The Killer (ou The Mechanic Club)

Michael Fassbender está naquela fase da carreira que não precisa provar, impressionar, estarrecer ou embasbacar ninguém.

O facto de ter abraçado esta proposta de Fincher adaptada de um qualquer livro sensaborão, para a plataforma de streaming é testemunho disso.

Lá porque esta coisa está feita com competência e delicadeza dos seus intervenientes-maiores, não é estampa automática de aceitação, apesar da inquestionável qualidade. Costumo ser bastante imparcial face a algo ser observavelmente bom apesar de não gostar, mas aqui irritou-me o que me separa dessa imparcialidade. Irritou-me a pastiche de Fincher a si próprio com o narrador-participante protagonista disto, tal como aconteceu com Fight Club.

Irritou-me a clara estética de introspecção e aperto de planos para focalizar o enredo no desenvolvimento da personagem de Fassbender que, pretensiosamente, não tem nome, designando-se como The Killer.

Irritou-me que o assassino ardiloso, preparado, frio, calculista e cuja força-motriz é o perfeccionismo do seu método criado, testado e resultadista tome um desvio do foro humano por sabe-se lá o quê que nunca é explicado e depois lá é humanizado por um puro e duro “deus ex machina” amoroso que motiva o filme em vez de o solucionar.

Irritou-me que este projecto meio-signature tenha o recurso à dupla Trent Reznor/Atticus Ross para sonorizar como muleta emocional todo o ramalhete, e ao mesmo tempo espete lá para dentro uma biblioteca de música que não intensifica, satiriza, humoriza, aterroriza, abrilhanta ou escurece o filme.

As coisas boas do filme são as que me irritam.

Isto ou foi fraco por desinspirado, mas nuclearmente infalível pois Finch pegou e empregou o que sabe fazer e sabe que faz bem, ou foi pretensioso e altivo por saber para o que se destinava e cumpre os requisitos mínimos para ser visualizável e observável.

Este filme remete-me a um outro tristemente parecido e com os mesmos laivos de pretensiosismo chamado Inherent Vice, de Paul Thomas Anderson de 2014. Assisti-o no cinema e irritou-me que cumpriu ao que se propôs, mas que nunca me fez gostar do que propôs e cumpriu.

Esta é a frase que replico para resumir o meu sentimento para The Killer, como bons copiões de si para si e entre eles, estes realizadores, quiçá inadvertidamente, me revelaram ser: este filme irritou-me que cumpriu ao que se propôs, mas nunca me fez gostar do que propôs e cumpriu.


The Killer
O Assassino

ANO: 2023

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 118 min.

REALIZAÇÃO: David Fincher

ELENCO: Michael Fassbender, Charles Parnell, Tilda Swinton

+INFO: IMDb

The Killer

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