The Sandman é uma jornada fantástica e profunda

Antes de começar esta resenha crítica, devo esclarecer que não conheço da revista em quadrinhos que serve de material base para esta série muito mais do que seu título, protagonista e criador. A adaptação da Netflix para o meio audiovisual da aclamada HQ Sandman, do celebrado autor Neil Gaiman, serviu para mim como um primeiro mergulho neste mundo de fantasia por muitos cultuado. Sendo assim, discutirei a série única e exclusivamente como o produto televisivo que é, evitando quaisquer discussões acerca de fidelidades ou não fidelidades com o material base. Enfim, sigamos para a resenha.

The Sandman é uma experiência marcante. De cara, o seriado encanta com seus visuais atraentes e chamativos, e com seu universo fantástico, rico em criatividade. Em seguida, prende sua atenção com personagens intrigantes, cheios de personalidades fortes e dilemas inquietantes. Então, recompensa seu investimento com um enredo engenhoso, complexo e sensível.

Através de um contexto fantástico, recheado de criaturas fabulosas e feitos incríveis, The Sandman discute o mundano. Questões humanas, como a beleza e o horror do inevitável destino que une nós todos a um final em comum, a agonia de compreender tão pouco da natureza da nossa existência, e o calor das relações que somos capazes de nutrir, servem como alicerce para o desenvolvimento do protagonista da série, Morpheus (Tom Sturridge), o poderoso Senhor dos Sonhos.

Morpheus, ou Sonho, ou Sandman, chame como preferir, é um dos sete Perpétuos, seres eternos que personificam sentimentos e/ou aspectos da vida humana. Cada entidade é governante de seu próprio reino fantástico, onde observam e influenciam a vida na terra. Alguns Perpétuos se fazem muito presentes em meio aos humanos, enquanto outros preferem a distância, mantendo uma relação estritamente vertical com a humanidade. Morpheus se encaixa no segundo caso, optando por governar o Sonhar, seu reino, com total racionalidade, evitando envolver-se com os seres que alimentam seu universo de forma emocional, por mais íntimo e pessoal que o ato de sonhar possa ser. E é essa distância de Morpheus para com os humanos que movimenta o enredo de The Sandman.

Após ser enfraquecido devido a um evento traumático, Morpheus se vê em uma missão de resgate de seus materiais mágicos, que acaba por se tornar uma jornada muito mais complexa do que ele imaginava. Na procura por seus bens preciosos, Sonho tem seus dilemas pessoais, preconceitos e “métodos de trabalho” postos à prova a todo momento. Não há uma pessoa, ser ou entidade que atravesse o caminho de Morpheus que não o sacudam com questionamentos e provocações inquietantes. Logo, percebemos que toda fantasia e espetacularidade de The Sandman tem como principal objetivo desenvolver uma odisséia pessoal e profunda de seu protagonista.

E isso fica nítido ao se analisar a estrutura narrativa do seriado. A primeira grande trama de The Sandman que, em um primeiro instante, parece ser o motor que vai movimentar todo o enredo da temporada, tem sua conclusão logo no quinto de dez episódios. Com esse encerramento de problemática inesperado, fica o questionamento: “o que vai ser dessa história de agora em diante?”. Pois The Sandman não demora a responder isso. O sexto episódio, que incrivelmente supera o anterior em termos de qualidade e firma com folga o posto de ponto alto da temporada, faz uma pausa nas tramas grandiosas, e se preocupa em fazer Morpheus questionar as razões de sua existência, e sua relação com os seres humanos. Após concluir sua missão e retomar o que é seu, Morpheus sente um completo vazio dentro de si e passa por uma grande crise existencial. Como disse, o enredo aqui não é grande em termos de escala, mas compensa com uma enorme carga emocional e filosófica, carregada de beleza e melancolia. Então, a partir daí, somos apresentados à uma nova grande história a ser contada, e mais uma vez vemos o ser Sonho ter seus ideais em xeque.

