actor, mas considero que lhe foi dado de menos para trabalhar como Kerry Von Erich, quer em complexidade, quer em exposição, quer em fidelidade para com o maior e mais naturalmente dotado irmão do clã. Aqui há o meu primeiro problema com o guião do que se visava como biográfico da vida trágica da dinastia Von Erich.

O quarto irmão caracterizado (Mike) é uma amálgama do quarto e quinto irmãos (Mike e Chris). Este Mike é simultaneamente desdobrado como o menos interessado em abraçar o ofício da família e o mais artisticamente inclinado a outros interesses, tal como é ‘utilizado’ para emular Chris (o irmão mais novo dos Von Erich) como frágil e despreparado para abraçar a vida no ringue. Chris Von Erich teve desde sempre um historial clínico adverso, o que lhe perturbava perenemente e levou ao seu suicídio pelo rumo de como os irmãos mais velhos foram tombando um a um, com mais ou menos tragédia.

Sean Durkin, assumido fã de luta-livre, justificou esta decisão reflectida com “a carga demasiado pesada da história de Chris” e de como “a grande tela e público não estariam preparados para a receber”. Para mim é imperdoável, condescendente, preguiçoso e, qual cuspo seguido de estalo, seguro.

Fritz Von Erich é solidamente interpretado por Hold McCallany. Um pai tirano que vive o que gostaria de ter atingido pelo que impõe aos filhos para atingir. Maura Tierney como Doris Von Erich é a mãe-perfeita para prestar solidez, sustentação e subserviência à disciplina hermética de Fritz. Com o seu conservadorismo ultra recatado e cauteloso, ela é a imagem da repressão e resignação em todas as falas, expressões e desdobramento da sua personagem.

Ainda assim não me conformo com mais uma ‘liberdade criativa’ ou inverdade de Sean Durkin: Fritz Von Erich é que unilateralmente decidiu vender a sua promoção regional de luta-livre a Jerry Jarrett e não Kevin quando o pai a ofereceu ao filho.

Este reconto deveu-se facilmente à falta de estabelecimento de contexto do porquê das coisas em vez de apenas despejar as coisas. Como o senhor lá diz ser fã, tentou disfarçar a coisa para fazer sentido. E fez. Mas simplesmente não é verdade.

Tal como não é verdade que Kerry tenha perdido o pé ao ter ido andar de mota logo depois de ter ganho o título mundial de pesos-pesados. Isso aconteceu 2 anos depois, dada a vida boémia que levava ao ser campeão e ao mesmo tempo o irmão cognitivamente menos inteligente do cabaz. Também não é mostrada a vida amorosa dos irmãos que resultou no adensar do clã, para enfatizar exclusivamente a vida de Kevin e de como Pam funciona como bálsamo e terapia para com a disfunção e trauma da família.

Ou conta-se a história ou não se conta. “Quando a lenda se torna facto, imprime a lenda” – John Ford em The Man Who Shot Liberty Valance.

Houve muita preocupação em estabelecer coisas num seio de drama familiar mas há contexto incontornável que faz com que as atitudes, decisões, estratégias e rumo que Fritz tomou na sua família sejam explicáveis, o que humanizaria ou ajudaria a conectar o expectador comum desconhecedor de tudo a acompanhar o novelo.

Ao optar por simplificar a coisa, que se chamasse isto de outro filme, com outro desporto de fundo, com outra família fictícia a representar e tudo estaria bem.

A cinematografia é forte. A edição não defrauda. O som está bem conseguido. A banda sonora recorre a música da época, mas todas as faixas escolhidas encaixam em tom e tese para com os actos onde surgem.

Isto não é um filme fraco. Isto é um filme que me desilude pois tive infância e adolescência a ver homens suados e com óleo Johnson a saltar de cantos de ringue a atirar-se contra outros, a dar cadeiradas, a sangrar da testa, a cair de jaulas suspensas, a embater contra escadotes e a protagonizar as novelas mais electrizantes que maus actores com profundos problemas de lesões mascaradas por corpos tonificados e de ampla envergadura e quantidades copiosas de esteróides, drogas, entorpecentes e álcool.

Tal como a criança que gostou do Undertaker acreditou que ele era mesmo um homem-morto, o adolescente entendeu o encanto por detrás da “mentira” daqueles combates e o adulto aprendeu a apreciar o esforço em entreter colocando muito mais que o corpo em jogo, semana após semana, ao longo de vários anos.

Isto não é uma homenagem barata. Isto é uma homenagem áquem pois a família Von Erich tem absolutamente tudo o que a condição humana tem para oferecer desde o mais apoteótico e inspirador ao mais vil e desolador e isso não foi fielmente retratado em The Iron Claw.


The Iron Claw
Iron Claw

ANO: 2023

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 172 min.

REALIZAÇÃO: Sean Durkin

ELENCO: Zac Effron, Jeremy Allen White, Harris Dickinson, Holt McCallany

+INFO: IMDb

The Iron Claw

Previous ArticleNext Article

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *