The Power of the Dog (ou um suspense à antiga disfarçado de drama de desolação e autodescoberta)

Há anos que não assistia a um filme sem saber o que raio se está a passar para, entretanto ser dirigido a conclusões que formulei enquanto confuso, apenas para ainda assim não se tratar de nada disso.

Jane Campion embebeu-se bem do que Chloe Zhao mostrou funcionar com a cinegrafia. Jane Campion aplicou muito bem o desconcerto sobejo aos irmãos Cohen. Jane Campion não é nova nestas andanças que envolvem romance e confusão sentimental e afins, pela muito breve pesquisa levada a cabo. Jane Campion também escreve muito bem e com a sua realização, faz com que o filme me diga algo e fique positivamente na minha memória. Só detectei um buraco narrativo convenientemente chutado para canto que me incomoda impreterivelmente.

A história conta-se praticamente sozinha, mas o elenco eleva-a acima do que teimo em entender como apenas boa o suficiente para um filme directo para a TV. O enquadramento do velho oeste também acrescenta uns pozinhos de interesse pois é a primeira finta que faz verter para a direita quando na verdade, mais tarde, entende-se esquerda.

Kirsten Dunst deixou-me logo de pé atrás quando apareceu, mas é sem dúvida a segunda melhor actriz no filme. Lembrou-me rapidamente que sabe representar muito bem e agora está a uma prestação deste nível noutro filme qualquer a seguir a este para ser elevada de Kristen Stewart da década de 2000, num ranking só meu de mediocridade.

Se acham que é exagero de parcialidade minha, entendam que entre uma e outra, no primeiro nome só troca a ordem de duas letras.

Jesse Plemons é, neste filme, o que qualquer outro actor com o mínimo indispensável de alcance representativo poderia ser. Como tal, não é desta que me espanta. Cumpre bem mas é só isso.

Kodi Smit-McPhee é a grande surpresa da metragem. A fragilidade que ele tem desde o princípio ao fim do filme com incrementos muito microscópicos, mas perceptíveis de amadurecimento deixaram-me ainda mais espantado quando o filme se resolve no seu clímax.

Benedict Cumberbatch… O que dizer?… Está em plena forma. É a estrela do filme ainda que o enredo seja composto entre os restantes protagonistas. Mas quando o senhor tem o seu espaço próprio, com as escolhas que faz e que não sobre-expõem qualquer avanço acidental para o atamento do enredo, ele usa e abusa com um refreio e subtileza ao alcance da elite da representação.

Este slow-burner de pouco mais de duas horas conta com uma banda sonora adequada ao enquadramento e que ajuda, sem ter de ajudar, à construção dos momentos.

O grão e paleta de cor transpiram crueza daquele sítio naquele tempo, o que foi muito bem-vindo e remissivo de dois dos meus filmes favoritos de sempre: There Will Be Blood (ambiente e época) e No Country for Old Men (cor e ritmo).

Concluo sublinhando que Jane Campion me lembrou de muitas coisas boas, tornando-as suas, com confiança, controlo, humildade e arrojo. Pesa em mim mais do que queria o tal buraco narrativo e é esse nó que enforca esta crítica nas 3 estrelas e meia.


The Power of the Dog
The Power of the Dog

ANO: 2021

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 126 min.

REALIZAÇÃO: Jane Campion

ELENCO: Benedict Cumberbatch, Kirsten Dunst, Kodi Smit-McPhee

+INFO: IMDb

The Power of the Dog

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