The Teacher’s Lounge: quando a vítima se torna o agressor

Me encontro, no momento em que tento idealizar este texto, com muita dificuldade. The Teacher’s Lounge (Das Lehrerzimmer no original alemão, A Sala de Professores em português) me fez sentir muito, com muita intensidade, e me fez refletir com ansiedade sobre complexidades mentalmente exaustivas e conflitantes. O simples fato de ter de revisitar a experiência em minha memória para organizar minhas ideias nesta resenha crítica, cansa, pois tudo o que quero do cenário hostil em que o filme se passa é a completa distância. E o brilhantismo de The Teacher’s Lounge está aí: conseguir fazer do público tão miserável quanto suas personagens.

A busca por justiça que produz mais injustiçados, em uma narrativa de narrativas tão ou mais importantes que a verdade. Em um coletivo há muitos interesses naturalmente conflituosos, logo, a ofensa se faz inevitável. Roubos passam a acontecer em uma escola. Medidas são tomadas, e a quem se é investigado serve o papel de mais nova vítima. O ofendido decide buscar reparação, e em sua busca encontra suspeitos. Os suspeitos se ofendem, e logo a primeira vítima assume o papel de agressor. Em um novelo de perspectivas tendenciosas, as únicas verdades concebíveis são as escoriações de quem foi ferido, e nada mais. Basta agarrar-se àquela narrativa que mais lhe assegura, ou que melhor ajuda a revidar a agressão.

E no meio de tudo isso, se encontra Carla Nowak. A professora, interpretada por Leonie Benesch, encontra, em uma evidência coletada por si mesma, uma forma de resolver os crimes ocorridos na escola. Mas nada sai como o esperado, e Carla logo se vê com todos os dedos apontados para si. De repente, todos esquecem que algo sequer atingiu-a negativamente, e o que causou com seus atos imprudentes passa a ser o que realmente importa. Os indicadores a cercam de todos os lados, e a escola transmuta-se em um tribunal em que tudo pode e deve ser usado contra ela. Quem está ao seu lado a problematiza, e quem a confronta a vilaniza. Os hematomas se acumulam.

O ambiente escolar vira um inferno. Carla é profissional e justa, tenta manter a calma, fazer seu trabalho e garantir que o que é certo seja feito. A professora tenta manter a postura, mas os constantes arranhar de cordas e gemer de teclados angustiantes da banda sonora nos transmitem toda sua agonia, e assim nos puxam com violência para dentro de cena com ela. as paredes se fecham, o vozerio revoltado e exigente ensurdece, e logo se torna difícil respirar. É impossível buscar o que é certo quando tudo o que os demais querem é o que é certo para si, apenas.

À Carla, só resta gritar.

E a mim, resta a confusão entre a lembrança do desespero para deixar The Teacher’s Lounge, e o anseio de revisitá-lo assim que me sentir preparado para tal. A experiência é desesperadoramente desgastante, sim, mas o mérito de prender o público pelo pescoço sem nunca deixá-lo relaxar é enorme, e merece todo o prestígio possível. Assim encontro meu meio de trazer justiça à Carla Nowak.


Das Lehrerzimmer
A Sala de Professores

ANO: 2023

PAÍS: Alemanha

DURAÇÃO: 1h38min

REALIZAÇÃO: Ilker Çatak

ELENCO: Leoni Benesch, Anne-Kathrin Gummich, Rafael Stachowiak

+INFO: IMDb

Das Lehrerzimmer

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