O simples e complexo The Banshees of Inisherin

“Não quero mais ser teu amigo”. Sem nenhum motivo aparente, sem razão. É a partir desta premissa tão simples que nos faz lembrar tempos de escola primária que Martin McDonagh consegue criar um filme tenso, divertido, enigmático e com muito significado que faz analogias a muitos dos males do mundo atual.

McDonagh já é alguém com nome na praça. In Bruges (2008) e Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (2017) são alguns dos seus filmes anteriores que entraram em muitos tops de melhores filmes dos respetivos anos. Ambos os filmes partem de temáticas sérias, mas descontróem o que deles é esperado, com uma mistura de humor negro e surrealidade com outros momentos bastante crús e mais sérios. Neste The Banshees of Inisherin a abordagem não difere muito. O cineasta volta a contar com a dupla Colin Farrell/Brendan Gleeson, a mesma de In Bruges, e, desta vez, coloca-os a jogar em casa, numa vila remota da Irlanda em 1923, durante a Guerra Cívil. E esse começa logo por ser um dos pontos fortes do filme. Aqueles atores ali pertencem, conseguimos imaginar os seus antepassados a fazer parte daquela comunidade e nós, como espetadores, somos chamados a observar, ao mesmo tempo que nos espantamos com toda a dinâmica daquele espaço e daquelas personagens.

Uma premissa simples não significa um guião fraco. Sabemos como McDonagh dá especial atenção à escrita nos seus filmes e, mais uma vez, este é um guião bastante desenvolvido, não só pela forma como, em crescendo, vai construindo as personagens e o escalonar de toda a situação, mas também como dá um grande destaque a personagens secundárias, sendo que elas próprias têm direito aos seus arcos e até temáticas próprias.

Falando de atores, a dupla principal é sensacional. Se Colm (Gleeson) é difícil de empatizar inicialmente – “não quero ser teu amigo porque tu és chato e nada me acrescentas” -, é também fácil percebermos que o mesmo quer deixar uma marca no mundo – através da música – e que quer mais tempo para isso, deixando de perder tempo com trivialidades (embora, claro, não o faça da maneira mais correta); já com Pádraic (Farrell) é fácil sentirmos imediatamente as suas dores ao não perceber a razão para que uma parte fundamental da sua vida desapareça com tanta facilidade. E quando Colm ameaça começar a cortar os seus próprios dedos por cada vez que o ex-amigo o tente abordar, Pádraic ainda mais confuso fica… É uma grande interpretação de Farrell que dá uma dimensionalidade bem maior à personagem do que a de ser apenas “dull”, sendo identificável que para ele próprio se sentir completo, o mesmo necessita da família e dos amigos. Nos papéis secundários, a irmã de Pádraic, Siobhan, tem alguns dos momentos emocionalmente mais poderosos, quer quando chama várias outras personagens à razão, quer quando é obrigada a decidir se quer ser mais alguém do que aquilo que é naquela remota e pequena vila. Por fim, Barry Keoghan encarna Dominic, uma personagem que é, muitas vezes, o alívio cómico, mas que também tem as suas ambições e fantasmas interiores, mesmo que raramente o demonstre com facilidade e nunca seja compreendido.

Se o parágrafo relativo aos atores era necessário, é também importante abordar várias das temáticas deste filme que quase sempre o faz sob a forma de parábolas. É fácil estender o conceito inicial à guerra que ao mesmo tempo acontece. Os dois lados estão chateados, um dos lados não consegue aceitar, o outro lado não quer ouvir e no final tudo acaba por descarrilar para algo muito maior e brutal do que alguma vez deveria ter sido. Outro dos temas em destaque é o de “nos encontrarmos a nós próprios”. Todas estas quatro personagens passam por situações e decisões que se enquadram nesta temática e têm que perceber como querem conviver com os outros – a atenção que se deve dar a amigos e familiares – e com eles próprios, nunca esquecendo que a marca que deixamos no mundo passa muito por aqueles que estão imediatamente à nossa volta. O drama e a comédia acabam por andar sempre de mãos dadas e, mais uma vez, McDonagh mostra saber dominar essa arte, com bastante momentos cómicos, mas também com várias cenas inesperadamente dramáticas e até…sádicas.

Tecnicamente este é também um filme acima da média. A fotografia sombria enquadra-se perfeitamente tanto na história quanto naquela vila e nas condições atmosféricas do local, proporcionando-nos vários planos de cortar a respiração em que poderiamos ficar horas a admirá-los. O ritmo é bom e sente-se uma certa inquietude sempre presente que começa a ser mais evidente a partir do segundo ato através de simbologias próprias da religião e até do misticismo, com recurso a uma bela banda sonora, bem nativa, misteriosa e adequada ao contexto.

Martin McDonagh pega numa premissa incrivelmente simples – “não quero mais ser teu amigo” – e dá-nos outra obra muito singular, que mistura humor negro e drama de uma forma que nos deixará a pensar nela por muito tempo. Apresenta um clima crescente de tensão e entra por caminhos inesperadamente macabros. Todo o elenco brilha, com Farrell à cabeça.


The Banshees of Inisherin
Os Banshees de Inisherin

ANO: 2022

PAÍS: Irlanda, Reino Unido, EUA

DURAÇÃO: 109 minutos

REALIZAÇÃO:

ELENCO: Colin Farrell; Brendan Gleeson; Kerry Condon; Barry Keoghan

+INFO: IMDb

The Banshees of Inisherin

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