The First Omen reanima um clássico do terror

Eram tempos diferentes. A internet e as redes sociais não eram o que hoje são e o acesso à informação era mais limitado. Na verdade, quando descobri The Omen ainda apenas acedia à internet com um cabo que ligava à Dreamcast. Como disse, eram tempos diferentes, mas as prateleiras do videoclube local possibilitavam gratas surpresas como aquela. Dias havia em que estava a alugar a maior aberração à face da Terra. Mas naquele dia estava a alugar – ou o meu irmão, pois eu não tinha idade para tal… – um maravilho filme atmosférico, pesado e com muito significado que mal eu sabia ser um clássico.

Hoje dificilmente alguém irá ver The First Omen sem saber do universo a que pertence. Alguns apenas saberão isso sem terem visto o que está para trás, mas quem não viu os filmes anteriores não irá entender as várias homenagens e referências aqui presentes. A primeira está logo na primeira cena quando algo cai do alto numa conversa premonitória entre dois padres. Mais se sucedem e muitas elas são tão subtis quanto satisfatórias, como o movimento de câmara utilizado por Arkasha Stevenson. A câmara, por vezes, mexe-se de um modo desenfreado, de um modo errático, de um modo quase demoníaco replicando muito bem o que o clássico filme fez no passado. 

Nesta história, The First Omen não é super inovador. Uma jovem freira a chegar a um convento num país estrangeiro – Itália, claro – é algo muito visto no terror. Ainda na semana passada com Immaculate (um filme manifestamente inferior, mas que venderá mais porque é o mundo que temos). No entanto, The First Omen, uma prequela do filme original, faz tudo com uma confiança própria de quem sabe que os passos seguros levarão a um prazeroso destino final. O elenco demonstra essa confiança e apostas seguras. Ralph Ineson, Bill Nighy e Charles Dance nasceram para estes papéis misteriosos e preconizadores de coisas más. Já Nell Tiger Free é uma escolha perfeita para o papel principal. Para muitos ela poderá ser uma desconhecida, mas quem teve o prazer de a ver na série Servant sabia, à partida, que ela aqui encaixaria que nem uma luva. E assim foi. Com uma expressividade e fisicalidade capazes de nos dizer tudo com poucas palavras, dá ao filme o manto de credibilidade que se pretende. Desde o início que há uma sensação de que algo está errado e o filme nunca deixa que essa sensação se vá, com alguns bem empregues sustos e algumas enigmáticas cenas, mesmo que em alguns casos tenhamos a sensação que já vimos isto antes. Aliás, esse é mesmo o maior problema deste filme: a saturação no mercado de filmes de terror que envolvem jovens freitas com pouco poder de choque nos dias que correm. 

Ainda assim, The First Omen é uma obra certinha que narrativa e tecnicamente apresenta fortes argumentos a seu favor. Apesar de já termos antes visto parte do que faz, é o melhor filme da saga desde o original e tem fortes e seguras interpretações a sustentar o que tem para contar. 

 


The First Omen
O Génio do Mal: O Início

ANO: 2024

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 120 minutos

REALIZAÇÃO: Arkasha Stevenson

ELENCO: Nell Tiger Free; Maria Caballero; Tawfeek Barhom; Sônia Braga; Ralph Ineson; Bill Nighy; Charles Dance

+INFO: IMDb

The First Omen

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