Toda essa viagem entre razão e emoção é a grande força de The Sandman. Ao dar início à série, não se pode evitar questionar como um ser tão frio e apático quanto Morpheus pode te cativar e manter seu interesse durante praticamente dez horas de conteúdo. Morpheus não é o comum herói que estamos habituados a acompanhar. O regente do Sonhar é frio e meticuloso e, assim como costumam ser os reis, conservador e severo. Sonho nem sempre age de forma justa ou com compaixão, e acaba, muitas vezes, tomando o inesperado posto de opressor.

Essa questão insistia em martelar na minha cabeça enquanto cada episódio construía esse grande universo pacientemente. Foi então, analisando aqueles que rodeiam o Sonho, que percebi que nada seria dele, se não fossem as intrigantes personagens secundárias que insistem em confrontá-lo. The Sandman tem um elenco fantástico, que vai muito além do talentosíssimo protagonista, Tom Sturridge, que compensa o tom inexpressivo de Morpheus com nuances no tom de voz e no seu olhar penetrante e poderoso. De aliados a ameaças, a série não desaponta e mantém um nível altíssimo de qualidade no quesito da atuação.

John Dee (David Thewlis) é, com certeza, a personagem humana de maior destaque da temporada. O perturbado e obcecado desafiante de Morpheus demonstra, com todos seus maneirismos, os traços de um homem prejudicado pela vida de golpes de sua mãe, que acabaram por levá-lo a uma vida de reclusão e rejeição social.

Death (Kirby Howell-Baptiste) foge completamente do tom ameaçador que a Morte costuma ter no imaginário popular, e toma ares de extrema simpatia, gentileza e acolhimento. É dona das mais emocionantes cenas da temporada, que dificilmente deixarão de comover o público.

Lucifer (Gwendoline Christie) é visualmente e presencialmente intrigante. A governante do inferno mostra imponência com sua grandiosidade e suas opressoras asas, mas contrasta tudo isso com seu rosto angelical. É incrível perceber nos detalhes o sofrimento e angústia internalizados em uma personagem tão irônica e, aparentemente, segura de si.

Corinthian (Boyd Holbrook) é um rebelde pesadelo de Morpheus, dotado de um visual e carisma encantadores, que usa como arma para atrair suas vítimas. Debaixo de seus óculos escuros, esconde não só os bizarros dentes no lugar dos olhos, mas também uma psicopatia ímpar.

Desire (Mason Alexander Park) é o sedutor Perpétuo do desejo. Com uma atuação poderosíssima, completa de sorrisos largos e olhares maliciosos, e um visual belíssimo e provocativo, Desire não falha em conquistar com o pouco tempo de tela recebido.

Mas a beleza de The Sandman não se concentra apenas em Desire, pois a série ostenta visuais ricos em detalhes. Mesmo que a fotografia em alguns momentos não valorize isso com um trabalho muito mais básico do que a trama pede, The Sandman encanta dos confins do inferno dignos de capas de discos de metal, passando pelas lúdicas e variadas terras do sonhar, até os mundanos e ordinários cenários humanos. Todo espaço novo que visitamos é totalmente condizente com o tom e os personagens envoltos na trama, e ajudam a contar mais sobre tais personagens e seu universo.

Tal unidade tonal se deve também ao excelente trabalho da banda sonora, que conduz e completa o enredo com muita harmonia. O destaque fica para o tema de Desire, que traduz com perfeição a constante sensação de sedução e perigo que a personagem exala.

Enfim, The Sandman não desaponta quem procura por um novo universo fantástico para mergulhar de cabeça, ao mesmo passo que compensa quem busca por uma obra profunda e reflexiva. A jornada de Morpheus engaja fácil e demonstra potencial para ser mais um carro chefe da Netflix, além de reforçar para quem, como eu, já tinha interesse na obra original, que conferir os quadrinhos é essencial.


The Sandman
Sandman

ANO: 2022

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 10 episódios

REALIZAÇÃO: Jamie Childs, Andrés Baiz, Louise Hooper, Hisko Hulsing, Mairzee Almas, Mike Barker, Coralie Fargeat

ELENCO: Tom Sturidge, Boyd Holbrook, Vivienne Acheampong

+INFO: IMDb

The Sandman

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