O pesadelo que assenta no charme de The Black Phone

Charme. Uma característica muitas vezes associada a seres humanos, mas uma palavra que define tão bem certos filmes pelo seu estilo, condução de história e pela confiança que estes transmitem na forma como nos mostram aquilo que querem dizer. Era isso que esperava de The Black Phone, um filme que mistura os géneros de terror e thriller com alguns elementos fantasiosos? Provavelmente não, mas a colaboração entre Scott Derrickson e Ethan Hawke já vem de longe e deu-nos anteriormente o assustador mas visualmente excitante Sinister, que já apresentava este estranho charme. Estranho porque a história de The Black Phone é macabra. Estranho porque fala-nos de um dos maiores pesadelos de pais e filhos – e como os sonhos e pesadelos importam neste filme!. Estranho porque sentimo-nos atraídos para tudo isto, tal e qual crianças seduzidas por doces para uma viagem sem regresso.

Antes de entrarmos mais a fundo nesta crítica, devo deixar duas considerações. A primeira é a de que evitei trailers. Vi um pouco do primeiro teaser e nada mais. Aconselho-vos a fazer o mesmo sempre que possam e saibam antecipadamente que querem ver algo. Há quem diga que o trailer final deste filme conta demais e – depois de ver o filme, decidi ver o mesmo – posso dizer que concordo. A segunda é a de que esperava que The Black Phone fosse mais perturbador do ponto de vista do terror explícito. Na verdade, não é um filme muito  assustador, mas esse está longe de ser o único objetivo de um filme de terror como tantas vezes já expliquei.

A história é bastante simples. Baseada num conto de Joe Hill – filho do mestre Stephen King – explora o desaparecimento de várias crianças num mistério que assombra uma pequena cidade. Fala-nos também de uma família disfuncional onde dois jovens irmãos super-carismáticos vivem com o seu violento pai alcoólico que não consegue ultrapassar eventos traumáticos familiares. Fala-nos também de bullying e de lutadores. Os lutadores que o são de forma visivelmente mais ativa e os lutadores que o são por se recusarem a desistir e por nunca desistirem mesmo quando todos os espezinham.

Tudo isto encaixa de forma bastante orgânica, tão orgânica que espetadores menos atentos até podem não se aperceber do tanto que este filme tem para dizer em tantas áreas. A coragem de sonhar. A coragem de sermos nós próprios. A coragem de acreditarmos em nós e nos outros. A força da amizade, o trabalho em equipa. Uff…a panóplia de temas é tanta que é incrível que ainda se insiram elementos sobrenaturais a uma sinistra e brutal história de raptos de crianças sem que isso afete a coesão do todo. Tal como referi, não é o filme mais assustador que podem ver – embora também fique a questão…o que há de mais assustador para um pai do que a perda dos seus filhos? – mas é tenso e entusiasmante, prendendo-nos o interesse como só os melhores thrillers e melhores guiões o conseguem fazer.

Finney é a personagem principal – excelente interpretação de Mason Thames – e também muito importante é a personagem de Gwen, sua irmã, que parece ter poderes psíquicos e é um inesperado e eficaz alívio cómico em cenas que tinham tudo para não resultar. Ethan Hawke quase não mostra a cara mas dele vem também muita da força do filme, mostrando-nos um raptor violento e sádico, uma personagem visivelmente desequilibrada – e que assusta pela sua imprevisibilidade – mas que parece sempre um passo à frente de todos. É, ainda assim, nos elementos técnicos onde The Black Phone atinge a sua nota máxima. A realização bastante segura de Derrickson, a belíssima edição a fazer lembrar…Sinister, a granulada e acizentada fotografia que contrasta com as vívidas cores utilizadas em momentos-chave (pensem em IT) e uma bastante eficaz banda sonora, acompanhando sempre os momentos certos pelas notas certas fazem com que a obra seja algo sempre belo de se ver.

The Black Phone é um daqueles filmes que dá vontade de visualizar várias vezes, analisando todos os seus detalhes técnicos e tudo o que quer passar para o espetador. Mesmo não sendo tão perturbador quanto esperava, é uma história simples contada de forma tensa e bastante eficaz, suportando-se em exemplares elementos técnicos e boas atuações, sem esquecer todas as importantes mensagens que transmite pelo caminho.


The Black Phone
O Telefone Negro

ANO: 2022

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 102 minutos

REALIZAÇÃO: Scott Derrickson

ELENCO: Mason Thames; Madeleine McGraw; Ethan Hawke; Jeremy Davies

+INFO: IMDb

The Black Phone

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